Ar polar avança no RS no fim de semana com chance de neve na Serra e mínimas de -6ºC
Uma potente massa de ar frio de origem polar avança sobre o Sul do Brasil neste fim de semana, trazendo frio intenso, geada e possibilidade de neve e chuva congelada ao Rio Grande do Sul.
Segundo a MetSul Meteorologia, trata-se de uma das incursões de ar gelado mais fortes do ano, impulsionada por um centro de alta pressão que avança da Argentina.
O ar frio já atua no Estado, com marca de -1,2ºC registrada no início deste sábado (5) em Pinheiro Machado, na Serra do Sudeste.
Um reforço polar começa a ingressar pelo Sul gaúcho entre a tarde e a noite de sábado e se espalha por todo o Rio Grande do Sul ao longo do domingo (6).
Rajadas de vento entre 40 km/h e 70 km/h — com marcas superiores em pontos isolados — acompanharão a chegada da frente fria no domingo, provocando forte sensação de frio.
Frio extremo no início da semana
Nas áreas mais frias e de maior altitude do Rio Grande do Sul, as temperaturas mínimas podem descer a valores entre -4ºC e -6ºC no início da semana.
Em Porto Alegre, a área central deve registrar até 7ºC na segunda-feira, enquanto bairros da zona Sul e municípios da Região Metropolitana devem ter marcas abaixo de 5ºC.
As madrugadas de domingo, segunda e terça-feira (8) serão as mais rigorosas, com pico do frio projetado para as primeiras horas de segunda. Grande parte dos municípios gaúchos registrará temperaturas abaixo de 5ºC. A presença pontual de nebulosidade, contudo, poderá conter declínios mais acentuados em algumas regiões.
Possibilidade de neve e chuva congelada
A MetSul aponta alta probabilidade de precipitação invernal entre o domingo e o início da segunda-feira (7). Há chance de chuva congelada e neve nas cotas mais elevadas.
A possibilidade é baixa a média em altitudes ao redor de 1.000 metros e de média a alta acima de 1.200 metros.
Nos Campos de Cima da Serra, a maior probabilidade de neve concentra-se no eixo entre São Francisco de Paula, Cambará do Sul, Bom Jesus e São José dos Ausentes — localidade com as maiores chances de registro do fenômeno no RS.
A massa de ar polar também avança para Santa Catarina — onde o Planalto Sul pode registrar até -7ºC — e alcança áreas do Sudeste e Centro-Oeste, com declínio de temperatura, embora com menor intensidade.
Gilmar Mendes propõe proibir delegados da PF como assessores de ministros do STF
O ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal (STF), apresentou neste sábado uma proposta para proibir que militares, delegados ou policiais sejam cedidos para atuar como assessores nos gabinetes da Corte.
A proposta de alteração no Regimento Interno do STF já havia sido adiantada durante a semana ao presidente do Supremo, Edson Fachin. Agora, foi formalizada por Mendes para ser apreciada pelos demais ministros.
A ideia surge em meio à escalada da crise entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça. Cada um deles, por exemplo, possui dois delegados da Polícia Federal os assessorando em seus gabinetes.
Risco para investigações
Para Mendes, a presença desses policiais nos gabinetes representa o risco de que decisões sobre a condução de investigações, que seriam de exclusividade da autoridade policial, estejam sendo transferidas para o Supremo.
O texto apresentado pelo decano prevê que servidores das carreiras militares e policiais possam atuar em atividade de segurança dos gabinetes. No entanto, fica “vedada a participação na instrução de inquéritos ou processos e em atividades de assessoramento jurídico”.
Outro trecho diz que “caberá ao Presidente do Supremo Tribunal Federal providenciar o imediato retorno aos órgãos de origem dos servidores atualmente em exercício no Tribunal em desacordo com a regra ora acrescida ao art. 357 do Regimento Interno”.
Contexto da proposta
A proposta surge ainda após o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, ter tentado articular a volta para a corporação dos delegados cedidos ao gabinete de Mendonça. Este último é relator dos escândalos de fraude financeira e corrupção no Banco Master e do desvio em aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Cabe agora a Fachin incluir a proposta em pauta para que seja apreciada e votada por todos os ministros do Supremo.
