“Meu sobrenome é Miss Brasil”: Deise Nunes faz 40 anos de coroa

 Primeira mulher negra a vencer o Miss Brasil, a gaúcha fala sobre os 40 anos da conquista e mudanças nos concursos de beleza

Primeira mulher negra eleita Miss Brasil, Deise Nunes venceu o concurso em 1986 e hoje atua na formação de modelos e candidatas a concursos de beleza Foto : Deise Nunes / Arquivo Pessoal / CP


Quando olha para as fotos da coroação, Deise Nunes diz que um filme passa pela cabeça. Em 17 de maio de 1986, aos 18 anos, a gaúcha se tornou a primeira mulher negra a vencer o Miss Brasil. Quatro décadas depois, a memória daquela noite ainda vem acompanhada de espanto, afeto e da consciência de que o título ultrapassou a beleza, a faixa e a coroa.


“Eu era uma menina”, lembra. Na época, Deise andava com a mãe “a tiracolo”, como define. Ana Maria Nunes foi sua principal incentivadora e uma espécie de fiel escudeira em uma trajetória que, vista hoje, parece ter acontecido cedo demais. “As meninas de hoje são muito mais espertas, têm muito mais corrida do que eu tinha na época. Eu me considero uma pessoa ingênua naquele período”, afirma.


A dimensão política e social da vitória, segundo ela, não veio no palco. Veio alguns dias depois, ao ler as reportagens publicadas em jornais e revistas. Naquele tempo, sem internet e sem redes sociais, foi pelas páginas impressas que Deise começou a entender o tamanho do que havia acontecido. “Só fui me dar conta da minha responsabilidade como Miss Brasil e como a primeira mulher negra a vencer o concurso três ou quatro dias depois. Eu pensei: meu Deus, quanta responsabilidade.”


A conquista logo ganhou novos compromissos. Depois do Miss Brasil, Deise seguiu para concursos internacionais, entre eles o Miss Sudamérica, em Caracas, e o Miss Universo, realizado naquele ano no Panamá. Antes disso, voltou ao Rio Grande do Sul já com a faixa, a coroa e o manto. Foi recebida em Porto Alegre pelo então prefeito Alceu Collares, de quem recebeu a chave da cidade, e pelo governador Jair Soares. “Quando cheguei, meu sentimento era de que eu estava de volta em casa”, recorda.

Depois do Miss Brasil, Deise Nunes seguiu para concursos internacionais | Foto: Deise Nunes / Arquivo Pessoal / CP

Meu sobrenome é Miss Brasil

A tentativa de separar Deise Nunes do título nunca se completou. E ela sabe disso. “Eu digo aos meus amigos que meu nome é Deise Nunes e o sobrenome é Miss Brasil”, brinca. A frase resume uma relação que não é de incômodo, mas de pertencimento. O concurso virou parte da identidade pública da gaúcha, mesmo depois de uma vida inteira construída para além dele.


Deise apresentou programas de televisão, consolidou uma trajetória na moda e hoje dirige uma escola de modelos em Porto Alegre. Também atua com palestras e formação de novos talentos. “As pessoas associam meu nome ao Miss Brasil, e isso eu jamais vou conseguir desconectar. Mas eu realmente não me incomodo nem um pouco com isso”, diz.


Na vida pessoal, construiu uma trajetória mais reservada no Rio Grande do Sul. Casada com o empresário Lair Ferst, é mãe de dois filhos e avó de uma neta de 9 anos. A opção por uma rotina mais discreta veio cedo. Depois de começar a modelar ainda adolescente e viver o auge dos concursos aos 18 anos, Deise costuma dizer que, aos 21, já sentia ter vivido uma vida intensa de viagens, exposição e compromissos públicos.


Concursos mudaram, mas a inclusão ainda é incompleta

Ao olhar para o presente, Deise reconhece que os concursos de beleza mudaram drasticamente. Hoje há múltiplas franquias, diferentes títulos nacionais e uma variedade de concursos internacionais. “A gente nunca teve tanta Miss Brasil como nos últimos tempos”, observa. Para ela, a multiplicação de faixas e organizações tornou o cenário mais fragmentado e, muitas vezes, confuso até para quem acompanha o meio.


A principal mudança, porém, está nas regras de participação. O Miss Universo passou a aceitar mulheres casadas, mães, mulheres trans e candidatas de diferentes idades. Deise considera a abertura positiva, mas faz uma ressalva importante: participar não é o mesmo que ter chance real de vencer.


