História do Egito: 120 mil anos à beira do Nilo

 


A história do Egito é uma das mais longas e contínuas do mundo. Tudo começa com o rio Nilo — sem ele, nada disso existiria. Quando o norte da África ficou mais quente e seco, lá pelo fim do Paleolítico, as pessoas foram se juntando às suas margens. Era o único lugar onde dava para plantar, caçar e viver. Foi ali que grupos nômades começaram a se fixar, plantar e criar animais. E, aos poucos, nasceu uma sociedade organizada que marcaria a história da humanidade.

Antes dos faraós

Muito antes das pirâmides, o Egito já era habitado. O clima era mais úmido, com savanas, rebanhos de animais e muitos pássaros nas margens do Nilo. Por volta de 5.500 a.C., tribos já faziam cerâmica, teciam, enterravam seus mortos e usavam cobre.

No sul, a cultura Badariana se destacou pela qualidade da cerâmica e das ferramentas. Depois vieram as culturas Amratiana e Gerzeana, que já negociavam com Canaã e Biblos. No norte, grupos como Faium A e El-Omari também deixavam suas marcas.

Com o tempo, a cultura de Nacada cresceu e dominou o vale. Eles importavam obsidiana da Etiópia, faziam vasos de pedra decorados, joias de ouro e lápis-lazúli, e inventaram a faiança — aquele esmalte brilhante usado até pelos romanos. Mais importante: começaram a usar símbolos que virariam os hieróglifos. O poder se concentrou primeiro em Hieracômpolis, depois em Abidos, e dali os líderes de Nacada unificaram o Egito.

O Egito dos faraós

Época Tinita – c. 3.150 a.C.
O sacerdote Manetão, no século III a.C., disse que o primeiro faraó foi Menés, que uniu o Alto e o Baixo Egito. Hoje muitos acham que Menés era na verdade Narmer, mostrado na famosa Paleta de Narmer usando as coroas dos dois reinos. A capital foi para Mênfis, de onde o faraó controlava o Delta fértil e as rotas de comércio. Nasceram as mastabas, túmulos elaborados, e o faraó passou a ser visto como um deus vivo. Também começaram as expedições ao Sinai atrás de cobre e turquesa.

Império Antigo – a era das pirâmides
Com uma administração forte, impostos organizados e irrigação, a produção de alimentos aumentou. Sobrava recurso para arte, arquitetura e tecnologia. Foi a época de Djoser e sua pirâmide de degraus, de Seneferu com três pirâmides, e de Quéops, Quéfren e Miquerinos em Gizé — com a Esfinge vigiando. O Egito negociava com Líbano, Palestina, Punt e trazia cedro, mirra, ouro e cobre. Mas o poder do faraó foi se esvaindo. Nobres e sacerdotes ganharam terras, o Estado enfraqueceu e, com uma seca brava entre 2.200 e 2.150 a.C., o país entrou em crise: o Primeiro Período Intermediário.

Primeiro Período Intermediário
Sem governo central forte, veio a fome e brigas regionais. Só que, livres do faraó, os governantes locais investiram em suas cidades. A arte ficou mais criativa, a literatura mais humana. Dois polos disputavam o poder: Heracleópolis no norte e Tebas no sul. Por volta de 2.055 a.C., Mentuotepe II, de Tebas, venceu e reunificou o Egito.

Império Médio – renascimento
A estabilidade voltou. A capital foi para Itjtawy, no Faium. Drenaram pântanos, melhoraram a irrigação e reconquistaram a Núbia, rica em ouro. A religião ficou mais “democrática”: todo mundo passou a ter direito à vida após a morte, não só a elite. A literatura ficou refinada, a escultura mais realista. Mas no fim, colonos asiáticos no Delta ganharam força. Com a economia fraca, eles assumiram o controle: eram os hicsos.

Segundo Período Intermediário
Por volta de 1.785 a.C., os hicsos dominaram o Delta a partir de Aváris. O faraó em Tebas virou vassalo. Os hicsos trouxeram cavalos, carros de guerra, novas técnicas de tecelagem e instrumentos musicais. Depois de 30 anos de luta, o faraó Amósis I expulsou os hicsos em 1.555 a.C. e deu início ao Império Novo.

