Cada vez se fala mais em guerra
A impressão de que o mundo está entrando em uma fase mais perigosa deixou de ser apenas uma sensação
Jurandir Soares
A guerra deixou de ser apenas uma possibilidade distante e começa a ocupar o centro do debate entre as grandes potências. Na última quinta-feira, escrevi sobre os preparativos da Europa para um eventual conflito com a Rússia. Agora, em uma sequência que dificilmente pode ser ignorada, os Estados Unidos anunciaram a criação de uma comissão de alto nível para estudar como serão os conflitos do futuro.
A estratégia do governo Donald Trump envolve algumas das figuras mais poderosas da política, da tecnologia e da indústria militar norte-americana. Ao mesmo tempo, Moscou fala cada vez mais abertamente sobre como reagiria a uma agressão: com o uso de armas nucleares.
PUTIN
Na quarta-feira, na base militar de Quantico, o chefe do Pentágono, Pete Hegseth, anunciou o Projeto Meridian, apresentado como uma iniciativa para reunir “as melhores mentes dos EUA” para estudar o futuro da guerra. Entre os convocados está Elon Musk, que esteve na Casa Branca até 2025.
No mesmo momento, Vladimir Putin reunia o Clube Valdai, próximo ao Kremlin, para defender o papel da Rússia no mundo, acusar o Ocidente de construir uma nova “Cortina de Ferro” e voltar a advertir que poderá recorrer a armas atômicas.
A impressão de que o mundo está entrando em uma fase mais perigosa deixou de ser apenas uma sensação.
PREPARAÇÃO
O Meridian não é somente um exercício acadêmico. A equipe terá 120 dias para apresentar propostas sobre armas, tecnologias e capacidades necessárias aos campos de batalha das próximas décadas. Musk dividirá a direção do projeto com Palmer Luckey, fundador da empresa de tecnologia militar Anduril, e o ex-presidente da Câmara Newt Gingrich. A iniciativa pretende antecipar os meios pelos quais inteligência artificial, drones, sistemas autônomos e outras tecnologias poderão transformar os confrontos.
É significativo que a maior potência militar do planeta esteja dedicando recursos e algumas de suas figuras mais influentes a imaginar a guerra que virá. Não significa que um novo conflito mundial esteja sendo planejado, mas revela que Washington considera necessário preparar-se para cenários cada vez mais complexos. E isso ocorre justamente quando a Europa também acelera seu próprio rearmamento.
RÚSSIA
A reação da Rússia, com ameaças explícitas de uso de armas nucleares, foi motivada pela acusação de que a Otan estaria planejando um bloqueio aéreo e naval para isolar o enclave russo de Kaliningrado, situado entre a Polônia e a Lituânia. Em uma nota diplomática informal enviada à aliança militar e reforçada por declarações do presidente Vladimir Putin, Moscou afirmou que qualquer tentativa de cortar as rotas de acesso ou atacar o território seria interpretada como uma ameaça existencial. O Kremlin declarou estar pronto para utilizar “todo o arsenal de forças e capacidades à sua disposição, incluindo armas nucleares” para defender a região.
PERIGO
O problema está justamente nessa escalada de acusações e advertências. De um lado, europeus se armam diante da ameaça russa; de outro, Moscou interpreta esse movimento como preparação para um confronto. Washington estuda as guerras futuras enquanto a Rússia faz advertências nucleares. A cada passo, aumenta o espaço para erros de cálculo.
Talvez o mais preocupante seja a mudança do vocabulário. Fala-se cada vez menos em como evitar conflitos e cada vez mais em como prepará-las, vencê-las e dominar as tecnologias que serão usadas nas próximas batalhas. É compreensível que governos se organizem para proteger seus povos. O perigo começa quando a preparação militar passa a ser acompanhada pela normalização da ideia de que a guerra é inevitável.
Correio do Povo

Comentários
Postar um comentário