sexta-feira, 20 de agosto de 2004

Reencontrando o tempo, redescobrindo a literatura, por Moacyr Scliar

Receita para diferenciar uma pessoa comum de grande escritor: dar a ambos uma dessas pequenas tortas que os franceses conhecem como madeleines. A pessoa comum gostará ou não gostará, mas ficará nisso. O grande escritor imediatamente mergulhará em recordações do passado, que resultarão numa notável obra literária. Observação: a madeleine não precisa ser de qualidade excepcional, mas o escritor deve ser Marcel Proust.

Nascido em Auteil, perto de Paris, em 1871, Proust era filho de um casal peculiar. O pai, o médico Adrien Proust, era um homem enérgico, autoritário mesmo. A mãe, Jeanne Wiell, vinha de uma próspera família judaica da Alsácia e foi um pequeno Marcel o tipo da mãe judia superprotetora. Proteção de que ele aliás precisava: era um menino enfermiço, sujeito a crises de asma. Apesar disso, foi à escola e até fez um ano de serviço militar. Depois cursou Direito na universidade.

Ainda jovem escrevia para revistas simbolistas e frequentava salões como o de madame Arman, amiga do famoso escritor Anatole France. Graças a este conseguiu publicar (1896) seu primeiro livro, Les Plaisirs et les Jours, coletânea de contos, ensaios e poemas, que não teve maior repercussão. Tentou um romance, que ficou inacabado (mas foi publicado em 1952, com o título de Jean Santeuil). Dedicou-se então à tradução e à redação de artigos. Com a morte do pai (1903) e da mãe (1905), abandonou a alta sociedade. Financeiramente independente, refugiou-se em seu apartamento no Boulevard Haussmann e ali dedicou-se a escrever. Em 1907, publicou no Le Figaro um artigo sugestivamente intitulado Sentimentos Filiais de um Parricida, no qual analisa dois elementos que seriam fundamentais em seu trabalho: culpa e memória. Estava pronto para começar sua obra monumental Em Busca do Tempo Perdido (La Recherche du Temps Perdu), tarefa a que dedicaria boa parte de sua curta vida (faleceu de pneumonia em 1922).

São sete partes, a primeira das quais, No Caminho de Swann, financiou com seu próprio bolso em 1913, depois que André Gide aconselhou a editora Gallimard a rejeitá-la. O livro provocou estranheza (E. M. Forster considerou-o “caótico”). Mas Gide voltou atrás, apoiando a publicação dos volumes restantes, que acabaram por fazer sucesso. Um sucesso que ele não chegou a presenciar: os três últimos volumes foram publicados após a sua morte.

No Caminho de Swann está dividido em três partes. A primeira intitula-se “Combray”, nome da vila onde o narrador passou a infância. Toda a ação se desenrola em uma noite. Deitado, ele evoca sua infância e os personagens que nela foram importantes. A segunda, Um Amor de Swann, é focada neste parisiense elegante, mundano, amante da arte. Swann conhece a fútil e inconstante Odette de Crecy com quem se casa, apenas para concluir que está perdendo tempo com ela (e a questão do “tempo perdido” remete ao título geral da obra). A terceira parte conta com a adolescência do narrador em Paris e seu amor por Gilberte. Passado e presente se fundem, e as lembranças mudam de acordo com o momento em que são evocadas. Enfim, a memória, e o questionamento da memória dão o tom da novela. O estilo é peculiar: longos parágrafos que, segundo Mário Quintana, um dos tradutores de Proust no Brasil, “davam a volta ao quarteirão”. Mas foi uma literatura renovadora, que influenciou autores como Virgini Woolf e James Joyce e permanece como um monumento literário do modernidade.