Relatórios e acusações
A proposta do decano vem à tona após Mendonça ter retirado o sigilo, nesta semana, de um relatório da PF. Nele, constam dezenas de mensagens enviadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo dono do Master, a Moraes, segundo afirmam os investigadores.
Nas conversas, Vorcaro menciona um contrato de R$ 131 milhões firmado pelo escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes, com o Master. Foram expostas também mensagens em que o ex-banqueiro demonstra ter obtido informações sobre uma possível operação da PF para prendê-lo.
Logo em seguida à divulgação do material, Moraes pediu à presidência do Supremo a abertura de uma investigação contra Mendonça. Moraes alegou “fortes indícios” de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade na condução do caso Master.
Para embasar suas acusações, Moraes apresentou um relatório de inteligência da PF. Segundo o documento, Mendonça atuaria de forma a direcionar as investigações contra desafetos políticos.
O documento, contudo, não é assinado e traz a advertência de se tratar de uma análise prospectiva interna, sobre possíveis caminhos de investigação, e “sem valor probatório”.
Luciano Zucco fala de segurança, família e intensidade na disputa ao governo do RS
Ele começou a carreira no Exército, mas, por influência de Bolsonaro, decidiu ir para a política.
A neblina relutou em ir embora na manhã de inverno em Porto Alegre, e, apesar de o sol ter aparecido, a umidade era visível na orla do Guaíba quando o candidato do PL ao governo do Rio Grande do Sul, Luciano Zucco, chega para a entrevista.
Mal terminam os cumprimentos iniciais, ele já começa a caminhar pelo entorno do Monumento dos Voluntários, instalado quase ao lado da chaminé do Gasômetro, local que escolheu para conversar. Ao mesmo tempo em que se movimenta, tira o casaco, pergunta qual vai ser o espaço, demonstra preocupação sobre se a equipe está com frio, abre um sorriso e assegura: “em meia hora te conto minha vida inteira.”
Na sequência, mostra a tatuagem com a imagem dos dois filhos mais velhos no pulso esquerdo. O mesmo adornado por uma pulseira com a inscrição “tudo posso naquele que me fortalece.” A agitação não é devida ao período de campanha. Zucco, os amigos sabem, os adversários também, é “ligado no 220”.
“Sou agitado. Sempre fui assim, eu gosto de me provocar. No Exército, fiz mais de 20 cursos, na área de Inteligência, fiz na Swat lá nos Estados Unidos, fiz de defesa pessoal, sou campeão do tiro. Eu vivo bem, sou intenso, cinestésico, gosto de abraçar. Quando eu gosto, gosto demais. E quando coloco uma coisa na cabeça, vou até o fim.”
A ascendência italiana — a família da mãe é de Bento Gonçalves, a do pai de Farroupilha —, apesar de ter nascido em Alegrete, explica, segundo ele, a intensidade e a importância que dá aos vínculos familiares e aos amigos.
“Sou chorão. Eu choro de vez em quando sim. Principalmente quando me deparo com situações que envolvem crianças, idosos. Ao mesmo tempo, sou um cara aguerrido para as pautas da segurança.”
A característica pode parecer contraditória e surpreende quem conhece pouco o deputado, habituado a vê-lo em eventos públicos e momentos de tensão no Congresso. Nos bastidores, porém, mantém convivência cordial com colegas de outros matizes ideológicos. Adversários se acostumaram ao seu estilo meio “camaleão” e consideram o parlamentar um interlocutor acessível.
Luciano Zucco nasceu em Alegrete, em 1974, onde o pai, capitão do Exército, hoje falecido, estava lotado. Antes de chegar a Porto Alegre, sete anos mais tarde, a família ainda passou por Tarauacá, no Acre, por Lages, em Santa Catarina, e por São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas.
“No Amazonas não tinha cachorro, era cobra, onça, uns macaquinhos que o pai tirava o tempo todo da horta. No Acre foi onde eu quase morri. Lá, no meio do nada, fiquei doente, 40 graus de febre, as pernas molinhas, disseram que podia ser paralisia infantil. Minha mãe entrou em uma canoa sozinha com um índio, atravessou para a Bolívia e fui tratado por um médico alemão.”
