Temporal no RS deixa dois mortos, três feridos e três desaparecidos; Defesa Civil aponta 122 ocorrências
A tempestade entre domingo e segunda-feira, provocada pelo avanço rápido de uma frente fria, deixou duas pessoas mortas, três feridas e três desaparecidas no Rio Grande do Sul. Um balanço preliminar da Defesa Civil do Estado, divulgado nesta segunda-feira, confirma 122 ocorrências em 119 municípios relacionadas ao temporal. Entre os principais registros estão vendavais, chuvas intensas, granizo, alagamentos, enxurradas, deslizamentos e movimentos de solo e lama.
Pelotas, Santa Vitória do Palmar, Capão da Canoa e Júlio de Castilhos estão entre as áreas mais afetadas pelo fenômeno, conforme informou a Defesa Civil do Estado em coletiva no início da noite desta segunda-feira. Até o momento havia 27 alertas vigentes no Estado. Desses, 20 eram relacionados a movimentos de massa, principalmente na Serra, e sete tratavam de risco de inundações em pontos específicos de bacias hidrográficas.
"Reforçamos com as populações que residem nessas áreas de declividade acentuada para que estejam atentos a esses sinais e não estejam expostos", afirmou a tenente Sabrina Ribas da Defesa Civil do Estado em coletiva.
A Defesa Civil orienta a população a evitar deslocamentos durante períodos de chuva intensa, especialmente em áreas alagadas. A recomendação ganha atenção diante do fato de que a vítima que morreu e três dos quatro desaparecidos estavam em deslocamento durante a tempestade.
Desaparecidos e mortos
Em Pelotas, um motociclista teria colidido contra um fio que atravessava a rua e morreu. A segunda morte ocorreu em Caxias do Sul. Os bombeiros encontraram o corpo de Eliane Nunes da Silva, de 43 anos, dentro do carro em que ela estava com os dois filhos, uma adolescente e um menino de 4 anos. Os dois menores continuam desaparecidos. A Defesa Civil, no entanto, ainda não confirmou oficialmente a morte de Eliane.
No bairro De Lazzer, os bombeiros procuram um homem que teria caído em uma galeria durante uma tentativa de desentupimento de um bueiro. A suspeita é de que ele tenha sido sugado pela abertura e, posteriormente, arrastado pela força da água.
Estradas bloqueadas e falta de energia
As chuvas que atingem o estado neste início de semana causam danos nas rodovias estaduais. Na Serra, os motoristas devem ter atenção para o bloqueio total da ERS 431, em São Valentim do Sul; da ERS 444, entre Monte Belo do Sul e Santa Tereza; da ERS 448, entre Nova Roma e Farroupilha; e da ERS 110, entre o km 70 e o km 72. No Vale do Rio Pardo, há bloqueio na ERS 347, em Segredo. Além das vias estaduais, a chuva provoca bloqueios em rodovias federais em diversas regiões.
O Rio Grande do Sul permanece com um grande número de clientes sem energia elétrica nas duas principais concessionárias do Estado. Na área de atuação da CEEE Equatorial, 348.070 consumidores seguem afetados em atualização mais recente no painel de monitoramento da empresa. Já na área da CPFL RGE, 124 mil clientes seguem sem energia elétrica.
O que aconteceu
A frente fria chegou ao Estado no início da madrugada, após um domingo marcado pela atuação de ar quente. O sistema avançou rapidamente pelo território gaúcho e provocou chuva intensa, granizo e ventos fortes em diversas regiões.
Na Serra, nos Vales e no Norte, a frente avançou mais lentamente, favorecendo a concentração de calor e umidade e aumentando a intensidade das chuvas. Em alguns pontos, foram registrados cerca de 200 milímetros em 48 horas, com parte significativa do volume concentrada em apenas três a seis horas.
"Na região da Serra e dos Vales, houve a canalização da umidade e do calor que entrou em choque com essa frente fria, por isso que trouxe as chuvas intensas", afirmou a meteorologista da Defesa Civil do Estado, Vanessa Gehm.
A Defesa Civil ainda não confirmou a ocorrência de tornados. A avaliação dos danos e de possíveis fenômenos associados às tempestades continua sendo realizada.
Próximas horas
Para a noite de segunda-feira, ainda eram esperadas pancadas moderadas a fortes na Região Metropolitana, nos Vales, na Serra e no Norte. A instabilidade deveria perder força até o fim da noite. Na terça-feira, ainda poderiam ocorrer pancadas no Norte e Nordeste, mas sem previsão de volumes capazes de provocar novos transtornos.
Em relação ao Guaíba, ainda não era possível estimar com precisão a resposta do nível da água aos volumes registrados no Taquari e em outros afluentes. A expectativa da Defesa Civil é ter uma avaliação mais precisa entre a terça-feira e a noite de terça.