Fonte: Zero Hora

quarta-feira, 18 de agosto de 2004

Nós, os covardes, por Rosane de Oliveira

O tom pode ter sido de brincadeira, mas o conteúdo da declaração do presidente Lula em Santo Domingo é inequívoco: - Vocês são um bando de covardes mesmo. Não tiveram coragem de defender o conselho nacional de jornalistas.
Ou seja: o presidente da República acha que foi por falta de coragem que não defendemos o monstrengo que o Palácio do Planalto patrocinou, atendendo à reivindicação da Federação Nacional dos Jornalistas.
No Aurélio, covardia e sinônimo de falta de coragem, medo, timidez, poltronice, fraqueza de ânimo, pulsilaminidade. A frase contém uma insinuação nas entrelinhas: a de que os jornalistas adorariam defender o projeto mas não o fazem por medo.
Se lesse o que o jornalista de norte a sul do Brasil têm escrito sobre esse projeto, o presidente saberia que não se trata de falta de coragem para defender a proposta. É convicção mesmo.
Talvez Lula tenha razão em um ponto: é medo também. Não medo de desagradar aos seus empregadores, como insinua, mas de ter o registro profissional cassado por colegas investidos no papel de juiz, decidindo o que é certo e o que é errado, como se jornalismo fosse uma ciência exata.
É verdade que muitos jornalistas ainda não tinham nascido e os sindicalistas já reivindicavam a criação de um conselho ou coisa parecida. Nunca se consultou um a um para saber o que achamos. Talvez por saberem que a maioria dos jornalistas em atividade não deu procuração à Fenaj para falar em seu nome, os presidentes que antecederam Lula nunca propuseram a criação de um conselho para “orientar, disciplinar e fiscalizar” a atividade jornalística.
Criticado pelos principais colunistas do país, o assunto começava a morrer. Até o presidente do PT, José Genoíno, tinha sugerido a retirada do projeto. O presidente boquirroto se encarregou de ressuscitá-lo.


Fonte: Coluna página 10, Zero Hora, página 8 de 18 de agosto de 2004.

Declaração de Lula é repudiada


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu unir oposição e aliados ao rotular como “covardes” os jornalistas que são contrários à criação do Conselho Federal de Jornalismo (CFJ). Lula criticou um grupo de repórteres, segunda-feira, em Santo Domingo, quando foi cumprimentar o novo presidente da República Dominicana, Leonel Fernandez. No Senado, os líderes do PSDB, Arthur Virgílio, e do PFL, Agripino Maia, repudiaram o autoritarismo do presidente. Até a representante do governo, senadora Ideli Salvati, líder do PT na Casa, contestou a posição de Lula, lamentou a generalização e sugeriu que ele faça uma retificação.
Dirigentes da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), responsável pelo projeto do CFJ encaminhado ao governo rechaçaram a tentativa de associar a resistência da categoria a grupos que desejam politizar o tema. Para o presidente da Fenaj, Sérgio Murilo de Andrade, o comentário foi inadequado. Na opinião do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Roberto Busato, Lula “fez um desserviço à Nação e aos jornalistas”. A organização dos Repórteres Sem Fronteira divulgou comunicado em que pede a retirada do projeto no Congresso, argumentando que “não cabe ao Estado garantir o respeito à ética por parte da imprensa”.


Fonte: Correio do Povo, capa da edição de 18 de agosto de 2004.

Perdendo as rédeas

 A carruagem presidencial desandou na República Dominicana. A acusação de que os jornalistas são “um bando de covardes” não tem precedentes. Já fomos “subversivos”, “incendiários” e “perturbadores da ordem pública”, mas a qualificação de ontem estra melancolicamente no caderninho. Se a intenção do presidente Lula era defender a Federação Nacional dos Jornalistas, que promoveu a ideia de criação do Conselho Federal de Jornalismo, o tiro saiu pela culatra. Os sindicalistas, aliados do Planalto, não gostaram do rótulo. Tem mais: nenhum conselho profissional surgiu pelas mãos do governo. O patrocínio buscado pela Federação foi prática do Estado Novo. No regime democrático, o Congresso está aberto para todas as formas de debate.


Fonte: Coluna PANORAMA POLÍTICO/ Armando Burd, edição do Correio do Povo de 18 de agosto de 2004, página 04.

As gafes do presidente Lula


Durante encontro com o presidente da Costa Rica, Abel Pacheco, ontem, Lula brincou com a permanência no poder por 37 anos do presidente do Gabão.
  • Eu fui a uma viagem ao Gabão aprender como é que um presidente consegue ficar 37 anos no poder e ainda se candidatar à reeleição – afirmou.
Os gaboneses, que vivem sob a mão de ferro do presidente Ondimba, sabem muito bem como ele conseguiu.