Em 1981 a família retornou a Porto Alegre, mas os pais se separaram, a mãe assumiu os cuidados com os quatro filhos e o dinheiro encurtou. “Foi punk, a gente passou por uns períodos bem difíceis.” A família morava na Veríssimo Rosa, no Partenon, e Zucco estudava no Padre Rambo.
Quando estava na sexta série, entrou no Colégio Militar e, dali, foi para a Academia Militar das Agulhas Negras (Aman). Casou, teve dois filhos, a união durou 13 anos. Depois conheceu a atual esposa, Joyce, com quem teve a filha caçula.
Com carreira promissora no Exército, onde ocupava o posto de tenente-coronel, não pensava em entrar na política até a aproximação com Jair Bolsonaro e o convite feito em 2017. Consultou a família, todos foram contra. Mas acabou disputando uma cadeira na Assembleia Legislativa e foi o mais votado para o Legislativo gaúcho em 2018. Em 2022 repetiu o recorde, desta vez para a Câmara dos Deputados.
A ligação da família sempre foi com a segurança pública. Um dos irmãos é general em São Paulo, o outro, delegado. A irmã, escrivã de polícia. E o padrasto, brigadiano. “A gente brinca que só a minha mãe é normal. É ela que faz Reiki para essa galera toda.”
Para além da política e da segurança, gosta de vinho no frio da Serra, de feirinhas de antiguidades e de esportes. No judô, chegou até a faixa marrom. É gremista.
Zucco optou por conceder a entrevista próximo ao Gasômetro porque foi ali que, em 2024, participou das ações de auxílio aos atingidos pelas enchentes. “Tinha gente sorrindo, chorando, trazendo café, um pedaço de bolo, galão de combustível. Ninguém queria saber de ideologia, partido, todo mundo só queria ajudar. Para mim, é um exemplo do que a gente precisa buscar na política e na vida.”
Juliana Brizola fala de autenticidade, maternidade e articulação na disputa ao Piratini
Neta de Leonel Brizola, candidata do PDT entra na briga pelo que acredita e preza pelas conversas entre partidos.
Não são necessários mais de 10 minutos de papo para perceber que Juliana Brizola herdou uma das características marcantes do avô, Leonel: a autenticidade. Com espontaneidade, a candidata do PDT ao governo do RS fala da rotina, dos filhos, da família, dos relacionamentos e das crenças durante a entrevista que escolheu dar ao Correio do Povo na sede do PDT, no bairro Floresta, em uma tarde ensolarada de agosto. “Minha casa hoje não dá, tá uma bagunça, e aqui é mesmo para mim uma segunda casa”, assegura, entre fotos de Brizola, João Goulart e Getúlio Vargas.
A política se atravessa o tempo todo, não tem como ser diferente. Mas, enquanto fala dela, a candidata se mostra uma exímia conversadora das coisas da vida. Os filhos, sempre que dá, leva junto nos roteiros pelo Estado. Após dois casamentos, engatou um namoro à distância, com um pedetista radicado em São Paulo. Faz anotações e escreve textos, mesmo que sejam longos, de forma manuscrita, ao invés de usar o computador.
“Sou leonina né? Com ascendente em áries e lua em gêmeos.” Como suas duas avós, é devota de Santo Antônio. Mas ao santo, recorre mais para tratar das coisas do coração. Antes dos debates, faz respiração e recita mantras budistas aprendidos com a mãe. Às vezes, toma banho de sal grosso e de mel, porque “mal não faz”. E usa roupas de cores claras, leves. “Olha, resumindo, é aquilo: no creo en brujas, pero que las hay, las hay”, brinca.
Nascida em Porto Alegre, em 1975, aos 3 anos se mudou para o Uruguai, onde o pai, José Vicente, precisava administrar negócios da família após Brizola ter sido obrigado a deixar o exílio no país por pressão da ditadura brasileira. No início dos anos 80, quando o avô voltou ao Brasil e se elegeu governador do Rio de Janeiro, a família de Juliana foi junto para o estado e seus dois irmãos, um deles gêmeo, residem lá até hoje.