Império Novo – o auge
Foi o Egito no seu máximo. Tutemés I e Tutemés III levaram o império da Síria até a quarta catarata do Nilo, na Núbia. Hatshepsut, uma das poucas faraós mulheres, mandou expedições a Punt e ergueu um templo espetacular. Depois veio a revolução de Aquenáton, que tentou impor o culto a um deus só, Aton, mudou a capital para Amarna e se esqueceu da política externa. Deu errado. Tutancâmon restaurou os deuses antigos.

Ramessés II, o Grande, construiu mais que todos: templos, estátuas, a cidade de Pi-Ramessés. Lutou contra os hititas em Cadexe e assinou o primeiro tratado de paz da história, em 1.258 a.C. Mas vieram os Povos do Mar, invasões líbias, corrupção e roubos de túmulos. Os sacerdotes de Amon em Tebas ficaram poderosos demais. O império rachou.

Terceiro Período Intermediário
Por volta de 1.070 a.C., o Egito estava dividido: faraós em Tânis no norte, sacerdotes em Tebas no sul. Líbios se instalaram no Delta e Sisaque I fundou uma dinastia. Depois vieram os cuxitas da Núbia, com Piiê, que conquistaram o país. No fim, os assírios invadiram, saquearam Tebas e o Egito perdeu prestígio.

Época Baixa
Os assírios foram embora, mas em 525 a.C. os persas de Cambises II conquistaram o Egito. Houve revoltas, breves independências, mas em 343 a.C. os persas voltaram. Até que, em 332 a.C., Alexandre, o Grande chegou. Os egípcios o receberam como libertador.

Egito grego e romano

Ptolomeus
Alexandre fundou Alexandria, que virou centro de cultura com sua famosa Biblioteca e o Farol. Seus generais, os Ptolomeus, governaram como faraós, construíram templos em estilo egípcio e misturaram deuses gregos e egípcios — como Serápis. Mas no fim, com brigas de família e revoltas, chamaram Roma para proteger o Egito.

Domínio romano – 30 a.C.
Cleópatra e Marco Antônio perderam para Otaviano. O Egito virou província romana, o celeiro de Roma. O cristianismo se espalhou a partir de Alexandria, enfrentou perseguições, mas venceu. Em 391, Teodósio proibiu os cultos pagãos. Templos viraram igrejas ou foram abandonados. Os hieróglifos foram esquecidos. Em 451, o Egito cristão rompeu com Roma e Bizâncio ao adotar o monofisismo, criando a Igreja Copta.

Idade Média: bizantinos, persas e árabes

Depois da divisão de Roma em 395, o Egito ficou com Bizâncio. Era rico, mas vivia tensões religiosas entre bizantinos ortodoxos e egípcios monofisistas. Em 619, os sassânidas persas invadiram e ficaram dez anos.

Em 639, os árabes de Anre ibne Alas conquistaram o Egito, tirando os bizantinos em 642. Fundaram Fostate, perto da antiga Babilônia do Egito. Aos poucos, o país virou muçulmano e passou a falar árabe. Foi província dos califados Omíada e Abássida, mas logo ganhou autonomia.

Tulúnidas e Iquíxidas
No século IX, Amade ibne Tulune e depois Maomé ibne Tugueje Iquíxida governaram quase independentes, controlando até a Síria.

Fatímidas – 969
Xiitas vindos da Tunísia, os fatímidas tomaram o Egito e fundaram o Cairo, “A Vitoriosa”. Criaram um império que ia da Sicília à Meca. O Egito virou centro de comércio entre Oriente e Ocidente. Com as Cruzadas, continuaram negociando com os italianos.

Aiúbidas – 1171
Saladino derrubou os fatímidas, devolveu o Egito ao sunismo e reconquistou Jerusalém dos cruzados. Reorganizou o exército com curdos e turcomanos e expandiu até o Iêmen.

Mamelucos – 1250 a 1517
Escravos-soldados turcos e circassianos tomaram o poder. Os Bahris transformaram o Cairo numa das maiores cidades do mundo islâmico. Enfrentaram os mongóis e ergueram mesquitas imponentes. Mas a Peste Negra, a partir de 1347, devastou o país várias vezes. Depois vieram os Burjis, com mais instabilidade. Em 1517, o sultão otomano Selim I derrotou os mamelucos e anexou o Egito.