Opinião ZH

Brincadeira inoportuna

Pela conhecida espontaneidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, até se poderia relevar a brincadeira que ele fez com um grupo de repórteres brasileiros na República Dominicana: “Vocês são um bando de covardes mesmo. Não tiveram coragem de defender o conselho nacional de jornalistas”. Considerando-se os sinais de autoritarismo emitidos pelo governo nos últimos dias, porém, a piadinha não teve graça. Quem não concorda com o governo que é covarde? E os subservientes aos éditos do rei serão corajosos? No mínimo, Lula está precisando rever os seus conceitos sobre jornalismo.


Fonte: Zero Hora, página 3 de 18 de agosto de 2004.

domingo, 15 de agosto de 2004

O tiro que parou o Brasil, por Jerri Roberto S. Almeida

Aquela parecia uma manhã como todas as outras, não fosse um tiro de um colt calibre 32. Um tiro, não qualquer tiro, mas um que entraria para a História brasileira como responsável pelo fim de uma de suas mais intrigantes personalidades: Getúlio Dornelles Vargas. Era manhã de 24 de agosto de 1954, o dia em que um tiro parou o Brasil, era o suicídio do presidente Vargas. Cinquenta anos passaram-se e Getúlio continua sendo, possivelmente, o líder mais estudado, pesquisando, discutindo e sobre qual mais se tem escrito em nossa historiografia.
Temido ou amado, respeitado ou odiado, Getúlio Vargas marcou importante Era na história de nosso país. Portador de personalidade forte, para vários de seus estudiosos Vargas encarnou o ditador e populista sabendo adequar às exigências do momento histórico em que vivia, sem deixar, entretanto, de perseguir suas ideias e determinações. O período getulista, que se inicia com a Revolução de 30, ensejou uma ruptura no poder das oligarquias do Sudeste, representativas dos grandes fazendeiros do café. Getúlio, o gaúcho que se iniciara sua vida política em 1909, eleito deputado estadual e percorrendo uma carreira ascendente, assumia a presidência do Brasil devido a deposição, em 24 de outubro de 1930, do então presidente Washington Luís.
Era o início de suas gestões, de 1930 a 1945 e de 1951 a 1954. Nesse período, o Brasil aspirava o projeto nacionalista desenvolvimentista que tentava a saída ra um capitalismo autônomo, não atrelado aos interesses internacionais, mas é aliado à ideia de modernização urbano industrial. Tal proposta, todavia, ensejaria um universo mais amplo de realizações, quer visando à contenção das classes trabalhadoras, com a criação da Carteira de Trabalho e da Previdência Social (1932), o salário mínimo (1940), a CLT – Consolidação das Leis do Trabalho (1943) ou com o projeto modernizador. Desse último, vale citarmos a criação da Companhia Siderúrgica Nacional, que entrou em operação em 1946 e a criação da Petrobras, aprovada no Congresso em 3 de outubro de 1953.
Portador de uma capacidade ímpar de negociar com os mais diversos setores da sociedade, Getúlio Vargas é, ainda hoje, reconhecido por muitos de seus seguidores como o “pai dos pobres” alcunha granjeada devido ao seu estilo de governo paternalista, centrado em sua figura carismática, que, entre outras coisas, “detinha a salvação do país”, concedendo benefícios importantes à classe trabalhadora. De certa forma, talvez isso explique a intensa manifestação e indignação popular com sua morte. O povo, quando soube do ocorrido, saiu às ruas em todas as principais cidades do país enfurecido contra os setores oposicionistas a Getúlio. Carlos Lacerda, o principal líder da UDN (União Democrática Nacional), histórico inimigo de Vargas, teve, inclusive, que se refugiar no Exterior.
Com seu gesto, Getúlio Vargas surpreendeu mais uma vez, derrotando seus opositores e adiando, por 10 anos, o golpe militar de 1964.

Historiador


Fonte: Zero Hora, página 16 de 15 de agosto de 2004.

A síndrome do pânico, por Simoni Missel*

A síndrome ou transtorno do pânico se caracteriza por medo repentino e sem motivo, acompanhado de falta de ar, ansiedade, medo de morrer, perder o controle ou enlouquecer, coração acelerado, suor nas mãos, tontura, vertigem ou desmaio.
Pode ser desencadeado por situações de estresse ou depressão. Caso o transtorno não seja diagnosticado e tratado adequadamente, as crises podem se tornar mais frequentes. Isso pode evoluir para quadros como depressão ou agorafobia (medo de locais onde a saída parece difícil). O tratamento usa a combinação de medicações que regulam a serotonina no cérebro e a psicoterapia.