Na época, a transferência para o Rio acabou por deixar saudosos aqui os avós maternos, muito ligados aos netos. Para manter o convívio próximo, usaram uma estratégia que foi um sucesso. Compraram uma casa de veraneio em Garopaba. Por quê? Na época, a praia era o destino dos sonhos de dez entre dez surfistas gaúchos. E a mãe de Juliana, Nereida Daudt, lembra a filha “foi a primeira surfista mulher do RS”.
Da infância até o início da vida adulta, os anos se dividiram entre os meses escolares no Rio e longos verões em Garopaba. Uma combinação que fez nascer seu amor pelo surfe e pela natação.
O retorno ao RS não estava nos planos até o término da faculdade de Direito. Apaixonada por Direito Penal, durante a graduação estagiou em presídio, chegou a cogitar seguir carreira na polícia, passou uma temporada nos Estados Unidos e pensava em ser professora. Mas o destino parecia ter outros planos.
“Comecei a procurar pós-graduações em Penal e descobri que aqui na PUCRS tinha um mestrado em Ciências Criminais com um padrão muito alto e um pensamento inovador de combate à violência. E aí, em 2000, eu vim.” E casou com o namorado gaúcho e ligado ao PDT, “com direito a igreja, festa, vestido e tudo”. O casamento durou seis anos e abarcou a época em que a militante da juventude pedetista começou a se transformar na política que tem o diálogo como norte.
Com a morte de Brizola em 2004, a pressão partidária para que os herdeiros assumissem protagonismo político se intensificou. Juliana, contudo, só aceitou entrar em uma eleição em 2008.
“Algumas pessoas devem pensar que é fácil, mas é o contrário, é mais difícil. Porque o tempo todo tem um questionamento sobre quem tu és, tem alguém para dizer que tu estás na sombra, te botar para baixo, e eu tinha visto isso impactar minha família. Mas aí comecei a perceber também que, para ter voz e vez, tinha que ir para o voto. Hoje, não me enxergo fazendo outra coisa.”
Eleita a vereadora mais votada do PDT em Porto Alegre, já havia conhecido na época o segundo marido, também do PDT, e pai de seus dois filhos. A vitória na política, contudo, veio logo após um acontecimento da vida pessoal que abalou Juliana: uma perda gestacional aos cinco meses de gravidez, que adiou o sonho de ser mãe até o ano seguinte. “Ah, foi aquilo, né? O José Inácio nasceu em dezembro de 2009 e, em junho, comecei campanha para deputada estadual. Guria, andei o Estado inteiro com ele, amamentando, trocando fralda. Depois de me eleger, a mesma coisa, levava para a Assembleia direto.”
Com a franqueza que lhe é característica, a candidata descreve os anos passados no Legislativo gaúcho como de aprendizado em tempo integral. “Quando tu entras, não tem ninguém para te ensinar, não tem parceria, aprende quebrando a cara. Primeiro, aprendi que os inimigos não estão obrigatoriamente nos outros partidos. Depois, percebi que não é verdade que teu campo sempre vai estar contigo. Às vezes, tu vais conseguir apoio mesmo é do outro lado. Por fim, entendi que nada acontece se tu não te livrares dos teus próprios preconceitos e conversar com quem pensa diferente.”
No final da eleição seguinte para a Assembleia, em setembro de 2014, nasceu sua segunda filha, Angelina, prematura, com 32 semanas, e a pedetista se afastou da campanha. Terminou a corrida na primeira suplência. Com a cassação de Diogenes Basegio, assumiu a titularidade de uma cadeira. E comprou briga dentro do PDT, porque não se furtava a defender, na tribuna, a saída da sigla do governo de José Ivo Sartori.
Ao mesmo tempo, Angelina não se mostrava tão dócil quanto o primogênito no acompanhamento da rotina de trabalho da mãe. “Ela chorava desde a hora que entrava até a hora que saía da Assembleia.” A situação adversa também serviu de aprendizado, inspirando a deputada a apresentar um projeto para obrigatoriedade de salas de amamentação nos órgãos públicos. O texto levou sete anos para ser aprovado.
