François Rabelais - O médico humanista que fundou a prosa satírica francesa
François Rabelais (1494 - 9 de abril de 1553) foi um escritor, médico, humanista e satirista francês, considerado o primeiro grande autor de prosa em língua francesa. Nascido em Seuilly, na Touraine, no Reino da França, e falecido em Paris, é o criador da obra-prima Gargântua e Pantagruel e do adjetivo "rabelaisiano" - marcado por humor grosseiro, robusto e extravagância caricatural.
Humanista do Renascimento francês e estudioso de grego, Rabelais viveu a turbulência da Reforma. Admirador de Erasmo, criticou a escolástica medieval e os abusos de príncipes e papas, atraindo oposição tanto do teólogo protestante João Calvino quanto da hierarquia católica.
Do mosteiro à medicina
Filho do advogado Antoine Rabelais, teria começado como noviço franciscano. Por volta de 1520 estava em Fontenay-le-Comte, onde se tornou amigo de Pierre Lamy e correspondente de Guillaume Budé. Quando a Sorbonne proibiu o estudo do grego em 1523, teve seus livros confiscados.
Com apoio do bispo Geoffroy d'Estissac, conseguiu deixar os franciscanos para a Ordem Beneditina em Maillezais, onde atuou como secretário.
Por volta de 1527, deixou o mosteiro sem autorização, tornando-se apóstata até ser absolvido pelo Papa Paulo III em 1536. Estudou medicina nas Universidades de Poitiers e Montpellier. Em 1532 mudou-se para Lyon, centro intelectual do Renascimento, e trabalhou como médico no hospital Hôtel-Dieu (1532-1535). Lá editou obras de Hipócrates, Galeno e Manardo para o impressor Sebastian Gryphius e lecionou anatomia.
Em 1537 obteve a licença e o doutorado em medicina em Montpellier, ganhando fama europeia.
A obra: Gargântua e Pantagruel
Sob o pseudônimo de Alcofribas Nasier (anagrama de François Rabelais), publicou em 1532 Pantagruel, Rei dos Dipsómanos, para complementar a renda do hospital. A ideia dos gigantes vinha da literatura popular de feira Les Grandes chroniques du grand et énorme géant Gargantua.
Em 1534 publicou a prequela Gargântua. Seguiram-se o Terceiro Livro (1546) e o Quarto Livro (1552), mais eruditos, e o Quinto Livro (1564), de autoria contestada. Publicou ainda os almanaques paródicos Pantagrueline Prognostication (1533-1542).
Seu estilo introduz pela primeira vez em francês palavras como encyclopédie, caballe, progrès e utopie. Segundo a Rádio-Canadá, Gargântua acrescentou mais de 800 palavras ao francês. Sua escrita mistura latim, grego, termos regionais, neologismos e trocadilhos sexuais e escatológicos - o chamado "pantagruelismo", filosofia de "comer, beber e se alegrar".
A obra é estruturada em torno de dois eixos: a morfologia (beleza e enquadramento na raça) e a função. Em Gargântua, cria a famosa Abadia de Thélème, aberta a monges e freiras, com piscina e sem relógios, cuja única regra é: "Faze o que quiseres" (Fay ce que vouldras).
O Terceiro Livro debate se Panurgo deve se casar, com consultas a sibilas, teólogos e o bobo Triboulet. O Quarto Livro é uma odisseia errática em busca do Oráculo da Garrafa Divina, inspirada nos Argonautas e em Luciano de Samósata.
Todas as crônicas foram censuradas pela Sorbonne e pelo Parlamento de Paris, sendo salvas apenas pela proteção dos cardeais Jean du Bellay e Odet de Coligny.
Viagens e últimos anos
Rabelais fez três viagens a Roma sob proteção de Jean du Bellay (1534, 1535-1536, 1548-1549), atuando como secretário e médico. Viveu em Turim (1540), Metz (1545-1547) como forma de escapar da condenação, e foi cura de Saint-Christophe-du-Jambet e Meudon. Renunciou à cura em janeiro de 1553 e morreu em Paris pouco depois.
Legado
Mikhail Bakhtin derivou de Rabelais seus conceitos de carnavalesco e corpo grotesco. Para La Bruyère, seu livro era "um enigma" e "uma monstruosa assembleia de moral refinada e corrupção imunda". Foi admirado por Balzac, Joyce, Sterne, Huxley e Kundera - para quem, ao lado de Cervantes, é o fundador da arte do romance.
Seu legado inclui a Universidade François Rabelais em Tours (1970-2018), o asteroide 5666 Rabelais e a tradição da Faculdade de Medicina de Montpellier, onde os formandos juram sob sua toga.

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