*Psicóloga


Fonte? Zero Hora, página 37 de 15 de agosto de 2004.

sábado, 14 de agosto de 2004

Arsenal contra a pirataria

Ao contrário da CPI mista do Banestado, que não consegue encaminhar as investigações sobre a evasão de divisas para o final devido a divergências políticas entre seus integrantes, a investigação da Câmara sobre a pirataria encerrou-se com uma perspectiva de moralização nesta área. Além da criação do Conselho Nacional de Defesa da Propriedade Intelectual e Combate à Pirataria, a investigação sugere a criação ou a ampliação de penas para crimes como contrabando, receptação, reprodução, cópia e venda de produtos e obras intelectuais pirateados e amplia o rigor sobre o comércio de falsificações. Nem tudo depende de leis nesta área, mas se, for bem aproveitado, o arsenal pode colaborar para levar o país à seriedade.
Normalmente percebida mais como uma forma de gastar menos, a pirataria impõe prejuízos à população que vão muito além da qualidade inferior e dos riscos da falsificação em itens que vão de medicamentos a computadores. Um deles é o fato de que, embora se constitua em forma de sobrevivência para ambulantes, acaba contribuindo para gerar empregos nos países que vivem da produção de falsificados, contendo a ampliação de 1,5 milhão de vagas no mercado formal do país. O outro é o constituído pelas constantes ameaças de retaliação ao Brasil por países industrializados sob alegação de descumprimento de leis de propriedade intelectual e industrial. E, nesse caso, as perdas se dão tanto no plano financeiro quanto na imagem externa do país, o que acaba afetando os investimentos.
O mérito da CPI da Pirataria, portanto, foi o de mostrar como é possível levar à prisão alguns dos maiores contrabandistas do país, ainda que isso não seja suficiente para desmantelar o esquema. Frequentemente associado ao crime organizado, o comércio ilegal deve ser combatido sem trégua, por meio de conscientização e da aplicação de leis rigorosas como as que estão sendo propostas agora pela investigação do Congresso. Só haverá resultados consistentes nesta área, porém, se os esforços deflagrados agora, impulsionados pelo final dos trabalhos, tiverem continuidade.
Ao mesmo tempo, o setor público não pode perder de vista que uma das formas de combater a pirataria é estimular o setor produtivo formal. Nenhuma medida pode se mostrar mais eficiente neste sentido do que a redução da carga tributária.



Fonte: Zero Hora, editorial, edição de 14 de agosto de 2004, página 12.

quarta-feira, 11 de agosto de 2004

Censura


O governo mandou projeto ao Congresso a criação de um Conselho Federal de Jornalismo. Objetivo: “orientar, disciplinar e fiscalizar” a imprensa. Ou seja: estabelecer a censura. As coisas começaram assim na Alemanha de Hitler e na Cuba de Fidel. Ali, como no poema atribuído a Brecht, os jornalistas fizeram de conta que a coisa não era com eles e, quando perceberam, já não dava para reagir, era tarde demais. A tentativa não é inédita dentro da filosofia dos companheiros. Um deles, quando prefeito de Porto Alegre, tentou no âmbito local o mesmo “conselhão”, o que, felizmente, não prosperou. A medida é fascista stalinista. Há uma Lei de Imprensa em vigor e quem a viola é punido severamente. A tentativa de recriar a censura é cala a boca que os jornalistas não podem permitir.


Flávio Alcaraz Gomes, Correio do Povo, 11 de agosto e 2004, página 4.