Após mais conquistas e derrotas nas urnas, em 2024 Juliana concorreu de novo à prefeitura. A campanha começou desacreditada, mas costuras que articulou pessoalmente quase a levaram ao segundo turno. A surpresa veio mesmo, contudo, quando uma fatia dos eleitores seguiu todo 2025 e o início de 2026, escolhendo seu nome em sondagens ao Piratini. E o que parecia impossível aconteceu: sua resiliência desencadeou um acordo nacional que culminou com o apoio do PT e do PSol gaúchos.
“Eu não podia virar as costas para as pessoas. Comecei a sentir a responsabilidade. Fora a vontade que tenho de reerguer o PDT e o trabalhismo, que é a corrente política genuinamente gaúcha.”
Gabriel Souza fala de curiosidade, estudo e constância na disputa ao Piratini
Candidato do MDB conta desde sua infância em Tramandaí até sua trajetória na política do Rio Grande do Sul.
Os adversários acham que é estratégia, mas, na verdade, é traço de personalidade. Nos embates da atual corrida para o Palácio Piratini, o vice-governador Gabriel Souza, que concorre ao cargo de governador do RS pelo MDB, apresenta dados sem recorrer a anotações, faz conexões entre áreas distintas e coloca em xeque o conhecimento dos oponentes.
A curiosidade sobre tudo e a vontade de sempre esmiuçar os assuntos não é uma realidade apenas no jogo político, para o qual Gabriel despertou cedo. Aos 13 anos, ao mesmo tempo em que começava a trabalhar como office-boy no escritório de contabilidade do pai em Tramandaí e estudava no Colégio Cenecista, em Osório, se interessou pelo movimento estudantil. Tinha início seu caminho na política.
Fora dela, mostra a mesma característica. Afinal, quantos médicos veterinários, ao seguirem com a trajetória acadêmica, fazem mestrado em Direito Empresarial e Cidadania e engatam um doutorado em curso, com dupla titulação, no Brasil e em Portugal, em Administração Pública?
“Sempre quis ser veterinário, gosto. Mas, por causa da política, muita gente acha que só me formei. Não sabe que abri negócio, tive consultório e mantive enquanto consegui conciliar. Na gestão pública, quando dizem que não dá para fazer, quero saber o motivo e quem não deixa. Gosto de destrinchar números, sei que, em uma campanha, às vezes nem é o mais recomendado, porque são abstratos, mas sei também que o ser humano pode aprender sobre todas as coisas”, diz Gabriel.
A timidez, admite, o acompanha, apesar dos anos de discursos e eventos públicos. “Sou como meu pai. A mãe é que é extrovertida”, revela, já na chegada para a entrevista na Redenção. É frio e, apesar do sol, o ventinho gelado afasta o público do parque. Mas não incomoda Gabriel, que traz para o encontro também a cadela da família, Bibiana Terra. Ela foi adotada recentemente, após um período de luto pela morte da cadela Anita Garibaldi, companheira de Gabriel e da esposa, Talise, por 13 anos.
As homenagens à personagem de “O Tempo e o Vento”, de Erico Verissimo, e à revolucionária brasileira que se destacou na Revolução Farroupilha também dizem muito sobre a personalidade do dono. Ele é um leitor dedicado de livros de papel, sejam romances, biografias ou tratados sobre a teoria do Estado. E tem admiração particular pela história política do RS. No momento, lê biografia de Júlio de Castilhos, escrita por Sérgio da Costa Franco.
“Vento mesmo era aquele Nordestão que eu pegava de frente na bicicleta quando trabalhava para o pai e ia entregar boleto para clientes nas outras praias. E na volta então, nem pedalava né, o vento é que me levava”.
A escolha do parque revelou facetas pouco conhecidas. Ele, que se transferiu para a Capital pela primeira vez aos 19 anos, e que em vários períodos se dividiu entre Porto Alegre e Tramandaí, tem a Redenção hoje na rotina, porque mora pertinho, na rua Santana. É ali que leva a filha Dora, 9 anos, para brincar. Quando ele e Talise decidiram morar juntos, optaram por um apartamento na Cidade Baixa, também para ficar perto da Redenção.
Anita Garibaldi, Redenção, Cidade Baixa. Questionado em tom de brincadeira se seria um “esquerdista disfarçado”, rende gargalhadas. O vice-governador lembra de sua militância na JR-8, a Juventude Revolucionária 8 de Outubro, braço do MR-8, de orientação marxista, e que se abrigou no MDB durante a ditadura. Cita o filósofo Antonio Gramsci e teoriza sobre o avanço da extrema-direita no mundo.
