Gláucia Fekete, hoje com 38 anos, guarda até hoje a pergunta que a acompanha há duas décadas: “Se eu tivesse desobedecido à minha mãe e ido para Nova York, o que teria acontecido comigo?”.Em 2004, aos 16 anos, a gaúcha de Santa Rosa (RS) foi convidada a participar do concurso Models New Generation, organizado pelo agente francês Jean-Luc Brunel no Equador. O evento prometia US$ 300 mil de prêmio e contratos internacionais, com saída direta para Nova York.O que Gláucia não sabia na época é que Brunel, anos depois acusado de estuprar e assediar menores e de aliciar garotas para a rede sexual de Jeffrey Epstein, usava concursos e agências de modelos como fachada para atrair vítimas — muitas delas menores de idade — para o bilionário americano.A mãe de Gláucia, Bárbara Fekete, desconfiou do convite. Para convencê-la, Brunel viajou pessoalmente ao interior do Rio Grande do Sul e passou uma tarde na casa da família. Ele prometeu que Gláucia venceria o concurso e teria carreira garantida. Bárbara acabou cedendo, mas impôs limites.No Equador, cerca de 50 meninas de 15 a 19 anos desfilaram em Guayaquil. A vencedora foi a brasileira Aline Weber (então com 15 anos). Gláucia lembra de outras brasileiras no evento, incluindo uma jovem apresentada como “namorada de Jean-Luc”, que não competia.Apesar da garantia inicial, Gláucia foi informada no local que não venceria por “dois ou três centímetros a mais no quadril”. Ela também não conseguia contato com a família — o combinado de ligações e vídeos não foi cumprido. Bárbara só conseguiu notícias dias depois, por intermédio de uma irmã que falava espanhol.Ao final do concurso, Brunel ofereceu a Gláucia viajar imediatamente para os EUA com tudo pago, para “participar de shows” e castings. Bárbara negou na hora: “Nem pensar”.“Minha mãe me salvou”, diz Gláucia hoje. “Mesmo sem saber, eu estava no meio desse furacão todo. Foi um livramento.”Epstein esteve em Guayaquil no dia da final
Documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA mostram que Jeffrey Epstein esteve em Guayaquil em 24 de agosto de 2004 — um dia antes da final do concurso. E-mails de Ghislaine Maxwell e do piloto Larry Visoski confirmam a viagem, com abastecimento de aeronave, reserva de hotel e van na cidade.Uma ex-funcionária da agência MC2 (de Brunel, financiada por Epstein) afirmou em depoimento à Justiça da Flórida, em 2010, que Brunel “levou garotas” ao bilionário durante a viagem ao Equador. Outra modelo europeia que participou do evento (entrevistada pela BBC sob pseudônimo Laura) relatou que Brunel se comportava de forma estranha, sempre acompanhado de jovens brasileiras, e que ouviu relatos de colegas que viajavam à ilha privada de Epstein nas Ilhas Virgens.Brunel usava agências para obter vistos e atrair meninas
A estratégia de Brunel envolvia emitir vistos de trabalho via suas agências (Karin Models e depois MC2, investida por Epstein) para levar garotas — inclusive menores — aos EUA. Epstein pagava os custos. A BBC confirmou que o método ocorreu também no Brasil em pelo menos um caso.Brunel promovia o Models New Generation como grande vitrine: em pedido de visto O-1 aos EUA (2014), destacou que o concurso foi “transmitido pela TV Globo” e por outros canais. A RBS confirmou cobertura em 2004, com reportagem sobre as brasileiras participantes.Conexões com o Brasil
Documentos mostram que Epstein e Brunel viajaram juntos ao Brasil. Uma vítima relatou que Brunel era “amigo poderoso” de Epstein e tinha “muitos contatos com jovens garotas pelo mundo”. Uma brasileira que conheceu o círculo confirmou à BBC que Epstein e Brunel buscavam garotas no país para fins sexuais.Após reportagens da BBC em 2025 revelando conversas e pagamentos de Epstein a brasileiras, o Ministério Público Federal abriu investigação para apurar possível rede de aliciamento no Brasil.Gláucia e Bárbara só entenderam a dimensão do risco anos depois, quando souberam das acusações contra Epstein e Brunel (este preso na França em 2020 e morto na cadeia em 2022, sem julgamento). “Eu tinha uma coisa na cabeça, que isso não era coisa certa. Procuravam só crianças, menores”, disse Bárbara.Hoje, Gláucia trabalha com mentoria e estratégia digital. “Minha mãe quebrou todo o vínculo com essa rede. Me mandou estudar e fazer o que eu quisesse depois. Graças a ela, eu escapei.”
Documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA mostram que Jeffrey Epstein esteve em Guayaquil em 24 de agosto de 2004 — um dia antes da final do concurso. E-mails de Ghislaine Maxwell e do piloto Larry Visoski confirmam a viagem, com abastecimento de aeronave, reserva de hotel e van na cidade.Uma ex-funcionária da agência MC2 (de Brunel, financiada por Epstein) afirmou em depoimento à Justiça da Flórida, em 2010, que Brunel “levou garotas” ao bilionário durante a viagem ao Equador. Outra modelo europeia que participou do evento (entrevistada pela BBC sob pseudônimo Laura) relatou que Brunel se comportava de forma estranha, sempre acompanhado de jovens brasileiras, e que ouviu relatos de colegas que viajavam à ilha privada de Epstein nas Ilhas Virgens.Brunel usava agências para obter vistos e atrair meninas
A estratégia de Brunel envolvia emitir vistos de trabalho via suas agências (Karin Models e depois MC2, investida por Epstein) para levar garotas — inclusive menores — aos EUA. Epstein pagava os custos. A BBC confirmou que o método ocorreu também no Brasil em pelo menos um caso.Brunel promovia o Models New Generation como grande vitrine: em pedido de visto O-1 aos EUA (2014), destacou que o concurso foi “transmitido pela TV Globo” e por outros canais. A RBS confirmou cobertura em 2004, com reportagem sobre as brasileiras participantes.Conexões com o Brasil
Documentos mostram que Epstein e Brunel viajaram juntos ao Brasil. Uma vítima relatou que Brunel era “amigo poderoso” de Epstein e tinha “muitos contatos com jovens garotas pelo mundo”. Uma brasileira que conheceu o círculo confirmou à BBC que Epstein e Brunel buscavam garotas no país para fins sexuais.Após reportagens da BBC em 2025 revelando conversas e pagamentos de Epstein a brasileiras, o Ministério Público Federal abriu investigação para apurar possível rede de aliciamento no Brasil.Gláucia e Bárbara só entenderam a dimensão do risco anos depois, quando souberam das acusações contra Epstein e Brunel (este preso na França em 2020 e morto na cadeia em 2022, sem julgamento). “Eu tinha uma coisa na cabeça, que isso não era coisa certa. Procuravam só crianças, menores”, disse Bárbara.Hoje, Gláucia trabalha com mentoria e estratégia digital. “Minha mãe quebrou todo o vínculo com essa rede. Me mandou estudar e fazer o que eu quisesse depois. Graças a ela, eu escapei.”

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