Como a mulher de César, por Cândido Norberto*

 Se me perguntarem o que vem a ser a palavra “denuncismo”, eu sei o que quero dizer com ela, embora não tenha encontrado em nenhum de meus dicionários. É um neologismo, não é? Trata-se de imputar a pessoa ou a uma instituição o uso e o abuso de acusações sem fundamento com a intenção de neutralizar as críticas de que venham sendo objeto, livrando-se, do trabalho e sobretudo do dever de contestá-las com fatos e provas.
Na atualidade, por exemplo, nosso simpático palavroso presidente da República, diante das graves acusações que vêm sendo feita aos presidentes do Banco Central e do Banco do Brasil, tem dito e repetido que elas não merecem crédito nem carecem ser desmentidas pelo governo e pelos próprios acusados, porque não passam pura e simplesmente de denuncismo da oposição. O mesmo vem sendo reiterado pelos homens públicos acusados de envolvimento em atos ilegais ou pelo menos contrário à ética e aos bons costumes.
Sinceramente, me confessso incapaz de entender os complicados procedimentos que, a juízo dos denunciantes, teriam sido praticados pelos dois destacados homens públicos que vêm sendo alvos de tantas e tão graves acusações. No momento, o que me apresso a dizer é que concordo com o chefe do governo – idem com relação aos que como eles estão dizendo a mesma coisa – em que a prática do chamado denuncismo é por todos os títulos condenável. Um odioso crime mesmo. Seus autores, além de punição legal, merecem reprovação da sociedade em geral. De acordo?
Agora, tem uma coisa: dessas verdades não se há de chegar à conclusão de que as alegações dos acusados possam ser desconsideradas por inteiro, eis que são ocupantes de elevados cargos públicos. Em tal caso é incabível que se limitem a ignorá-las, considerando-as como sendo meros denuncismos ou afirmando que se trata de reles exploração política.
Para servidor público a situação muda de figura. Cabe-lhes o dever de chamar seus detratores à Justiça, constrangendo-os a que provem suas imputações ou respondam pelos delitos que tenham cometido. Indispensável tal procedimento porque a servidores públicos, especialmente quando exercem altos cargos de confiança, corresponde o mesmo dever que os antigos romanos exigiam da mulher de César, isto é, que, além de ser honesta, devia parecer honesta. No momento, é o que se está esperando dos senhores presidentes do Banco Central e do Banco do Brasil. E do próprio presidente da República com relação a seu governo. Ou será que estou raciocinando incorretamente?
A propósito desse assunto, o governo está tratando de que seja criado no Brasil um conselho de alcance ainda não bem avaliado. Trata-se do Conselho Federal de Jornalismo. Quais suas finalidades? Quem respondeu até aqui a essa indagação foi o ministro de Comunicação e Gestão Estratégica, Luiz Gushiken. Disse ele: “A ideia é proteger o jornalista, assegurando condições para que o jornalismo seja indispensável a todos”. O texto do projeto será submetido ao Congresso Nacional reza que o conselho e suas seções estaduais tenham poderes para “orientar, disciplinar e fiscalizar” o exercício da profissão e das atividades de jornalismo – inclusive com possibilidade de cassar registros profissionais.
Informamos apenas (?) disso, é de se ficar atentíssimo ao assunto. Mais do que muito atento, com medo, trêmulo, para não dizer mais... Em todo o caso, manda a prudência que, antes de qualquer comentário crítico, se espere mais e completas informações sobre o assunto. Essa cautela se justifica de modo muito especial quando se lê a opinião que sobre o tema foi emitida por um destacado prócer do partido do governo, o senador Cristovam Buarque. Ele reagiu ao anúncio da proposta governamental, dizendo, num blog recém-criado, que “o resultado da criação do referido conselho pode ser o controle da imprensa”, e que um projeto como o anunciado não deveria ser remetido ao Congresso.

*Jornalista


Fonte: Zero Hora, 11 de agosto de 2004, página 17.

Lula gosta de conceder favores com o chapéu alheio


terça-feira, 10 de agosto de 2004

Jornalismo perde Plínio Saraiva

Diretor do jornal O Taquaryense, único do RS que ainda adota o sistema tipográfico, faleceu ontem

