Centenário e afundamento
Cuba celebra nesta semana o centenário de Fidel Castro enquanto enfrenta crise interna, pressionada pelos EUA
Jurandir Soares
Cuba celebra nesta semana o centenário de nascimento de Fidel Castro, morto em 2016, mas a festa oficial ocorre sob uma contradição difícil de esconder: enquanto o regime exalta a memória do líder da Revolução de 1959, milhões de cubanos enfrentam uma das mais graves crises econômicas, energéticas e sociais da história recente da ilha. Fidel nasceu em 13 de agosto de 1926 e governou Cuba durante quase meio século. Agora, cem anos depois, seu legado é celebrado por dirigentes e militantes de esquerda, enquanto o país mergulha em apagões que podem durar mais de 20 horas, escassez de alimentos, combustíveis, medicamentos e deterioração dos serviços públicos.
A falta de combustível compromete transporte, abastecimento de água, coleta de lixo, produção de alimentos e funcionamento de hospitais. O setor de saúde, durante décadas apresentado como uma das grandes conquistas da Revolução, também sofre com a falta de medicamentos, combustível e condições para manter procedimentos e serviços essenciais.
LEGADO
Fidel Castro foi, durante décadas, uma espécie de mito político para parcelas importantes da esquerda latino-americana. A Revolução Cubana alimentou a ideia de que seria possível construir uma sociedade igualitária, organizada em torno da propriedade estatal e da distribuição coletiva da riqueza, independente dos Estados Unidos. Cuba tornou-se símbolo de soberania nacional, resistência ao capitalismo e desafio à hegemonia americana.
O problema é que o sonho não produziu a prosperidade prometida. A economia cubana tornou-se excessivamente dependente de aliados externos. Primeiro, da União Soviética, que sustentou Havana durante décadas por meio de comércio favorecido, petróleo e assistência financeira. Quando a URSS desapareceu, em 1991, parou tudo.
DEPENDÊNCIA
Depois de Moscou, veio Caracas. A Venezuela de Hugo Chávez passou a fornecer petróleo subsidiado e tornou-se o principal suporte externo do regime cubano. A relação permitiu a Havana ganhar tempo e preservar seu modelo econômico. Mas a dependência apenas mudou de endereço. Quando a Venezuela entrou em colapso e, posteriormente, Nicolás Maduro foi apeado do poder, Cuba perdeu novamente uma de suas principais fontes de energia e sustentação. A consequência foi dramática. Sem combustível suficiente, a já envelhecida estrutura elétrica cubana entrou em uma espiral de colapsos.
TRUMP
É nesse cenário que aparece o terceiro grande desafio externo ao regime. Depois de pressionar e derrubar Maduro na Venezuela, Trump voltou sua atenção para Cuba. Washington passou a exigir que Havana “faça um acordo”, combinando pressão econômica, restrições ao fornecimento de petróleo e uma retórica que não descarta medidas muito mais duras.
A estratégia é clara: aumentar o custo da permanência do atual modelo até que seus dirigentes aceitem negociar. O problema é que a mesma pressão que pode enfraquecer o governo também atinge diretamente a população, que já vive no limite. Cuba encontra-se, portanto, entre duas forças: a crise interna e a pressão externa.
NEGOCIAÇÃO
Irão os atuais detentores do poder negociar? A resposta mais provável é sim, mas somente quando acreditarem que negociar é a melhor forma de preservar o poder. O governo de Miguel Díaz-Canel já começou a admitir reformas econômicas mais profundas, incluindo maior abertura ao investimento privado e estrangeiro. Foram aprovadas 176 medidas de caráter mais orientado ao mercado, sinal de que a ortodoxia econômica de Fidel começa a ser flexibilizada.
A questão central, porém, não é apenas econômica. Washington deseja mudanças políticas, enquanto Havana tentará preservar o Partido Comunista e a estrutura de poder. Para os dirigentes cubanos, aceitar uma abertura controlada pode ser menos perigoso do que enfrentar o colapso econômico e uma eventual intervenção.
O centenário de Fidel, assim, expõe uma ironia histórica: a Revolução que nasceu prometendo independência e autossuficiência chega aos cem anos de seu principal líder novamente dependente de decisões tomadas no exterior. A pergunta já não é se o modelo cubano precisa mudar. É até onde seus dirigentes estarão dispostos a mudar para impedir que a própria crise determine o fim de uma era.
Correio do Povo
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