“Essa inclusão, na verdade, acontece quando a diversidade vence”. Para ela, o discurso só é plenamente comprovado quando uma mulher casada, uma mãe, uma mulher trans ou uma candidata fora do perfil tradicional vence o concurso, como aconteceu em concursos da Colômbia, Guatemaçla, Malta, Egito e Venezuela. “Não adianta dizer "eu estou dando a chance", mas, para vencer, não vai dar. Aí, para mim, não serve.” Deise observa que, apesar das novas possibilidades, a maioria das vencedoras ainda costuma seguir o perfil clássico dos concursos: jovens, solteiras e sem filhos.


A mudança nas idades também desperta questionamentos. Deise vê beleza, presença e força em mulheres de 30, 40, 50 e 60 anos, mas considera difícil entender qual régua deve ser usada quando candidatas tão diferentes competem entre si. “Como avaliar uma menina de 20 anos e uma mulher de 60? Qual é o critério?”, questiona.


Para ela, o ponto mais delicado é que concursos lidam com sonhos. Muitas mulheres que não puderam disputar uma faixa na juventude agora enxergam uma nova oportunidade. “A gente não pode brincar com o sonho de ninguém, seja de uma menina de 20, seja de uma mulher de 60.”


A polêmica de ser uma miss negra gaúcha

Quando venceu, em 1986, Deise já representava uma quebra de expectativa. Ela era a única candidata negra no concurso e vinha do Rio Grande do Sul, Estado ainda muito associado, no imaginário nacional, a uma população majoritariamente branca. “Eu fui uma grande polêmica”, afirma.


Na avaliação dela, a sociedade dos anos 1980 não estava preparada para muitas das mudanças que hoje começam a aparecer nos concursos. Se regras permitindo mães ou mulheres mais velhas existissem naquele período, acredita que a absorção social seria difícil. “As coisas acontecem quando têm que acontecer, quando é permitido acontecer. Naquela época, não era permitido.”


A própria vitória, diz, já tensionava padrões. Deise não foi a primeira mulher negra a participar do Miss Brasil, mas foi a primeira a vencer o concurso nacional. “Será que eu vou dar conta?”, chegou a se perguntar. Quarenta anos depois, a resposta aparece na permanência do legado. Ela segue convidada para júris, palestras, aulas e orientações a candidatas. “Até hoje eu colho frutos desse concurso.”

Passarela, oratória e preparo emocional

Na escola de modelos, muitas jovens procuram Deise em busca de preparação para concursos. Querem aulas de passarela, oratória e postura. Para ela, tudo isso é importante, mas há um ponto ainda mais urgente: o preparo psicológico.


“As redes sociais são cruéis”, afirma. A exposição, segundo Deise, tornou a vida das candidatas muito mais dura. Antes, as críticas vinham mediadas por jornais, revistas, televisão e bastidores. Hoje, chegam diretamente pelos comentários, cortes de vídeo e julgamentos instantâneos. “Se elas estão se expondo, estão sujeitas a elogios e críticas. E muitas críticas não são construtivas. São críticas para arrasar com a candidata.”


Por isso, Deise orienta as jovens a entenderem que o reinado passa rápido. Quando uma candidata vence, torna-se o centro das atenções. É convidada para eventos, festas, compromissos e entrevistas. Mas, quando chega a nova eleita, o foco muda. “Eu vi muitas misses não conseguirem superar a questão de passar a faixa”, conta.


Ela própria afirma ter lidado bem com esse momento porque já trabalhava como modelo antes do título e sabia que continuaria sua trajetória. Ainda assim, o conselho que repete às candidatas é simples: aproveitem. “Quando me dei conta, eu já estava entregando minha faixa e minha coroa.”


Outro ensinamento é não criar personagem. Para Deise, a miss não deve ser uma figura artificial moldada para agradar a todos.


“A miss não é um personagem. É uma pessoa que tem um título de beleza. Ponto. Sejam vocês mesmas.”

Deise Nunes tinha 18 anos quando venceu o Miss Brasil | Foto: Deise Nunes / Arquivo Pessoal / CP

Preparar não é transformar em outra pessoa

A diferença entre a preparação dos anos 1980 e a atual também chama atenção de Deise. Quando venceu o Miss Brasil, ela não tinha uma grande equipe conduzindo cada passo. “Tudo que foi feito foi por minha livre e espontânea vontade”, afirma. Não havia, segundo ela, uma estrutura formal de aulas e treinamentos como se vê hoje.