O jornalista Plínio Saraiva, diretor do jornal O Taquaryense, de Taquari, morreu ontem, às 14h15min, no Hospital São José, onde estava internado. Aos 101 anos, ele havia sofrido um aneurisma cerebral na madrugada da última sexta-feira e acabou entrando em coma na tarde do mesmo dia. O corpo está sendo velado na Câmara de Vereadores de Taquari e o sepultamento ocorrerá hoje, às 17h, no Cemitério Municipal.
Plínio se encontrava à frente do jornal, o segundo mais antigo do Rio Grande do Sul, desde 1962. O veículo, com uma tiragem de 500 exemplares, é o único no Estado que ainda funciona no sistema tipográfico, tendo começado a circular em 31 de julho de 1887, utilizando tipos móveis. Mais tarde, passou a ser impresso pelo equipamento francês Marinoni, a primeira impressora comprada pelo Correio do Povo, que utilizou desde a fundação até 1910, quando foi adquirida por Albertino Saraiva, fundador do Taquaryense, pai de Plínio. Funcionário aposentado da Exatoria Federal, o jornalista gastava parte da aposentadoria para cobrir as despesas do semanário. O mais antigo periódico em circulação no Rio Grande do Sul é a Gazeta de Alegrete, que foi criada em 1º de outubro de 1882, por Luiz de Freitas Valle.
José Harry Saraiva Dias, neto do jornalista e gerente do Taquaryense, lembra que o principal objetivo da vida de Plínio era acordar na segunda-feira para começar a preparar o jornal. Além disso, mantinha uma profunda relação com a sua cidade. “Meu avô amava essa terra”, disse. Dias garantiu a continuidade do semanário em parceria com a Univates, de Lajeado, que promoverá o intercâmbio histórico e cultural por meio da manutenção e preservação do arquivo e do acervo do jornal.


Fonte: Correio do Povo, página 16 de 10 de agosto de 2004.

domingo, 8 de agosto de 2004

Lendo Platão, por Olavo de Carvalho*

Alguns leitores pedem-me umas dicas sobre como estudar A República de Platão. Creio que a resosta pode ser útil também para todos os demais. O conselho que tenho a dar é simples e direto: não leiam este livro como se fosse uma “utopia”, a proposta de uma sociedade ideal a ser construída num futuro próximo ou distante, determinado ou indeterminado. Ao contrário do que acontecesse com as utopias modernas, A República, definitivamente, não é uma proposta política nem um mito destinado a atiçar as ambições de partidos revolucionários. É uma investigação filosófica em sentido estrito, e uma das mais sérias que alguém já empreendeu. Para tirar proveito do seu estudo é preciso situá-la no lugar exato que ocupa no edifício da ciência platônica. Essa ciência compõe-se de uma diferenciação muito fina entre os diversos níveis, planos ou camadas da realidade. Quando você divide um quadrado na diagonal e obtém dois triângulos isósceles, este resultado não pode ser explicado pelo exame dos processos cerebrais mediante os quais você o obteve. As propriedades das figuras geométricas e a fisiologia cerebral permanecem irredutivelmente independentes entre si, embora de algum modo misterioso as duas se toquem no instante em que você estuda geometria. Elas residem em “planos de realidade” distintos. No conjunto da existência, Platão discerne um certo número desses planos, e num deles ele situa o ser humano – uma realidade específica que não pode ser explicada totalmente nem ela ordem geral do cosmos (a lei divina ou “Bem Supremo”), nem pelas propriedades que tem em comum com os demais habitantes do planeta Terra, animais, plantas ou minerais. Dessa situação peculiar do homem na estrutura do universo. Platão extrai uma descrição analítica da natureza humana como a de um ser intermediário, que vive da “participação” (metaxy) simultânea e instável em dois planos de realidade, sem poder absorver-se por completo em nenhum deles: mal instalado no ambiente terrestre, ao qual busca adaptar-se por meio de engenhosos artifícios, não consegue também elevar-se à contemplação da ordem suprema, da beatitude divina, senão por instantes fugazes que enfatizam ainda mais a sua dependência do meio físico imediato. Platão resume isso dizendo que o homem é um tipo intermediário entre os animais e os deuses.
Uma vez delineada assim a natureza humana, Platão coloca em seguida o problema de quais seriam as condições sociais e políticas mais adequadas ao desenvolvimento do homem segundo as exigências dessa natureza. É a essa investigação que ele consagra A República. Não se trata, pois, de uma proposta política, mas da construção de um conjunto de hipóteses. Como estas hipóteses estão sujeitas à avaliação crítica segundo os princípios anteriormente colocados e segundo a experiência de cada estudante (o próprio Platão fará mais tarde uma parte desse exame crítico, no livro das “Leis”), está claro que se trata de uma investigação científica no sentido mais rigoroso do termo.
É assim que deve ser lida A República.
A beleza da filosofia clássica de Platão e Aristóteles está na transparência com que ergue os princípios do conhecimento racional e em seguida se oferece para ser julgada por eles. Na entrada da modernidade, que paradoxalmente alardeia ter inaugurado o estudo científico da sociedade humana, essa transparência se perde e é substituída por um emaranhado de premissas implícitas, inconsistentes ou mal confessadas, obrigando o estudioso a um complexa e arriscada especulação das intenções subjetivas do autor antes de ter a certeza de que compreendeu Maquiavel ou Rousseau o bastante para poder julgar se têm razão.
A grande tarefa da filosofia política hoje em dia é recuperar o ideal clássico de transparência e racionalidade, sem o qual o nome de “ciência” se torna apenas um rótulo publicitário colado em cima de uma massa obscura de preconceitos bárbaros e rancores fúteis.

