Como o PCC, nascido em SP, virou alvo de Donald Trump

 



Facção é classificada pelo Tesouro americano como "maior organização criminosa do Hemisfério Ocidental"

02/07/2026 | 16h51 – Estadão Conteúdo

O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos colocou o Primeiro Comando da Capital (PCC) na mira. Em documento publicado na quarta-feira, 1º, a facção foi classificada como "a maior organização criminosa do Hemisfério Ocidental".

"O PCC é hoje a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental e, nos últimos anos, expandiu suas operações globalmente, com presença significativa em países como Reino Unido, Turquia e Japão. Nos EUA, a facção representa uma ameaça criminal real e crescente", diz o comunicado.

Segundo o governo americano, o grupo usa o sistema financeiro dos EUA para lavar dinheiro do tráfico. Para Washington, o PCC é uma ameaça crescente à segurança nacional por conta da atuação na lavagem de dinheiro, no tráfico de drogas e no contrabando de dinheiro em espécie.

Fundação: disputas sangrentas em Taubaté com Cesinha e Geleião
O PCC nasceu na Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, no Vale do Paraíba. O presídio, conhecido como "Piranhão", era visto pelos detentos como um castigo: condições precárias e brigas constantes.

O Massacre do Carandiru, em 1992, com 111 presos mortos na zona norte de São Paulo, aumentou ainda mais a tensão.

A primeira demonstração de força veio num campeonato de futebol. Era 31 de agosto de 1993. Em vez de jogo, oito detentos emboscaram dois rivais — Baiano Severo e Garcia — numa quadra. O ataque foi liderado por nomes como Geleião e Cesinha. Ali nascia o Primeiro Comando da Capital.

Na primeira década, o PCC tinha uma postura de confronto direto com o Estado, marca de líderes como Cesinha, Sombra e Geleião.

Expansão: irmandades secretas sob o comando de Marcola
Com a ascensão de Marcola, a facção mudou. Passou a funcionar como uma “irmandade secreta”, com regras mais rígidas, proibições claras para quem entrasse e, em troca, proteção e benefícios aos presos.

Essa fase foi decisiva para transformar o PCC na principal força do narcotráfico no país.

Transcontinental: cocaína parte de Santos para o mundo com André do Rap e Fuminho
Depois, o foco virou internacional. A mudança veio após condenações de lideranças históricas, transferências para presídios federais e medidas para cortar a comunicação de quem estava preso.

O celular foi peça-chave na expansão do PCC no início dos anos 2000. Nos últimos anos, as autoridades tentam sufocar a facção financeiramente. Nesse cenário, nomes como André do Rap, Fuminho e Cabelo Duro, com base na Baixada Santista, ganharam força e até acumularam fortunas com o crime.

Em 2018, Gegê do Mangue, uma das principais lideranças do PCC nas ruas, desconfiou da atuação do trio e proibiu o uso da estrutura da facção para fins particulares. Pouco depois, Gegê foi assassinado a tiros numa emboscada em território indígena em Aquiraz, no Ceará.

Uma semana depois, Cabelo Duro também foi morto — apontado como o assassino, a mando de Fuminho. O caso abalou a facção: Gegê era “batizado” como irmão, Fuminho não. Pelas regras, ele não poderia ter ordenado a morte sem aval da Sintonia Final, a cúpula mais alta.

Assassinato de delator e ex-delegado-geral de SP
Um dos episódios que mais mostrou o poder de fogo do crime foi a execução de Antônio Vinícius Lopes Gritzbach, delator do PCC. Ele foi morto com tiros de fuzil em novembro de 2024, no Aeroporto Internacional de Guarulhos. Investigado por lavar dinheiro para a facção, Gritzbach colaborava com o MP-SP numa das maiores investigações contra o crime organizado. O ataque também matou o motorista de aplicativo Celso Araújo Sampaio de Novais, 41 anos, atingido nas costas dentro do terminal.

A investigação revelou o envolvimento de policiais no crime. O soldado Ruan Silva Rodrigues e o cabo Denis Antônio Martins são apontados como os atiradores. O tenente Fernando Genauro da Silva teria levado a dupla de carro até o aeroporto.

Presos no Presídio Militar Romão Gomes, eles respondem por dois homicídios qualificados consumados e duas tentativas de homicídio. Podem pegar no mínimo 51 anos de cadeia, sendo 21 só pela morte de Gritzbach.

O MP de SP também aponta o PCC como mandante do assassinato do ex-delegado-geral Ruy Ferraz Fontes. Ruy chefiou a Polícia Civil paulista entre 2019 e 2022 e era conhecido por atuar contra a facção. Em 2006, indiciou toda a cúpula do PCC, incluindo Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola. Segundo o MP, o crime foi ordenado pelo alto escalão do PCC como vingança.

2 mil soldados e atuação em 28 países
O PCC tem mais de 2 mil “soldados” espalhados por pelo menos 28 países, além do Brasil, segundo mapeamento do MP-SP.

Na Europa, a maior concentração está em Portugal, com 87 membros. Depois vêm Espanha, com 26, e França, com 11. Há ainda Holanda, Irlanda e Itália, com 3 cada; Bélgica, Inglaterra e Suíça, com 2; Alemanha, Sérvia e Turquia, com 1.

No mundo, as maiores concentrações fora do Brasil estão na América do Sul. O levantamento, do fim de 2023, apontava 699 integrantes no Paraguai, 656 na Venezuela e 146 na Bolívia.

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