“Acho que todo o papo de 2013, as revoltas, o crescimento do populismo e da extrema-direita, tudo decorre da desatualização do Estado perante a sociedade. Há um cansaço das pessoas com o capitalismo, que não entregou o que prometia. Por isso que esse negócio de antissistema pega fácil. Eu me considero um liberal pleno. Não esse liberal brasileiro desvirtuado, bolsonarista. Sou mesmo bem de centro.”
Nascido em Tramandaí em 1984, em uma família que “não gostava de política”, Gabriel, aos 15, já era vice-presidente da União Gaúcha dos Estudantes e se filiou ao então PMDB. Aos 19, começou a trabalhar com o então deputado federal Eliseu Padilha, que viria a se tornar seu mentor. Em 2005 foi eleito presidente estadual da juventude do partido. E, durante uma reunião na cidade de Independência, conheceu Talise.
Em 2014, com consultório montado e os negócios prosperando, estava determinado a permanecer na política local quando começaram consultas para que voltasse a concorrer a deputado. A esposa o incentivou. “A Talise disse que eu nunca ia ser feliz se ficasse com aquela dúvida, de não saber se me elegia. Ela estava certa. Eu me elegi e daí o resto tu sabes. O Sartori me escolheu líder do governo, eu concorri de novo em 2018, fui o mais votado da bancada, presidi a Assembleia, e aí veio aquela guerra interna pesadíssima em 2022, que eu considero superada”, relembra, sobre os embates dentro do MDB e sua indicação para vice na chapa de Eduardo Leite.
Desde então, ele se prepara para concorrer ao governo. Acorda cedo, às 5h. Faz um chimarrão e lê, “porque ninguém atende ligação ou responde Whats a essa hora”, e vai para a academia assim que ela abre. A rotina de treinos mantém desde 2020.
Sempre que pode, vai com a família para Tramandaí, que continua sendo seu refúgio. “É o meu lugar”, resume. Na casa em um condomínio na entrada da cidade, mantém uma pequena biblioteca.
Ao final do encontro, com a mesma calma com que cruza a área do espelho d’água, na Redenção, falando sem pressa, Gabriel fala como é estar no mesmo casamento desde os 21 anos e se manter no mesmo partido há mais de 30 anos, apesar da efervescência que marca a política brasileira. Com outro sorriso tímido, responde: “Sou capricorniano, né?”.
Marcelo Maranata destaca empreendedorismo, trabalho e família na disputa ao governo do RS
Candidato do PSDB entende que trabalho e família são as principais palavras que o definem.
Trabalho e família. São as duas palavras que Marcelo Maranata escolhe quando lhe perguntam o que define a sua vida. São as duas, segundo o candidato do PSDB ao governo do Estado, que marcam sua trajetória, balizam seu comportamento e norteiam seu futuro. Mas tem mais. É impossível dissociar também a religiosidade, a fé na superação e o papel do empreendedorismo da sua história.
Marcelo Soares Reinaldo nasceu em 25 de maio de 1976 e a expressão Maranata (“vem, Senhor” em aramaico) foi adotada devido à forte influência da religião na família. “Somos adventistas. Por isso, por exemplo, nunca abrimos nossas lojas aos sábados. E no domingo trabalhamos. Mesmo sem abrir aos sábados, o melhor dia para o varejo, presidi duas vezes o Sindilojas e duas vezes o CDL.”
O foco no empreendedorismo definiu até o local escolhido pelo ex-prefeito de Guaíba para conversar com o Correio do Povo: o Mercado Público de Porto Alegre. Maranata não se cansa de contar o quanto empreendeu desde a infância. Ele nasceu em Camaquã, onde o pai, hoje com 80 anos, se mantém ativo à frente da própria barbearia. E onde os negócios da família incluem também uma papelaria — a mãe, de 76 anos, comanda o caixa — e uma imobiliária. Foi engraxate e entregador de jornal.
