Especialistas: combate ao feminicídio precisa incluir os homens
Roda de conversa na Câmara de Porto Alegre defende participação masculina no enfrentamento à violência contra a mulher
A luta contra a violência de gênero também deve envolver os homens. Com esse foco, a Câmara Municipal de Porto Alegre promoveu uma roda de conversa voltada ao público masculino para debater o enfrentamento ao feminicídio. O evento, proposto pela vereadora Vera Armando (PP), foi realizado no Plenário Ana Terra e reuniu a delegada Waleska Alvarenga, a promotora de Justiça Luciana Casarotto e a juíza Madgéli Frantz Machado.
"Feminicídio não começa no dia do crime"
Diante de uma plateia majoritariamente masculina, a promotora Luciana Casarotto defendeu que os homens sejam aliados na prevenção. “Quando se fala sobre violência doméstica, existe um ranço de que isso é papo de mulher, que não tem nada a ver comigo, ou que é só um problema de segurança pública. O que a gente busca mostrar é que o feminicídio não começa no dia do crime. Ele começa no desprezo, na ideia de ‘isso é coisa de mulherzinha’, de que homem faz isso e mulher faz aquilo. Isso vai escalando como sociedade. Se essa é a nossa cultura, nós podemos mudá-la. E só vamos conseguir com os homens.”
Luciana ressaltou a importância de levar o debate para fora da bolha. “No Tribunal do Júri, as pessoas são comuns. São homens que, em determinado momento, decidiram acabar com a vida de suas companheiras. E por quê? Isso está muito inserido na nossa cultura, e é possível mudar.”
97% dos feminicídios são cometidos por homens
A diretora da Divisão de Proteção e Atendimento à Mulher, delegada Waleska Alvarenga, reforçou que o homem precisa fazer parte da solução. “Noventa e sete por cento dos feminicídios são praticados por homens. Durante muito tempo, uma parte de nós, feministas, acabou encerrando esse diálogo com os homens. Mas percebemos que precisamos trazê-los para esse debate, porque existem muitos homens que respeitam as mulheres e que podem conscientizar outros homens.”
Em 2026, o Rio Grande do Sul já registrou 43 feminicídios. Como a maioria ocorre dentro de casa, a atuação das autoridades depende de denúncia. “Se essa mulher não informa que está sofrendo violência, se não pede medida protetiva, não tem como a gente ajudar. A medida protetiva salva vidas. Das 80 mulheres que morreram no ano passado no Estado, apenas quatro tinham medidas protetivas”, destacou Waleska.
Violência aprendida pode ser desaprendida
A juíza do 1º Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher do Foro Central I de Porto Alegre, Madgéli Frantz Machado, classificou a iniciativa como essencial e ainda rara. “Pela natureza da violência contra a mulher, ela é uma violência aprendida. É transmitida culturalmente, muitas vezes dentro da própria família, de forma transgeracional. E tudo aquilo que a gente aprende, a gente também pode desaprender.”
Proponente celebra presença masculina
A vereadora Vera Armando comemorou a adesão do público masculino. “Muitos homens praticam algum tipo de violência e nem se dão conta. Por isso é importante trazê-los para o nosso lado, para que, nas rodas de amigos, com os filhos, no esporte e nas redes de convivência, possam colocar em prática o que discutimos aqui. Tenho certeza de que teremos resultados melhores trazendo os homens para essa luta.”
Vera também citou o Violentrômetro, projeto de lei de sua autoria aprovado pela Câmara. O material entra nas escolas municipais para ajudar crianças e professores a identificar os primeiros sinais da violência. “Ele mostra a escalada que pode levar ao feminicídio, que é a ponta do iceberg. O feminicídio não começa com a morte. Antes há xingamentos, humilhações e o descrédito constante em relação à mulher. Essa violência vai se agravando até chegar à forma mais extrema.”
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