Com sanções americanas e favoritismo de Lula, dólar sobe e fecha a R$ 5,21

 



Moeda interrompe sequência de alívio e real tem pior desempenho global entre as divisas mais líquidas do dia

01/07/2026 | 19h27 – Estadão Conteúdo

O dólar registrou forte alta no mercado local no primeiro pregão de julho e voltou a fechar acima de R$ 5,20. Apesar de fala mais branda do presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, em fórum de política monetária em Portugal, a moeda americana se fortaleceu globalmente. O real teve o pior desempenho entre as divisas mais líquidas, pressionado pelo anúncio de sanções dos Estados Unidos a cidadãos e empresas brasileiras por ligação com o PCC, classificado pelos EUA como organização terrorista desde o início de junho.

Analistas avaliam que a confirmação do favoritismo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em pesquisa Atlas/Bloomberg também contribuiu para a queda do real, ao reduzir a perspectiva de ajuste fiscal a partir de 2027. Divulgado pela manhã, antes da abertura dos negócios, o levantamento mostrou Lula com 48,8% das intenções de voto em eventual segundo turno, contra 42,3% do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal nome da oposição.

Dólar atinge pico no dia
Em alta desde o início da sessão, o dólar bateu a máxima de R$ 5,2167 no começo da tarde, logo após o anúncio das sanções americanas. Depois de rondar os R$ 5,20 no restante do pregão, encerrou em alta de 0,92%, a R$ 5,2103 — maior valor de fechamento desde 30 de março (R$ 5,2478). No ano, a queda acumulada é de 5,08%.

Para o economista-chefe da CVPAR, Marcelo Fonseca, o anúncio das sanções pode ter causado ruído, mas não foi decisivo para a queda do real. Ele observa que a moeda brasileira já vinha com desempenho inferior ao dos pares nos últimos meses, com “dissipação do otimismo com o Brasil”, sobretudo pela piora fiscal.

“Vejo espaço para o real depreciar mais. Temos uma deterioração da política fiscal, com expansão espantosa dos gastos, e a mudança das expectativas para a eleição, com as pesquisas mostrando quadro desfavorável para a direita, que poderia levar adiante uma agenda de reformas e ajuste fiscal”, afirma Fonseca. “O BC estender o ciclo de calibração da Selic com a inflação acelerando e as expectativas desancoradas também é ruim para o real.”

Desempenho do dólar e índices globais
Referência do comportamento do dólar frente a seis moedas fortes, o índice DXY subia cerca de 0,20% por volta das 17h, na casa dos 101,400 pontos, após máxima aos 101,595 pontos. O movimento foi puxado principalmente pelo enfraquecimento do euro, após leitura abaixo das expectativas da inflação ao consumidor na zona do euro.

Já o relatório ADP mostrou que o setor privado dos EUA criou 98 mil vagas em junho, acima da estimativa de 93 mil. Na terça, o relatório Jolts já havia indicado geração de empregos mais forte que o esperado em maio. Os dados elevaram as expectativas para o relatório de emprego (payroll) dos EUA de junho, divulgado amanhã, 2, que pode alterar as apostas sobre alta de juros ainda este ano.

“O payroll amanhã será peça fundamental para determinar os próximos passos do Fed e ditar o humor dos mercados. Um resultado mais forte vai mostrar que a economia está reacelerando. Será um problema para o Fed”, diz Fonseca. Para ele, Warsh, embora tenha reforçado o compromisso com a estabilidade de preços em sua primeira entrevista à frente do BC americano, deve “postergar qualquer decisão de subir os juros”, diante de expectativas controladas e “recuo da inflação cheia com a queda recente do petróleo”.

Perspectivas do Fed e economia global
Pela manhã, em Sintra, Warsh reiterou que não vai dar forward guidance, mas destacou que houve diminuição das expectativas e dos riscos inflacionários nas últimas semanas. Ao comentar os efeitos do boom da Inteligência Artificial, disse que uma expansão da oferta pode ter “implicações enormes” para a condução da política monetária.

Para economistas do Goldman Sachs, estratégias de carry trade ainda podem ter “retorno total” positivo mesmo com reprecificação dos próximos passos do Fed, desde que o ambiente global siga favorável a ativos de risco.

“Na América Latina, a sensibilidade do peso mexicano a dinâmicas cíclicas específicas dos EUA o torna, em nossa visão, uma posição comprada atraente”, afirma o Goldman. “Por outro lado, o cenário se tornou menos favorável ao real, devido ao aumento do ruído político e a uma comunicação menos clara do Banco Central.”

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