Rivalidade feminina no trabalho e a Síndrome da Abelha Rainha: como o ambiente molda o comportamento

 


Se você me acompanha por aqui, sabe o quanto defendo a liderança feminina. Já falamos sobre olhar integrativo, capacidade de gerir crises com empatia e construção de autoridade que não depende do crachá. Hoje, porém, o convite é para uma conversa incômoda: a Síndrome da Abelha Rainha.

O fenômeno ocorre quando uma mulher chega a um cargo de alta liderança e, em vez de impulsionar outras profissionais, assume postura de bloqueio, rivalidade e rigidez excessiva com pares e subordinadas. O cenário em que a maior barreira para o crescimento dentro da empresa é justamente a gestora mulher.

Antes do julgamento moral, vale olhar para a ciência. Pesquisadores como Kelli Green investigam o comportamento há anos e apontam: a Abelha Rainha não nasce assim, é moldada pelo ambiente.

Quando atua em um ambiente corporativo profundamente masculino, agressivo, extremamente competitivo e hostil — onde as vagas no topo para mulheres são contadas — ela entra em modo de sobrevivência. Inconscientemente, aprende que, para ser aceita, precisa se distanciar de outras mulheres, adotar traços hipermasculinizados e provar que é "diferente da maioria". Nega seu jeito feminino, associando ser compreensiva, acolhedora e afetiva a "coisa de mulher", e passa a ser dura com suas equipes.

Já fui assim, e confesso: cobrava muito das minhas funcionárias, sendo mais rígida para saídas ao médico ou reuniões de escola do que meus colegas líderes homens.

Como isso se manifesta no dia a dia?

A gestora exige o dobro de perfeição, presença e horas das subordinadas mulheres em relação aos homens, com a justificativa de que "no meu tempo ninguém facilitou para mim".

Em reuniões com a diretoria, corta ou desvalida ideias trazidas por outras mulheres para continuar sendo a "única voz feminina ouvida" na sala.

Ironiza ou pune veladamente colegas que precisam de flexibilidade para cuidar dos filhos, reproduzindo o machismo que ela própria sofreu.

O perigo é que o ambiente hostil contamina. Imersas em uma cultura de rivalidade, mulheres passam a enxergar outras como ameaças diretas, não como aliadas estratégicas. É a armadilha do sistema: colocar mulher contra mulher enquanto a estrutura do topo permanece intacta.

Mas uma colmeia de uma abelha só não dura. Reter o espaço só para si para manter o privilégio da exceção compromete a longevidade corporativa.

A maturidade de liderança não está em ser a única mulher à mesa de negociação, mas em ter coragem de puxar a cadeira para que outras também se sentem.

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