*Filósofo e jornalista


Fonte: Zero Hora, página 14 de 8 de agosto de 2004.

sexta-feira, 6 de agosto de 2004

Antônio Chiarello

O ex-deputado estadual e ex-prefeito de Uruguaiana, Antônio Chiarello morreu no dia 22, aos 83 anos, no Pavilhão São Francisco da Santa Casa, em Porto Alegre, vítima de falência múltipla de órgãos.
Chiarello teve a vida política ligada ao antigo PTB e ao PDT. Foi um dos fundadores do PTB em Uruguaiana, partido que presidiu na cidade por 13 anos. Funcionário concursado do Banco do Brasil (BB), não deixava de integrar a vida do partido mesmo quando transferido de cidade.
A participação de Chiarello na política teve início com a chamada Campanha Queremista, que pretendia convencer Getúlio a concorrer à Presidência em 1945. Na eleição de 1954, elegeu-se suplente de deputado estadual, assumindo uma vaga na Assembleia em 1957. Eleito prefeito de Uruguaiana em 1959, exerceu o mandato entre 1960 e 1963.
A doutora em Ciência Política e autora do livro Uruguaiana e Os Coronéis, Lúcia Silva e Silva, lembra que a principal característica de Chiarello era ser afável com os adversários políticos.
Pouco antes do golpe de 1964, foi convidado pelo presidente João Goulart para integrar uma assessoria da Casa Civil. Acabou não assumindo a função e em outubro foi demitido do BB em razão do AI-1. Desempregado, trabalhou em uma agência de publicidade, como produtor na Rádio Guaíba e, mais tarde, na assessoria do então deputado federal Victório Trez.
Com a anistia em 1979, aposentou-se no BB. Nos anos 80, filiou-se ao PDT e concorreu a deputado estadual, mas não foi eleito. Assumiu, no mandato de Leonel Brizola no governo do Rio, a superintendência para a Região Sul do Banerj. Abandonou a vida pública em 1987. Depois de aposentado, escreveu dois livros. Casado com Maffalda, teve os filhos Nicia, Nicely (falecida), Nídia e Antônio Francisco, nove netos e seis bisnetos.


Fonte: Zero Hora, página 53 de 6 de agosto de 2004.

quinta-feira, 5 de agosto de 2004

A moderna endoscopia já é coisa do passado

A endoscopia tradicional já tem seus dias contados. Há certa de um ano, chegou ao Brasil uma novidade que prometia acabar com o exame do aparelho digestivo que tanto incomodava os pacientes. A cápsula endoscópica fez sucesso, está sendo adotada por vários hospitais do país e os pacientes não se assustam mais com o fato de engolir um objeto eletrônico.

Quando caminha pelo aparelho digestivo, a cápsula envia até 50 mil imagens para um pequeno computador localizado no cinturão. O exame dura oito horas e, enquanto isso, o paciente mantém normalmente suas atividades diárias.

Depois que a cápsula é evacuada (e não-reutilizada) pelo organismo, as imagens que foram capturadas por meio de sensores fixados ao abdômen do paciente são descarregadas para um gravador.

Em seguida, o Data Recorder é processado no Rapid Workstation, um programa que permite ao médico visualizar e analisar o intestino delgado por meio de um filme de vídeo. O recurso possibilita o congelamento das imagens e o arquivamento em CD.

COMPOSIÇÃO – A cápsula de vídeo é do tamanho de uma pílula de vitamina (aproximadamente 1 centímetro de comprimento por 8 milímetros de largura) e é usada junto com um aparelho endoscópio, uma câmera e fonte de iluminação próprias à prova d'água e resistente a mordidas e ao meio ácido.

