De líder do turismo a menos de R$ 1 bi: CVC tenta reverter crise após perder 97% do valor desde 2019

 


A CVC Corp, que por anos liderou o mercado de turismo no Brasil, vive um dos momentos mais desafiadores de sua história. Desde 2019, as ações da companhia acumulam desvalorização de 97%, reduzindo seu valor de mercado para menos de R$ 1 bilhão. Em agosto de 2026, a empresa segue em processo de reestruturação, diante de um cenário marcado por elevado endividamento, juros altos e mudanças no comportamento dos consumidores.

A queda da companhia é resultado de uma combinação de fatores internos e externos. Em 2020, a empresa revelou inconsistências contábeis que somavam R$ 362,4 milhões, episódio que comprometeu a confiança do mercado e dos investidores. Na sequência, a pandemia da Covid-19 praticamente interrompeu as atividades do setor de turismo.

Já no cenário atual, a taxa Selic em patamar elevado aumentou o custo das dívidas da empresa, tornando os financiamentos mais caros. Além disso, a alta do petróleo elevou os preços das passagens aéreas, reduzindo as margens de lucro mesmo nos períodos em que a companhia consegue manter um bom volume de vendas.

Mudança no consumidor transformou o mercado

O perfil dos viajantes também mudou significativamente. Se antes a contratação de pacotes era feita, em grande parte, nas lojas físicas, hoje o planejamento das viagens acontece principalmente pela internet e por aplicativos.

Essa transformação favoreceu plataformas digitais e expôs as dificuldades da CVC, que mantinha uma estrutura baseada em lojas físicas, especialmente em shoppings, com custos operacionais elevados.

Especialistas avaliam que o desafio vai além de fortalecer a presença online. A companhia também precisa adaptar sua comunicação para consumidores mais jovens, acostumados com soluções digitais rápidas, sem abrir mão da credibilidade construída ao longo de décadas.

Estratégia aposta na integração entre lojas e ambiente digital

Como parte da reestruturação, a CVC passou a investir no chamado modelo "figital", que integra os canais físicos e digitais.

A estratégia consiste em atrair clientes por meio do site e das redes sociais para, posteriormente, concluir a venda em uma loja física com o suporte de um consultor. Segundo a empresa, cerca de 60% do movimento das unidades já é gerado por esse primeiro contato no ambiente digital.

Outra mudança foi a reformulação da rede de atendimento. Além das tradicionais lojas, a companhia passou a ampliar o número de franquias menores e quiosques, inclusive em municípios do interior. A medida reduz custos operacionais e compartilha parte do risco do negócio com os franqueados.

Situação financeira ainda inspira cautela

Mesmo com a geração de R$ 35,5 milhões em caixa no segundo trimestre de 2026, a CVC encerrou o período com prejuízo líquido de R$ 72,5 milhões.

Boa parte desse resultado é atribuída ao elevado custo das dívidas, especialmente das debêntures, cujos juros acompanham a variação do CDI.

Outro fator que impactou o desempenho das ações foi a venda de parte da participação da Apex Partners na companhia. A gestora de fundos, que é alvo de investigações, realizou a operação recentemente, aumentando a pressão sobre os papéis no mercado.

A administração afirma que o processo de recuperação operacional está em andamento, mas reconhece que uma redução das taxas de juros será determinante para que a companhia volte a registrar lucro de forma consistente.

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