Egito moderno

Domínio otomano – 1517 a 1798
O Egito virou província otomana, mas os mamelucos continuaram mandando de fato. O comércio declinou depois que os europeus descobriram a rota pelo Cabo da Boa Esperança. Em 1798, Napoleão invadiu para atrapalhar os ingleses. Ficou três anos e foi expulso por otomanos e britânicos.

Dinastia de Maomé Ali – 1805
Um oficial albanês, Maomé Ali, assumiu o poder. Massacrou os mamelucos em 1811 e modernizou o Egito: criou exército à europeia, fábricas, canais, plantações de algodão. Virou praticamente independente. Seus sucessores se endividaram. Para pagar, venderam as ações do Canal de Suez, inaugurado em 1869, para a Grã-Bretanha em 1875.

Protetorado britânico – 1882 a 1922
Com a dívida impagável, franceses e ingleses assumiram as finanças. Uma revolta nacionalista levou à invasão britânica em 1882. Em 1914, virou protetorado oficial. Em 1922, os britânicos deram independência nominal com o rei Fuade I, mas continuaram mandando.

Egito contemporâneo

Monarquia – 1922 a 1952
O partido Wafd queria independência real. Em 1936, um tratado reduziu tropas britânicas. Na Segunda Guerra, o Egito ficou oficialmente neutro, mas os ingleses usaram o país como base. Em 1948, perdeu a guerra contra Israel. O rei Faruque era impopular, corrupto, e o país vivia crise.

República – 1952
Em 23 de julho de 1952, os “Oficiais Livres” liderados por Nasser derrubaram Faruque. Em 1953, virou república. Nasser assumiu em 1956. Nacionalizou o Canal de Suez, enfrentou Inglaterra, França e Israel na Guerra de Suez e saiu como herói árabe. Fez reforma agrária, aproximou-se da URSS, construiu a Represa de Assuã e tentou unir Egito e Síria na República Árabe Unida. Mas perdeu a Guerra dos Seis Dias em 1967 para Israel: Sinai, Gaza, Cisjordânia e Golã foram ocupados. Morreu em 1970.

Sadat – 1970 a 1981
Anwar Sadat se reaproximou dos EUA, abriu a economia na política da “Infitah” e, em 1973, atacou Israel na Guerra do Yom Kippur. Em 1979, fez a paz com Israel em Camp David e recuperou o Sinai. Virou pária no mundo árabe. Foi assassinado em 1981 por fundamentalistas islâmicos.

Mubarak – 1981 a 2011
Hosni Mubarak manteve a paz com Israel, a aliança com os EUA e a abertura econômica. Mas governou com estado de emergência, repressão e corrupção. O país sofreu com terrorismo islâmico nos anos 1990, especialmente contra turistas em Luxor em 1997. Nos anos 2000, fez pequenas reformas, mas a eleição de 2005 foi fraudada. A economia crescia, mas a desigualdade também.

Revolução – 2011
Em 25 de janeiro de 2011, inspirados pela Tunísia, egípcios ocuparam a Praça Tahrir pedindo a saída de Mubarak. Após 18 dias, em 11 de fevereiro, ele renunciou.

Morsi e a Irmandade – 2012 a 2013
Os militares assumiram. Em 2012, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, venceu a eleição presidencial. Tentou ampliar poderes, fez uma constituição islâmica que dividiu o país. Em 30 de junho de 2013, milhões protestaram. Em 3 de julho, o exército liderado pelo general Abdel Fattah el-Sisi o depôs. Houve repressão violenta a apoiadores da Irmandade, com centenas de mortos na Praça Rabaa em agosto. Centenas de líderes foram condenados à morte em julgamentos em massa em 2014.

El-Sisi – 2014 até hoje
Sisi se candidatou e venceu com 96,9% em 2014. Prometeu grandes obras: expansão do Canal de Suez, nova capital administrativa, reator nuclear em Dabaa. Manteve linha dura contra islamistas e fechou túneis entre Sinai e Gaza. O Egito participou da intervenção no Iêmen em 2015. A economia ainda enfrenta dificuldades, mas o país segue como ator central no Oriente Médio.


Do Nilo pré-histórico aos arranha-céus da nova capital, a história do Egito é a história de como um rio fez uma civilização que nunca parou de se reinventar.

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