OS VIRTUOSOS DO NAUFRÁGIO - 23.10.26
Por Alex Pipkin
Existe um barco chamado Brasil. No convés superior, a elite estatal, acadêmica e artística discursa sobre igualdade enquanto, evidente, tranca suas cabines. No porão, o povo recebe migalhas do eterno pai dos pobres e agradece por continuar remando. O segredo é muito simples. O lulopetismo precisa que os pobres permaneçam filhos.
A academia, convertida em catedral da consciência superior, decidiu que democracia é a vitória permanente de suas ideias. Se a esquerda vence, o povo decidiu; se perde, o povo foi enganado. Para essa aristocracia do Lattes, aprovar uma lei conservadora é autoritarismo; aparelhar o STF e silenciar divergentes são apenas “cuidados contra o fascismo”.
Cármen Lúcia sintetizou a fórmula, declarando inadmissível a censura “sob qualquer argumento”, para logo chancelá-la sob a justificativa de uma “situação excepcionalíssima”. A liberdade tornou-se concessão temporária do Estado.
O populismo escrachado vai muito além. Lula anunciou que a mobilização de estudantes, mulheres e trabalhadores o obrigará a adotar “um novo jeito de governar”. No idioma demagógico, a rua deixa de pressionar o poder e passa a servir de salvo-conduto. Uma eleição autoriza governar sob a Constituição, não reinventá-la em nome da multidão.
Bingo. Golpes raramente se anunciam como tal; apresentam-se como participação popular, a expressão da “democracia”.
A grande imprensa é a orquestra do navio. Enquanto o casco estala, enxerga ameaças à direita com microscópio, mas fica míope quando o autoritarismo vem por bombordo. Não informa; escolta.
Na ponte, benefícios são distribuídos como presentes pessoais. Comprar votos com dinheiro público? Jamais. Chama-se sensibilidade social. A conta fiscal chega depois; o voto chega antes. É caridade e a virtuosa sinalização de virtude com o bolso alheio.
Cada grupo imagina ter um bote exclusivo. O funcionalismo confia no contracheque; o militante, na causa; o artista, no edital; a burguesia culpada compra indulgência na primeira classe. E o pobre? Ah, o pobre recebe um colete furado para reverenciar o capitão que o afunda.
Essa coalizão privatiza as benesses e socializa o naufrágio. O casco, porém, é um só.
Quando a água cobrir o convés, os virtuosos prenderão quem apontou o furo, a orquestra culpará o mar e o capitão chamará o afundamento de vitória da democracia.
Domingo, o Brasil decidirá se tapa o rombo ou agradece ao capitão pela água.
Pontocritico.com

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