Brasil x EUA x Argentina

 No caso norte-americano, o embate extrapolou as questões comerciais e atingiu diretamente o campo político e diplomático

Jurandir Soares

O Brasil atravessa um dos momentos mais delicados de sua política externa nas Américas desde a redemocratização. Ao mesmo tempo em que enfrenta uma escalada de tensões com os Estados Unidos, também vive uma crise diplomática inédita com a Argentina. Embora tenham origens distintas, ambos os conflitos revelam o peso crescente das divergências ideológicas nas relações internacionais e colocam à prova a tradição diplomática brasileira de diálogo e pragmatismo. No caso norte-americano, o embate extrapolou as questões comerciais e atingiu diretamente o campo político e diplomático. Já na relação com Buenos Aires, a deterioração decorre principalmente dos ataques verbais do presidente argentino Javier Milei ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, levando os dois maiores parceiros do Mercosul ao mais baixo nível de entendimento em décadas.


ESTADOS UNIDOS


A crise com Washington começou ainda em 2025, quando o governo de Donald Trump anunciou tarifas sobre produtos brasileiros, alegando razões comerciais e políticas. Posteriormente, a relação deteriorou-se em razão das críticas de Trump às decisões da Justiça brasileira envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro, das divergências sobre liberdade de expressão nas plataformas digitais e das acusações de interferência na soberania brasileira.


Nas últimas semanas, o conflito ganhou novos contornos. Os Estados Unidos revogaram o visto da embaixadora brasileira em Washington e justificaram a medida pela demora do governo brasileiro em aceitar o novo embaixador indicado por Trump. Brasília respondeu acusando Washington de tentar influenciar o processo eleitoral brasileiro e reafirmou que as decisões diplomáticas seguem critérios próprios do Estado brasileiro.


ARGENTINA


A crise com a Argentina tem natureza diferente. Desde a posse de Javier Milei, as diferenças ideológicas com Lula eram evidentes, mas o relacionamento institucional permanecia preservado. A ruptura ocorreu após sucessivas declarações ofensivas do presidente argentino, que voltou a atacar Lula, inclusive durante visita ao Brasil em evento político da oposição.


Como resposta, o Itamaraty rebaixou o nível das relações diplomáticas, mantendo apenas um encarregado de negócios em Buenos Aires. A medida foi considerada histórica por especialistas, embora os laços comerciais entre os dois países permaneçam sólidos, sustentados pela importância econômica mútua e pelo Mercosul.


HISTÓRICO


As relações entre Brasil e Estados Unidos sempre alternaram momentos de grande aproximação e períodos de divergências. Houve atritos durante a Segunda Guerra Mundial, no regime militar, em disputas comerciais na Organização Mundial do Comércio e nas revelações de espionagem da Agência de Segurança Nacional americana em 2013. Entretanto, poucas vezes as tensões alcançaram simultaneamente os campos comercial, político e diplomático como ocorre atualmente.


Com a Argentina, o histórico é distinto. Os dois países passaram grande parte do século XX como rivais estratégicos, inclusive na corrida nuclear. A redemocratização e a criação do Mercosul transformaram essa rivalidade em parceria. Um grande momento de harmonia entre os dois países ocorreu em 1985, durante a redemocratização de ambos, quando os presidentes Raúl Alfonsín e José Sarney assinaram um documento no qual os dois países renunciaram à perspectiva de desenvolver armas nucleares.


PERSPECTIVAS


As perspectivas dependerão menos das afinidades ideológicas e mais dos interesses permanentes de cada Estado. Com os Estados Unidos, a tendência é que as negociações comerciais e diplomáticas continuem, pois ambos possuem relevantes fluxos de investimentos, comércio e cooperação em segurança e energia. Uma eventual mudança de postura política em qualquer dos dois governos poderá reduzir a tensão.


No caso argentino, o futuro dependerá sobretudo da disposição de Milei e Lula em separar as divergências pessoais dos interesses nacionais. Brasil e Argentina continuam sendo os principais parceiros econômicos do Cone Sul e possuem forte integração industrial, especialmente nos setores automotivo, energético e agrícola. Por isso, apesar da gravidade da crise, a expectativa é de que os canais institucionais acabem prevalecendo sobre a retórica política, preservando uma parceria construída ao longo de décadas.


Correio do Povo

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