Respirar sem se desesperar: mulher relata como sobreviveu em escombros na Venezuela
Equipes de resgate seguem buscas após terremotos que deixaram quase 2 mil mortos; cerca de 15.800 pessoas foram afetadas
30/06/2026 | 22h00 – AFP
Andrea Canónico, de 23 anos, se concentrou na respiração para manter a calma sob os escombros de um prédio em La Guaira, na Venezuela. Já o voluntário Moisés Faramaya, de 26, usou a experiência como minerador para resgatar sobreviventes. As histórias dos dois mostram a resistência e o esforço das equipes após os terremotos da semana passada, que já deixam quase 2 mil mortos.
48 horas soterrada
Andrea ficou quase 48 horas presa até ser socorrida. Agora, espera que o irmão, de 20 anos, e a tia, de 91, também sejam encontrados. Ela contou à AFP, em Los Corales, epicentro dos tremores, que tentou manter a serenidade o tempo todo.
"O principal de tudo foi que eu não me desesperei", disse. "Pensei: 'Vou dormir.' Certamente vai continuar tremendo. Vou ficar tranquila, não vou me desesperar por causa da respiração."
Andrea tinha um espaço que permitia ficar sentada, mas havia cerca de seis metros de escombros sobre ela. O celular ficou com ela durante todo o período. O aparelho ajudou a saber as horas e a iluminar o local.
Acima dela, um homem conseguiu se comunicar e foi resgatado no dia seguinte. Ele avisou às equipes que Andrea ainda estava lá. A informação fez os socorristas continuarem as buscas.
"Acima de mim havia um buraco, por onde consegui passar. Passei por um móvel e cheguei ao outro buraco que os socorristas estavam fazendo. Fui escalando por ali e eles foram me puxando", relatou Andrea, com os braços enfaixados até os cotovelos.
“A Toupeira”
"Tem alguém vivo aqui?", gritava o voluntário Moisés Faramaya durante as buscas. Ele afirma ter resgatado 16 pessoas e recuperado 22 corpos na área do desastre. "Bati duas vezes e ouvi alguém arranhando uma parede. A pessoa estava presa e conseguia mexer a mão. E eu a retirei com vida", contou.
Conhecido como "A Toupeira", Faramaya trabalhou seis anos nas minas de El Callao, em Bolívar, região rica em ouro e pedras preciosas. A experiência no subsolo tem ajudado nas operações. Bombeiros e especialistas pedem a ajuda dele com frequência. Faramaya quase não come nem dorme. Fuma nos breves intervalos para "se manter ativo".
"O trabalho não é fácil, por causa da poeira e do cheiro de corpos em decomposição. Mas estamos perseverando", disse.
Esperança
Dias atrás, autoridades davam como mortos todos os moradores do prédio onde Andrea vivia. O garçom Alexander García, de 44 anos, ouviu bombeiros declararem "Código 14", expressão que, segundo explicaram, indica que todos os ocupantes estariam mortos.
Mesmo assim, uma equipe americana e cães espanhóis encontraram sinais de vida, o que reacendeu a esperança de familiares. "A emoção de que estejam vivos renasceu", contou García à AFP, enquanto esperava notícias de dois irmãos. "Todos os ouviram", disse. A mãe dele chegou a ser resgatada, mas morreu pouco depois.
Em Los Corales, os trabalhos continuavam com lanternas, acompanhados por dezenas de pessoas. Na madrugada desta terça-feira, uma tempestade atingiu La Guaira e obrigou a suspensão temporária das buscas.
Seis dias após a tragédia, a esperança de encontrar sobreviventes diminui gradualmente. Mesmo assim, familiares e equipes de resgate seguem mobilizados. Novo balanço oficial informa que cerca de 15.800 pessoas foram afetadas pelos tremores.

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