O fracasso da trégua
O memorando que deveria abrir caminho para a paz, termina com as duas potências cada vez mais distantes de um acordo
Jurandir Soares
O prazo de 60 dias previsto no memorando de entendimento firmado em junho entre Estados Unidos e Irã terminou nesta segunda-feira sem que o acordo de paz saísse do papel. O documento estabelecia uma cessação imediata e permanente das hostilidades, a reabertura gradual do Estreito de Ormuz e o início de negociações para um acordo definitivo. Na prática, porém, o entendimento foi sendo corroído pela desconfiança, pelas acusações mútuas e pela continuidade das ações militares.
O resultado é que uma das mais importantes rotas marítimas do planeta permanece no centro da guerra. Os EUA mantêm o bloqueio naval aos portos iranianos e realizaram ataques contra instalações costeiras, enquanto o Irã passou a impedir ou atacar embarcações que considera não autorizadas a navegar pelo estreito. O que, antes da guerra, era uma passagem essencial e livre para o comércio internacional transformou-se em uma área militarizada, com consequências diretas sobre o preço do petróleo, os fretes e a segurança energética mundial.
IMPASSE
O memorando previa obrigações para os dois lados. Washington deveria começar imediatamente a desmontar o bloqueio naval contra o Irã e concluí-lo em até 30 dias. Teerã, por sua vez, deveria fazer esforços para garantir a passagem segura de navios comerciais por Ormuz durante os 60 dias de vigência do entendimento. O texto também estabelecia que os dois países deveriam negociar, nesse período, um acordo definitivo.
Nada disso chegou ao objetivo final. Cada governo passou a acusar o outro de violar o compromisso. A consequência foi o retorno da lógica militar, justamente quando a diplomacia deveria estar produzindo resultados. Com o encerramento do prazo, Washington descartou uma extensão da trégua, enquanto Teerã advertiu que não pretende reabrir plenamente o estreito sem concessões norte-americanas.
O Estreito de Ormuz é uma passagem marítima estratégica por onde, em condições normais, circula parcela expressiva do petróleo e do gás exportados pelo Golfo Pérsico. Sua interrupção não afeta apenas os países da região: repercute nos mercados de energia de todo o mundo. Segundo dados recentes, o fluxo de petróleo pelo estreito caiu de cerca de 18 milhões para aproximadamente 2 milhões de barris por dia.
EXIGÊNCIAS
Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano e principal negociador de Teerã, afirma que a manutenção ou não do fechamento de Ormuz está condicionada ao cumprimento das obrigações americanas. Entre as exigências estão o fim do bloqueio aos portos iranianos, a suspensão das sanções sobre o petróleo, a liberação de ativos iranianos congelados e a interrupção das ameaças e operações militares dos norte-americanos.
A posição de Teerã revela o tamanho do impasse. O país quer transformar a abertura do estreito em moeda de troca para obter alívio econômico e o fim das ações militares norte-americanas. Washington, por sua vez, pretende utilizar sanções e pressão militar para obrigar o regime iraniano a aceitar suas condições. Nenhum dos lados parece disposto a fazer a primeira concessão.
DELÍRIO
Nesse ambiente, Donald Trump acrescentou um elemento que beira o surrealismo diplomático: publicou um mapa identificando o Estreito de Ormuz como “novo território dos Estados Unidos”.
A iniciativa veio depois de o presidente americano defender publicamente a possibilidade de transformar o estratégico corredor marítimo em território estadunidense.
A declaração não altera, evidentemente, o status jurídico do estreito, cuja soberania e direitos de navegação são regidos pelo Direito Internacional e envolvem principalmente Irã e Omã. Mas revela a dimensão da escalada retórica. Enquanto a diplomacia fracassa, Trump ameaça novos bombardeios e Teerã promete manter Ormuz fechado até que Washington cumpra suas condições.
O memorando de 60 dias, que deveria abrir caminho para a paz, termina assim como começou a guerra: com navios ameaçados, petróleo sob tensão e duas potências cada vez mais distantes de um acordo.
Correio do Povo
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