Esta tecnologia evita cirurgias, permite diagnosticar doenças e sangrentos do sistema digestório e é o único meio eficaz de identificação da Doença de Crohn no intestino delgado.

A Clínica Ana Rosa, de Santo André (SP), foi uma das primeiras empresas do Brasil a adquirir a cápsula endoscópica, assim como os hospitais Sírio Libanês e Albert Eistein, em São Paulo. Ronaldo Oliveira, médico gastroenterologista da clínica explica que a cápsula é indicada principalmente para o diagnóstico de doenças inflamatórias intestinais.

“Além disso, usamos este recurso para detectar sangramentos digestivos de origem obscura, anemia crônica e tumores intestinais benignos e malignos em que, na maioria dos casos, outros procedimentos frequentemente não alcançaram os resultados esperados”, destaca o especialista.

INVESTIMENTO – o Hospital Albert Eisntein inaugurou a divisão da Cápsula Endoscópica no dia 21 de julho do ano passado e o equipamento custou 60 mil dólares (cerca de 183 mil reais). A última versão do aparelho (adquirida pelo hospital) possui um sistema de localização espacial (tipo GPS) que facilita a localização exata do ponto de sangramento ou da lesão encontrada.

O recurso tem sido utilizado também para diagnosticar problemas no aparelho digestivo e acabar com o sofrimento dos pacientes que passam pela endoscopia tradicional.

Em São Paulo, o exame não é coberto por nenhum plano de saúde e custa entre 3 mil reais e 7 mil reais, dependendo do valor dos honorários do médico que analisa as imagens. (Cibele Gandolpho/AE)

Fonte: O Sul, página 9 do Caderno de Reportagem da edição de 5 de agosto de 2004.

segunda-feira, 2 de agosto de 2004

Imigração judaica, por Victor Faccioni

Além dos nativos, o Rio Grande do Sul foi enriquecido pela contribuição de grande variedade étnica: portugueses, africanos, espanhóis, alemães, italianos, judeus, árabes, sírio-libaneses e tantos outros ajudaram a formar o gaúcho contemporâneo. Se festejamos dia 25 último 180 anos dos alemães, cabe igualmente lembrar o centenário dos judeus. Seus ancestrais tiveram motivação diferente para escolher nosso Estado como sua seguida pátria. Enquanto a maioria dos imigrantes europeus buscava fugir de uma situação econômica difícil e reiniciar vida nova com dignidade, a corrente israelita fugia da discriminação em seus países de origem, para viver em paz. O barão francês Maurício de Hirsch, banqueiro em Bruxelas, fundou o ICA (Yidisch Colonization Association), em 1891, para retirá-los da Europa Oriental.
Em 1903, o barão Hirsch adquiriu 5,7 mil hectares no município de Santa Maria, para estabelecer a fazenda agrícola Philippson. Em 1904 chegaram as primeiras 38 famílias da Bessarabia (Rússia). Cinco anos depois, o ICA adquiriu mais 93.850 há entre Erechim e Getúlio Vargas. Em 1910 foi criada a União Israelita Portoalegrense, a mais antiga sinagoga do Estado, seguindo-se Centro Israelita. Começaram os “bancos informais”, para ceder empréstimos aos novos imigrantes, e os “caixas dos doentes” para subsidiar consultas e facilitar o acesso a toda infraestrutura médico-hospitalar. Embora exímios comerciantes, destacaram-se também a medicina, nas artes, no direito, na literatura, etc., e que tanto honraram o nosso pago.
Em todas as atividades, firmaram marcas indeléveis de participação ativa e tudo impregnaram com o seu senso progressista e os seus valores culturais. A comunidade israelita hoje prossegue na mesma trilha e, graças a ela, junto com a contribuição das demais etnias, o Rio Grande transformou-se ao longo de décadas, em uma das mais importantes unidades da Federação. No Biênio da Colonização e Imigração, em 1974-1975, de cuja Comissão Estadual fui o presidente, comemoramos os 70 anos da chegada dos primeiros imigrantes judeus, e a programação teve como coordenadores do então Grupo de Trabalho Estado de Israel, Saul Nicolaiewski e Maurício Rosemblatt, Shalon, pois à operosa comunidade israelita gaúcha.

Presidente do TCE-RS


Fonte: Correio do Povo, página 4 de 2 de agosto de 2004.