Deise considera positivo que candidatas tenham apoio, orientação e profissionais ao redor. O limite, para ela, está em modificar a essência da pessoa. “Não dá para fazer da candidata alguém que ela não é. Aí tira a espontaneidade.”


A artificialidade aparece especialmente nas entrevistas. Deise diz que jurados não querem ouvir respostas decoradas, mas perceber se a candidata sabe se expressar, tem vocabulário, simpatia e naturalidade. “O jurado quer saber até onde aquela candidata consegue ir e dar uma resposta sem ser artificial.”


A mesma lógica vale para a passarela. Deise observa que os desfiles mudaram, especialmente no circuito internacional. Ela se surpreende, às vezes, com modelos que entram com ombros caídos, pouca postura e uma forma de caminhar distante da elegância clássica que marcou sua geração. Ainda assim, não defende cópias do passado. Prefere ensinar um caminhar bonito, com passadas firmes, longas e seguras, mas sem apagar a personalidade.


“Eu não quero transformar vocês em ninguém”, costuma dizer aos alunos. “Quero que vocês se descubram sozinhos.”


Para ela, passarela também é vida. A postura, a presença e a autenticidade servem para quem quer ser modelo, mas também para quem precisa ocupar espaços no mundo. “Cada modelo tem sua caminhada. A gente consegue continuar no mercado tendo personalidade.”


Sem internet, com mais glamour

Deise reconhece que, se a internet existisse em 1986, sua voz talvez tivesse sido amplificada. Ainda assim, agradece por ter vivido o concurso sem redes sociais. “Eu acho que o concurso tinha muito mais glamour. Era mais romântico”, diz.


Hoje, ela admira a coragem das candidatas que enfrentam concursos e redes ao mesmo tempo. A exposição é maior, mais rápida e menos filtrada. “Quando as pessoas gostam, celebram e elevam a menina. Quando não gostam, detonam. Eu confesso que prefiro sem internet.”


Essa diferença de época também se reflete na duração dos concursos. Deise lembra que, no período de Silvio Santos, as transmissões podiam durar cerca de três horas. Hoje, avalia, o público já não tem a mesma paciência. Em tempos de streaming, redes sociais e múltiplas telas, os concursos ficaram mais curtos e precisam disputar atenção com muitos outros conteúdos.


Miss também envelhece

A cobrança pela juventude é outro tema que Deise trata sem rodeios. Para ela, a sociedade ainda tem dificuldade de aceitar que uma miss envelheça. “As pessoas acham que uma miss não tem direito de envelhecer. Isso não existe. Miss é um ser humano como qualquer outro.”


Aos 58 anos, Deise diz lidar bem com a idade. Afirma se sentir feliz com a própria imagem e com a vida que construiu. “Hoje eu me olho no espelho e não vejo mais aquela menina de 18 anos. Vejo uma mulher realizada, uma mulher feliz.”


Ela também observa uma abertura maior do mercado para mulheres maduras. Na publicidade, na moda, nas novelas e em revistas, a presença de pessoas mais velhas passou a ser mais frequente. Para Deise, isso acompanha uma mudança demográfica e cultural. A população amadureceu, e o mercado começou a entender que precisa falar também com esse público.


A ideia de elegância, para ela, também mudou. Nos anos 1980, estava mais ligada a uma imagem física: mulher alta, esguia, de gestos delicados e postura impecável. Hoje, em tempos de internet, Deise resume de outra forma: “Ser elegante é ser educada. Extremamente educada, extremamente cortês. Para mim, isso é elegância.”


A maturidade de dizer não

Se a juventude trouxe a coroa, a maturidade trouxe outro aprendizado: o direito de dizer não. Deise conta que, quando era mais jovem, tinha dificuldade de recusar convites, compromissos e expectativas. Hoje, prioriza o próprio tempo, a felicidade e o bem-estar.


“Eu não tenho que agradar todo mundo. Eu não posso agradar todo mundo. Tenho que me agradar, tenho que me priorizar”, afirma. A frase marca uma virada importante na trajetória de quem, aos 18 anos, passou a representar um país inteiro diante de câmeras, jurados, imprensa e público.

Correio do Povo

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