Democracia alemã ameaçada
O aumento da retórica extremista e o aumento dos crimes de ódio levaram a uma onda histórica de manifestações em defesa da soberania popular, tão arduamente reconquistada
Jurandir Soares
Não é novidade que a entrada desenfreada de imigrantes na Alemanha ao longo dos últimos 15 anos causou uma certa desestabilização na economia do país, gerando crescentes protestos. Esta recepção às pessoas que fugiam das guerras no Oriente Médio ou da seca na África estava inserida no certo sentimento de culpa dos cidadãos alemães por tudo que aconteceu durante o período nazista. O problema é que essa chegada de imigrantes assumiu proporções tão grandes – só no ano de 2015 um milhão entrou no país – que fez crescer os movimentos de repulsa aos recém chegados. Especialmente, pelos movimentos de extrema-direita, que passaram a ser uma ameaça para o regime democrático.
RECRUTAMENTO
Para o Escritório Federal para Proteção da constituição (BiV), o extremismo de direita passou a ser a maior ameaça para a democracia alemã. E esta ameaça se dá tanto de forma analógica quanto digital, segundo o ministro do Interior, Alexander Dobrindt. E, fundamentalmente, pelo recrutamento. O presidente do BiV, Sinan Selen, em entrevista ao Der Spiegel, destacou tendências que considera muito claras: se recruta e radicaliza de forma seletiva os jovens do país. O recrutamento se dá, principalmente, no âmbito digital. E se usa cada vez mais a Inteligência Artificial para difundir ideologias extremistas. E destacou como o Estado Islâmico – outro fator de violência – insta a seus seguidores a se familiarizarem com a IA.
INTERIOR
Mas o perigo maior estaria no interior, na própria população. Segundo a organização, o potencial extremista de direita aumentou no último ano em mais 8 mil pessoas, passando este universo para 60 mil pessoas. Neste somatório está a maior parte dos integrantes da AfD, a Alternativa para a Alemanha, partido de extrema-direita que vem num crescendo extraordinário. Na avaliação do BiV, o partido tem um total de 70 mil filiados, sendo que 28 mil são considerados extremistas de direita. O discurso anti-imigração e a insatisfação com a economia são os motores centrais do crescimento da AfD, que tem atraído fortemente o voto de jovens e homens.
O acrescimento da AfD é tão acentuado que pesquisas apontam a sua vitória para o governo regional da Saxônia-Anhalt. A ascensão de um governo de extrema-direita é vista como “um risco para a segurança”, conforme assinalou o ministro do Interior da Turíngia, Georg Meier. O temor é de que, ao ter acesso aos serviços de inteligência, poderia filtrar algumas informações.
ESQUERDA
O curioso na Alemanha é que não é somente a extrema-direita que é considerada uma ameaça. A esquerda também é. Seu número, de acordo com BiV, chega a 42 mil. Porém, os integrantes do movimento, dispostos a atos de violência, chegam a 11,6 mil. O que faz a Alemanha temer o radicalismo e o crescimento da violência por parte dos dois extremos. Porém, as ameaças de terror não param nesses dois extremos. Há o agente responsável por tudo isto: o imigrante radical. Estima-se que 28,6 mil pessoas estejam vinculadas a grupos classificados como de terrorismo islâmico. Como se observou pela sua origem, a grande maioria dos imigrantes tem no islamismo e a sua religião. Assim é que, pelo número de islâmicos que chegaram ao país ter superado os milhões, não surpreende o contingente daqueles que são adeptos do terror.
REAÇÃO
Com este pano de fundo, tem crescido os crimes de ordem política. O Departamento Federal de Investigações (BKA) contabilizou, em todo o país, 85.837 casos deste tipo em 2025, um aumento de quase 2% em relação a 2024. Esse foi o maior número registrado desde o início da série histórica, em 2001. Em média, são cometidos cerca de 235 crimes políticos por dia ou dez por hora. Em metade dos casos, os suspeitos são extremistas de direita.
Uma grande parcela destes delitos esteve relacionada a crimes de ódio, entre eles agressões antissemitas, islamofóbicas ou anticiganas. Há também ocorrências de dano ao patrimônio, propaganda proibida, insultos e incitação ao ódio. O aumento da retórica extremista e o aumento dos crimes de ódio levaram a uma onda histórica de manifestações populares em defesa da democracia, tão arduamente reconquistada.
Correio do Povo
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