EUA em decadência?

 Quando os compromissos estratégicos e militares de um império ultrapassam sua capacidade econômica sustentável, o declínio relativo se inicia

Jurandir Soares

A dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou a marca de US$ 39 trilhões, fazendo com que o pagamento isolado de juros da dívida superasse pela primeira vez o orçamento anual tradicional de defesa. Paralelamente, o governo propôs elevar os investimentos militares para um patamar recorde de US$ 1,5 trilhão, pressionando ainda mais o déficit fiscal americano em meio a novos conflitos e compromissos geopolíticos. Há uma teoria que diz que, quando isto acontece, o país está em decadência.

A teoria específica que uma grande potência entra em decadência quando o custo com o serviço da dívida pública (juros) supera o investimento em defesa nacional ficou conhecida recentemente como Lei de Ferguson (Ferguson’s Law), formulada pelo historiador econômico Niall Ferguson. Ela se conecta ao conceito mais amplo de sobrecarga imperial (imperial overstretch), cunhado por Paul Kennedy em seu clássico “A Ascensão e Queda das Grandes Potências”.

FERGUSON

Niall Ferguson é um renomado historiador escocês e pesquisador sênior da Hoover Institution na Universidade de Stanford. Ele é famoso por formular a tese de que qualquer grande potência que gasta mais pagando juros da dívida pública do que com sua própria defesa corre sério risco de deixar de ser uma potência. Segundo ele, o peso acumulado da dívida suga os recursos escassos do Estado, espremendo o orçamento de segurança nacional e deixando o país vulnerável a desafios militares externos.

O fenômeno repetiu-se na Espanha dos Habsburgos, na França pré-Revolucionária, no Império Otomano e no Império Britânico. Kennedy argumenta que o poder militar depende diretamente da base econômica produtiva. Quando os compromissos estratégicos e militares de um império ultrapassam sua capacidade econômica sustentável, o declínio relativo se inicia caso não haja ajuste estrutural ou salto de produtividade.

ESTADOS UNIDOS

Diante disto, o questionamento que desponta é se este quadro estaria acontecendo com os Estados Unidos de Donald Trump. Se, nesse aspecto, as coisas já andavam difíceis, pioraram com a atual guerra contra o Irã. Uma guerra que, segundo as informações do próprio setor de Defesa norte americano, está deixando o país com carência de armamentos para enfrentar algum outro surpreendente conflito. Há estoque baixo, principalmente, dos sistemas de defesa Patriot. Isto se dá pelo que os norte-americanos têm usado para defender dos ataques de mísseis iranianos sua frota no Golfo Pérsico, assim como para os seus parceiros árabes da região. Além disto, Washington forneceu elevado número de Patriots para Israel também se defender do Irã e para a Ucrânia se defender da Rússia.

CHINA

Logicamente que quem deve estar observando com atenção esta situação é a China, que não esconde sua intenção de incorporar Taiwan ao seu território. E aí é de se perguntar, diante da atual situação, se os EUA vão cumprir o tratado que possuem com Taiwan de defesa da ilha? E ainda, Pequim não se sentirá mais à vontade para estender seu domínio, construindo novas ilhas de defesa, no disputado Mar do Sul da China?

Nos últimos tempos, deu para perceber que os Estados Unidos se manifestavam dispostos a continuar a fornecer ajudar bélica a Taiwan, mas, sem entrar em um possível conflito. Afinal, seguiriam faturando com a venda de armas. No entanto, sábado último, 8, a China reiterou sua forte oposição e exigiu que os Estados Unidos parem de vender armas para Taiwan. Pequim considera a ilha como seu próprio território e aponta o fornecimento militar de Washington como uma grave violação de sua soberania e da estabilidade regional.

DECLÍNIO

O desafio da China aos Estados Unidos pela dominância global constitui hoje a questão central no debate sobre o declínio norte-americano. E a imagem que passa é que os EUA não são mais a única superpotência incontestada a dominar em todos os setores, ou seja, militar, cultura, economia, tecnologia, diplomacia. De acordo com o Asia Power Index 2020, os Estados Unidos ainda assumem a liderança em capacidade militar, influência cultural, resiliência e redes de defesa, mas ficam atrás da China em quatro parâmetros de recursos econômicos, recursos futuros, relações econômicas e influência diplomática. Então, se até há pouco tempo os EUA eram a única e absoluta potência, porém agora repartem o domínio com outra potência, a dedução parece simples.

Correio do Povo

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