Do pai, que ensinou os três filhos a pedalarem, e do veículo utilizado no trabalho como entregador, herdou a paixão por bicicletas e pelo ciclismo. Mesmo que, entre a agenda atribulada pré-eleição e o clima instável, por ora esteja afastado das bikes. O pouco tempo livre que tem, vem usando para manter treinos curtos diários na academia.
Já conhecia a esposa, Deisi, quando, no final do Ensino Médio, ambos participaram de um simulado de tribunal do júri em uma aula. “Era baseado em um livro, e a gente tinha que encontrar um final diferente. Cada um fazia um papel. Eu assumi a promotoria. Na verdade, não consegui ganhar, mas peguei gosto naquilo e a Deisi também.”
A vontade de “ganhar dinheiro” e cursar Direito levaram Maranata a deixar a entrega de jornais e pedir emprego na padaria de um tio. “Eu sabia que o pai não tinha dinheiro para pagar. O dia em que fui falar com ele foi difícil. Estava com o cabelo cortado, mas sentei na cadeira de barbeiro, fiquei em silêncio. O pai falou: ‘O que tu quer?’ Eu contei que queria fazer a faculdade. O pai disse que iria me ajudar a pagar o curso, mas que o resto era comigo. E que, primeiro, era para eu passar. Nós passamos, eu e a Deisi. E aí escolhi Guaíba, porque podia fazer o curso no campus de lá.”
Na época, um dos irmãos de Maranata já tinha livraria. Ele conta que, em Guaíba, alugou um lugar com telhado ruim e calha vazando. Com a ajuda da família, comprou uma caminhonete batida para transportar materiais, e não gastava com apartamento, porque, quando voltava da faculdade à noite, dormia na loja.
No início, a namorada permaneceu em Camaquã. Em 1999 eles se casaram e alugaram uma casa. “Era pequeninha, ficamos lá dois anos. Depois fomos para outra, um pouco maior, e a coisa foi andando. Minha avó emprestou dinheiro, meu irmão. Minha cunhada emprestou saco de arroz, o pai tinha um consórcio.” Da união com Deisi, nasceram Marcelly, Marjorie e Davi. Hoje, além dos negócios em Camaquã, a família administra, em Guaíba, uma livraria, uma loja de bolsas e outra de móveis.
A política
“Nunca estive longe. Na igreja, fui líder dos jovens. Fundei oito unidades do Clube dos Desbravadores. Presidi o grêmio estudantil nos dois colégios em que estudei. Fui presidente do centro acadêmico do Direito duas vezes. Depois, presidi as entidades empresariais. Toda a política é semelhante. O importante é fazer com que todo mundo acredite no projeto e se entusiasme.”
Na prática, o ingresso na política partidária aconteceu quando entidades empresariais de Guaíba colocaram em curso uma estratégia para fazer andar suas demandas. “Precisávamos do apoio da prefeitura, participávamos de todos os conselhos, mas as coisas não andavam. Foi quando tomamos a iniciativa de cada um se filiar em um partido. No meu caso, tinha um professor da faculdade que era do PDT, meu vizinho era presidente do partido, e vereador. E eu fui. Naquele ano, elegemos três vereadores do varejo, colocamos dois secretários. Eu acabei vice-prefeito.”
A primeira eleição, para vice em Guaíba, aconteceu em 2008. Ele tentou a prefeitura em 2012 e em 2016, sem sucesso. Mas, em 2020, se elegeu prefeito, reeleito em 2024. Convicto na ideia de disputar o governo estadual, deixou o PDT no ano passado, e precisou renunciar ao cargo para entrar na corrida atual.
Como ninguém vive só de trabalho, além da paixão pelas bicicletas, o tucano também gosta de acampar, declamar poesias, cantar, ouvir músicas gauchescas e gospel. Enquanto ele adora “mato” e banho de cachoeira, a família prefere praia. Então, todos rumam para praias menos movimentadas, onde possa fazer trilha. “Se eu pudesse, trocava 15 dias de praia por um final de semana no meio do mato”, resume.
Da época em que entregava jornal, traz o hábito de acordar cedo, sempre entre 4h30min e 5h. “É o relógio biológico”. E dorme pouco, em média cinco horas. Mesmo assim, agora, reclama que tem encontrado pouco a esposa. Porque, nesta eleição, ela também concorre, a uma vaga na Assembleia Legislativa.

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