Trump joga Canadá para China
Desde que o presidente Donald Trump veio com a afirmação esdrúxula de que iria transformar o Canadá no 51° estado dos Estados Unidos, além de impor tarifas comerciais, os canadenses passaram a bloquear a entrada de produtos americanos no seu país
Jurandir Soares
Desde que o presidente Donald Trump veio com a afirmação esdrúxula de que iria transformar o Canadá no 51° estado dos Estados Unidos, além de impor tarifas comerciais, os canadenses passaram a bloquear a entrada de produtos norte-americanos no seu país. Alternativa imediata: buscar um novo mercado, tão forte quanto o do vizinho e antigo parceiro. Não deu outra, a China logo apareceu como novo parceiro comercial canadense. Segundo informações do Ministério da Economia, o Canadá pretende aprofundar a cooperação com Pequim na área das tecnologias limpas, numa aposta que poderá acelerar a transição energética e abrir novas oportunidades para as empresas canadenses.
INCREMENTO
Nos últimos meses, o governo de Mark Carney intensificou o diálogo com os chineses sobre setores como veículos elétricos, baterias, energia solar, energia eólica e sistemas de armazenamento de energia. Entre as medidas anunciadas está a autorização para a entrada limitada de veículos elétricos fabricados na China. O objetivo passa por incentivar parcerias industriais, promover a partilha de conhecimento e atrair investimentos para o setor de energias limpas.
Especialistas defendem que esta aproximação poderá ajudar o Canadá a acompanhar a transformação energética em curso atualmente em nível mundial. Atualmente, a China lidera a produção global de painéis solares, turbinas eólicas, baterias e veículos elétricos. Ou seja, a Tesla, de Elon Musk, é uma das empresas que perde boa parte do mercado canadense para os chineses.
MINERAIS
O interesse canadense estende-se também aos minerais críticos, como cobre, cobalto e crômio, essenciais para a fabricação de equipamentos ligados às energias renováveis e à mobilidade elétrica. Apesar das oportunidades, esta estratégia levanta dúvidas na indústria automobilística e entre alguns especialistas, que alertam para os desafios relacionados com a concorrência, a segurança tecnológica e a proteção de dados.
Ainda assim, o governo canadense considera que uma cooperação equilibrada poderá reforçar a competitividade do país, diversificar as relações comerciais e apoiar a transição para uma economia de baixo carbono.
MUDANÇA
A aproximação entre Ottawa e Pequim se dá na esteira das pretensões hegemônicas de Trump sobre o Canadá, como se o vizinho do norte, que possui a segunda maior extensão territorial do planeta, fosse uma republiqueta qualquer. O resultado é que se estabeleceu uma substancial diminuição no comércio entre Canadá e EUA, ao mesmo tempo em que esta cooperação com Pequim poderá marcar uma nova etapa na política econômica e energética do Canadá, conciliando crescimento econômico, inovação e sustentabilidade.
Em meio a isso, a animosidade com os Estados Unidos é cada vez maior. O mais recente episódio ocorreu em 24 de julho último, dia em que deveria ser inaugurada uma importante ponte ligando os dois países. Dois dias antes da data que marcaria a inauguração da Ponte Internacional Gordie Howe, que liga Detroit, nos Estados Unidos, a Windsor, no Canadá, o governo canadense anunciou a suspensão do ato. A ponte tem 2,4 quilômetros de extensão, cruzando o rio Detroit.
CUSTOS
O motivo da suspensão se deve ao fato de o governo dos EUA ter anunciado, no dia 20 de julho, a imposição de uma tarifa adicional de 50% sobre uma ampla gama de produtos importados do Canadá. Segundo Trump, o objetivo é compensar “o ônus ou a desvantagem decorrente da discriminação contra o comércio dos Estados Unidos”.
Além disso, estabeleceu mais uma polêmica. De acordo com a AP, o Canadá financiou a construção da ponte por meio de um acordo que prevê a recuperação dos custos com a arrecadação de pedágios. O projeto, negociado durante a gestão do ex-governador de Michigan Rick Snyder, começou a ser construído em 2018 e custou quase US$ 4,4 bilhões. O presidente Trump, no entanto, queria ficar com a propriedade da metade da ponte.
O fato é que a ponte era vista como um importante elo a impulsionar o comércio entre Canadá e EUA, porém, diante dos últimos acontecimentos, perdeu muito de sua importância. Seu fluxo deverá ser substituído pelo do porto de Vancouver, por onde os produtos chineses entram no território canadense.
Correio do Povo
Comentários
Postar um comentário