Independência e alerta

 Para os ucranianos, a guerra passou a representar o direito de existir como Estado independente e decidir livremente suas alianças

Jurandir Soares

A Ucrânia celebrou nesta segunda-feira, 24 de agosto, 35 anos de sua declaração de independência. Em 1991, depois do desmoronamento do império soviético, os ucranianos foram às urnas e aprovaram maciçamente a separação de Moscou: 92% dos eleitores votaram pela independência. Fato marcante foi que, na ocasião, em troca do reconhecimento de sua independência, a Ucrânia – que era o principal país da União Soviética, depois da Rússia – aceitou entregar todo o arsenal nuclear, que era um dos maiores do mundo, para Moscou. Trinta e cinco anos depois, a celebração ocorre em meio à maior tragédia vivida pelo país desde a independência: a invasão russa em fevereiro de 2022, numa guerra que já ultrapassou quatro anos em um dos principais confrontos geopolíticos do século 21.


ARSENAL


Quando a União Soviética desapareceu, em dezembro de 1991, a Ucrânia ficou com o terceiro maior arsenal nuclear do planeta. Eram cerca de 1,9 mil ogivas estratégicas, além de 176 mísseis balísticos intercontinentais e 44 bombardeiros. Aquele armamento, entretanto, fazia parte da estrutura nuclear soviética. A solução encontrada foi a desnuclearização. Em 1994, pelo Memorando de Budapeste, Ucrânia, Rússia, Estados Unidos e Reino Unido formalizaram compromissos relacionados à soberania, à independência e às fronteiras ucranianas. Kiev concordou em abandonar seu arsenal e aderir ao Tratado de Não Proliferação Nuclear. As últimas armas nucleares deixaram o território ucraniano em 1996.


INVASÃO


A história adquiriu outro significado depois de 2014, com a anexação da Crimeia pela Rússia e, sobretudo, a invasão em larga escala de 2022. Vladimir Putin nunca escondeu sua visão de que o desaparecimento da URSS representou uma das maiores tragédias geopolíticas do século 20 e passou a defender uma esfera de influência de Moscou sobre antigas repúblicas soviéticas. Para o Kremlin, a aproximação da Ucrânia com o Ocidente e com a Otan tornou-se uma ameaça estratégica.


Para os ucranianos, porém, a guerra passou a representar algo muito mais profundo: o direito de existir como Estado independente e decidir livremente suas alianças.


É justamente essa determinação que explica a resistência de um país militarmente inferior à Rússia. A Ucrânia não conseguiu impedir que Moscou ocupasse parcelas de seu território, mas impediu que Putin alcançasse o objetivo inicial de subjugar Kiev rapidamente e instalar um governo subordinado ao Kremlin.


DEFESA


A resposta ocidental começa a assumir dimensão ainda mais estratégica. Reino Unido e França avançam na transferência de tecnologia para que armamentos de longo alcance possam ser produzidos em território ucraniano. Londres anunciou ontem que permitirá o acesso a informações classificadas sobre componentes dos mísseis Storm Shadow, enquanto a França também trabalha para viabilizar linhas de produção de armamentos na Ucrânia. A Alemanha, por sua vez, amplia a cooperação em defesa aérea e produção conjunta de armas.


ALIANÇA


É nesse ponto que a guerra deixou de ser apenas uma questão entre Moscou e Kiev. Embora a Otan não esteja formalmente em guerra com a Rússia, seus principais integrantes fornecem armas, treinamento, inteligência, sistemas de defesa aérea e recursos financeiros que permitem a Kiev continuar combatendo. A União Europeia aprovou nesta segunda-feira mais 6,1 bilhões de euros (cerca de R$ 36 bilhões) para defesa ucraniana, incluindo sistemas antiaéreos, mísseis, munição e radares. Para a Aliança Atlântica, a defesa da Ucrânia significa também a defesa de uma ordem europeia baseada na soberania e no respeito às fronteiras.


Ao completar 35 anos, portanto, a Ucrânia comemora uma independência que deixou de ser apenas uma conquista histórica para se transformar em luta cotidiana. De um povo que, depois de entregar suas armas nucleares acreditando nas garantias internacionais, descobriu que a melhor garantia de sua independência talvez seja a capacidade de defendê-la. É essa contradição que torna o aniversário ucraniano, ao mesmo tempo, uma celebração e um alerta para todo o mundo.


Correio do Povo

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