Psicologia em campo: como confiança e liderança explicam os caminhos de Brasil e Argentina na Copa

 


O que faz uma seleção reagir após sofrer um gol em um jogo decisivo? A resposta vai além da técnica. Na Copa do Mundo de 2026, os destinos de Argentina e Brasil ilustram como fatores psicológicos influenciam dentro das quatro linhas.

Nas oitavas de final, a Argentina saiu perdendo por 2 a 0 para o Egito. Lionel Messi ainda desperdiçou um pênalti com o time em desvantagem. Mesmo assim, os argentinos marcaram três vezes em 13 minutos, viraram o jogo e avançaram às quartas. Com a vitória, tornaram-se os únicos sul-americanos ainda vivos na competição, em busca do quarto título mundial.

Dias antes, o Brasil teve roteiro oposto. Após levar a virada da Noruega, não conseguiu reagir e foi eliminado nas oitavas.

Pentacampeão, o Brasil segue como maior vencedor da história das Copas. A Argentina vive fase consistente desde o título de 2022. Mas, além da qualidade técnica, até que ponto liderança, confiança e capacidade de reação pesam nos momentos decisivos?

Confiança se constrói
Para o psicólogo Lucas Elias Rosito, que atuou como consultor do Comitê Olímpico Brasileiro em Londres 2012 e Rio 2016, confiança não é uma característica fixa do grupo ou de um atleta. Ela é construída com o tempo e com as experiências vividas pela equipe.

"A confiança é resultado de uma série de fatores que se relacionam. Quando a equipe vence, isso nos dá mais confiança. Quando conseguimos encaixar uma estratégia, isso também traz confiança. Quando nossos maiores talentos estão em condições plenas, isso nos traz confiança", explica.

Segundo ele, quanto maior a convivência entre os atletas, menor a oscilação emocional. "Quanto mais a equipe se conhece, menos oscilação de confiança vai ter." Isso ajuda a entender por que alguns times respondem melhor à adversidade.

O gol sofrido é mais que mudança no placar: é um estressor que exige resposta rápida. "Se tu toma um gol no início, tens mais tempo para responder. Mas, quando acontece da metade para o final da partida, passa a ser um grande estressor", diz Rosito.

A Argentina chega com vantagem nesse aspecto. Não por uma característica inerente, mas porque o grupo foi formado ao longo de várias competições, com derrotas e conquistas. "A seleção Argentina tem elementos que vêm de uma ou duas Copas, bem mais experientes, numa geração que se acostumou a enfrentamentos difíceis e a conquistas em condições nem sempre favoráveis."

Esse histórico criou recursos emocionais para momentos críticos. "Com esse treinador, a liderança do Messi, a presença de um goleiro que se tornou peça importante, reunida com jovens talentosos, foi se constituindo uma condição onde, embora nem sempre o jogo seja atraente tecnicamente, do ponto de vista psicológico é uma equipe muito interessante. É uma equipe que claramente tem recursos para lidar com circunstâncias difíceis, com reveses do jogo."

Lideranças diferentes
As comparações entre Messi e Neymar são inevitáveis, mas o antropólogo Arlei Sander Damo, da UFRGS, lembra que toda seleção tem várias lideranças. Hoje, os dois exercem papéis distintos.

"No caso da Argentina, o Messi é um jogador fora de série. Está muito acima dos outros e é uma liderança técnica. Esse é o tipo de liderança que mais conta no futebol", afirma. Sobre Neymar: "A liderança dele já não é mais técnica. Ele ainda é uma liderança carismática. Muitos jogadores gostam dele, é conhecido pela relação de amizade com os companheiros. É importante ter pessoas assim, mas é uma liderança diferente."

Damo ressalta que reduzir a seleção ao principal craque simplifica o futebol. "Em um grupo você tem mais de uma liderança. O capitão era o Marquinhos. O Casemiro também exerce uma liderança importante. O problema é que isso não foi suficiente.”

A reação argentina nas oitavas mostrou essa combinação de experiência coletiva e lideranças. Mesmo após sofrer dois gols e perder pênalti, manteve a organização e reverteu o cenário.

Brasil: talento sem sintonia
Para Rosito, o problema brasileiro não foi falta de talento. A Seleção ainda não havia consolidado uma identidade coletiva para situações extremas.

"O Brasil chega sem uma forma clara e reconhecível de time. É um grupo de grandes jogadores, mas não é rigorosamente um time no sentido da sintonia, de que estão estrategicamente bem enquadrados", avalia.

A equipe de Carlo Ancelotti evoluiu, mas enfrentou adversários cada vez mais difíceis. Ao sofrer o primeiro gol da Noruega, precisou responder rápido a algo para o qual não estava preparada. “A Seleção Brasileira não conseguiu desenvolver esse entrosamento, essa cultura e, como conjunto, não tinha os recursos necessários para lidar com as circunstâncias estressoras à medida que elas foram aparecendo.”

Cuidado com generalizações
Se confiança, liderança e experiência ajudam a explicar o comportamento, isso não significa usar os resultados para definir o caráter de um país. Damo critica essa leitura: "Sou muito crítico a essa questão de tentar olhar para a seleção e declinar elementos sobre a índole, o caráter ou a moral de um país. Isso não se justifica." Os atletas são escolhidos por critérios técnicos e não representam uma síntese da sociedade.

O histórico recente da Argentina contraria a ideia de superioridade psicológica permanente. Antes do título no Catar, conviveu com eliminações e frustrações por décadas. "A Argentina está num momento favorável. Ganhou a última Copa e faz boa campanha agora. Mas passou muitos anos sem performar bem. É preciso cuidado para abstrair conclusões gerais a partir de eventos tão pontuais como um jogo de futebol", diz Damo.

Uma Copa evidencia equipes que equilibram técnica e estabilidade emocional. "A Copa do Mundo não é só sobre quem joga o melhor futebol. É sobre as equipes que estão prontas para sobreviver nessas condições. E daí vem a experiência, o entrosamento, o histórico recente em circunstâncias semelhantes", resume Rosito.

A eliminação do Brasil e a campanha argentina mostram que, em torneios equilibrados, a técnica é indispensável. Mas a forma como um time enfrenta a pressão, organiza suas lideranças e responde à adversidade pode definir o destino de uma Copa.

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