Defesa alega que mãe presa em Viamão viveu dez anos de violência e isolamento imposto pelo marido

 


A defesa da mulher de 29 anos presa preventivamente após a morte do filho de 3 anos em Viamão afirma que ela foi vítima de violência física, psicológica e espiritual durante uma década de casamento. A manifestação ocorreu nesta sexta-feira (10), antes da audiência de custódia no Núcleo de Gestão Estratégica do Sistema Prisional (Nugesp), em Porto Alegre.

Segundo a advogada Isabel Cochlar, que atua no caso com Juliana Braun Martins e André von Berg, a investigada começou a ser atendida na terça-feira, no Hospital de Pronto Socorro (HPS), por uma organização de apoio a mulheres vítimas de violência doméstica. Desde então, relata os abusos sofridos.

“Ela fez relatos muito contundentes de que foi subjugada emocionalmente, fisicamente e espiritualmente durante esses dez anos de casamento, e que tudo isso acabou redundando nessa tragédia”, disse Isabel.

Chegada ao Brasil e isolamento
Conforme a defesa, a mulher nasceu no Japão, mas é filha de americanos e cresceu nos Estados Unidos, onde conheceu o marido aos 19 anos na igreja da família. Ele a convenceu a vir ao Brasil sob o argumento de cumprir uma missão religiosa. A viagem, no entanto, não tinha vínculo oficial com igrejas brasileiras e ocorreu sem apoio institucional ou financeiro.

No país, o casal morou em São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, mudando-se com frequência. A defesa afirma que as mudanças eram determinadas pelo marido, principalmente quando órgãos de proteção à infância começavam a acompanhar a família. Em Santa Catarina, houve atuação do Conselho Tutelar antes da ida para Viamão.

Partos em casa e proibição de atendimento
Os advogados relatam que os cinco filhos nasceram no Brasil, todos em partos domiciliares conduzidos pelo marido, sem formação na área da saúde. Ele teria aprendido procedimentos por vídeos no YouTube e proibia a esposa de ir ao hospital, alegando que ninguém poderia ver seu corpo.

A mulher também era impedida de buscar atendimento médico para si ou para as crianças. O marido atribuía doenças à “falta de fé” da esposa e ameaçava que ela teria câncer, morreria ou perderia os filhos caso procurasse ajuda.

Rotina de controle e agressões
A defesa descreve um ambiente de controle total: a casa não tinha rádio nem televisão, o celular da mulher era monitorado e o único computador era de uso exclusivo do marido. Ela era expulsa de casa com as crianças durante a noite e sofria agressões físicas frequentes.

Entre as lesões citadas estão uma cicatriz no queixo causada por chute, uma no punho após queda decorrente de agressão e sequelas no maxilar que ainda dificultam a alimentação. Segundo Isabel, ele evitava agredir áreas visíveis do rosto e preferia socos na nuca e nas costas. A mulher usava lenços para esconder hematomas.

Havia ainda frases em inglês fixadas nos armários, usadas pelo marido para reforçar a submissão, afirma a defesa.

Sobre a acusação de que a mãe teria o dever legal de proteger os filhos, os advogados argumentam que ela também era vítima. “Muitas vezes ela se colocou na frente para proteger as crianças. Ela também apanhava, também passava fome, também era humilhada. Não tinha rede de apoio, não conhecia o SUS e não sabia como buscar ajuda”, disse Isabel. O marido ameaçava prendê-la e orientava o filho mais velho a culpá-la pelas violências.

O dia da morte
A mulher já prestou depoimento à Polícia Civil. Segundo a defesa, ela estava separada do marido e das crianças por uma divisória de tecido enquanto ele ouvia música alta e fazia exercícios. Pouco depois, ele atravessou a cortina com o menino desacordado nos braços. A defesa alega que as crianças aprenderam a apanhar em silêncio, pois as agressões só cessavam quando paravam de chorar.

A mãe autorizou a doação de órgãos do filho e a defesa vai pedir autorização judicial para que ela reconheça o corpo, que segue no DML, e participe do velório.

Família nos EUA e próximos passos
A família da investigada mora nos Estados Unidos e perdeu contato direto com ela há cerca de nove anos. E-mails enviados eram respondidos apenas pelo marido. Os advogados já contataram os parentes e pretendem acionar a Embaixada dos EUA. Os quatro filhos sobreviventes estão sob proteção da rede de acolhimento à infância.

A defesa vai reunir novos elementos para pedir a revogação da prisão preventiva. Se negado, pretende recorrer ao Tribunal de Justiça com habeas corpus.

A Polícia Civil mantém o entendimento de que a mulher deve responder por homicídio doloso duplamente qualificado e tortura. Conforme a delegada Luana Tamiozzo Medeiros, o inquérito segue com oitivas, perícias e diligências para esclarecer o caso.

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