Região dos Vales tem seis municípios em cota de inundação após chuvas intensas
Pelo menos 22 estações de monitoramento registram níveis acima do normal na região dos Vales. Das 11 estações de monitoramento do nível de rios acompanhadas pelo Serviço Geológico Brasileiro (SGB) no rio Caí e seus afluentes, oito estão com elevação acima dos níveis normais e três já superam cota de inundação. No Vale do Taquari, pelo menos duas estações de monitoramento se aproximam do patamar de alerta ao longo do dia e outras seis estações já superaram a cota. Em Encantado e Lajeado o curso d’água já alcançou a cota de inundação.
Vale do Caí
Em São Sebastião do Caí, o manancial atingiu a cota de alerta às 4h30min desta segunda-feira e, desde então, acumulou elevação de 6,26m. No município, a cota de inundação foi atingida por volta das 14h30 e segue em tendência de alta com velocidade.
Em Nova Palmeira, na Serra Gaúcha, o pico da inundação do rio Caí aconteceu às 13h45, quando o curso d'água chegou a marca de 6,36m, cerca de 1,66m acima da cota de inundação. Ao final da tarde desta segunda, o nível das águas já começa a baixar, com recuo de 34cm até às 16h45min, mas permanecendo mais de 1m acima da cota de inundação.
Em Bom Princípio e Vale Real a elevação do nível das águas foi vertiginosa entre a madrugada e o meio da tarde desta segunda, com mais de 9 m de alta entre as 4h e a última atualização da estação de Bom Princípio e cerca de 7m desde as 4h em Vale Real. Apesar da elevação expressiva, o rio Caí permanece abaixo da cota de inundação em Vale Real.
O alerta é para o município de Montenegro, onde o rio Caí alcançou o patamar de inundação às 20h45min desta segunda-feira, tendo acumulado elevação de 3,43m desde o amanhecer. Na estação de Passo de Montenegro, a cota de atenção foi superada ainda pela manhã, por volta das 9h e a de alerta foi ultrapassada por volta do meio-dia.
Vale do Taquari
Um dos principais afluentes do rio Taquari, rio Carreiro, está em cota de alerta na estação de Passo Carreiro aos 5,78m. Desde as 6h desta segunda-feira, a elevação foi de mais de 4m. Na estação Linha José Júlio, o Rio das Antas, que também deságua no Taquari, está em alerta aos 14,09m. Ao longo do dia, as águas subiram cerca de 9m na estação de monitoramento.
Nos municípios de Santa Tereza e Muçum, o rio Taquari sobe com velocidade. Atualmente, as águas já superam a cota de alerta nos municípios com 13,56m e 15,41m, respectivamente, de acordo com a atualização mais recente do SGB. Nas duas estações de monitoramento a alta é expressiva, reforçando a tendência de alcançar o patamar de inundações nas próximas horas. Em Encantado e Lajeado, o nível já superou a cota de inundação aos 12,72m e 19,53m respectivamente.
Em Bom Retiro do Sul, o rio já superou a cota de alerta em 1,18m aos 13,18m. A tendência é de forte alta com possibilidade de alcançar o patamar de inundação entre a madrugada e a tarde de amanhã, se persistir a instabilidade na região. Porto Mariante e Taquari observam a elevação das águas que já estão em cota de atenção. Em Taquari, foi registrada a menor elevação da bacia. As águas começaram a subir perto das 8h com a forte chuva e acumularam alta de pouco mais de 1m.
Vale do Sinos
Na Foz do Paranhana, o Rio do Sinos já superou a cota de atenção com 4,66 m no início da tarde. Desde a madrugada, o manancial teve elevação de 2,75m na Estação de Monitoramento. Em Campo Bom, o rio também se aproxima da cota de alerta, com elevação de 1,20m desde às 2h. No município de São Leopoldo, o volume do rio superou a cota de atenção por volta das 21h15min, aos 3,53m, de acordo o SGB.
Rio Taquari ultrapassa cota de inundação em Lajeado e famílias são levadas para abrigo no Parque do Imigrante
As águas do Rio Taquari tomam as ruas de Lajeado. Em alguns pontos, já atinge metade das placas, como nas ruas João Pessoa e Rodrigo Grmano Ulzefer. O rio saiu do seu leito, com a cota de inundação ultrapassada às 20h desta segunda-feira. Segundo a última medição do Serviço Geológico do Brasil (SGB), o nível do rio atinge os 19,89 metros.
Famílias que moram nas cotas 20 e 21, em Lajeado, são retiradas preventivamente de suas casas e realocadas para o abrigo localizado no Parque do Imigrante. Até as 21h, 28 famílias já haviam sido transferidas, segundo a prefeitura. Neste momento, caminhões chegam para descarregar objetos e móveis no pavilhão 1 do abrigo.
Clarice Silva da Silva, de 55 anos, moradora da rua Carlos Sphor Filho, está no local com sua irmã e sobrinha. Ela chegou ao local no final da tarde. "Ali, desde sempre alaga. Tanto que está saindo todo mundo dali. Quando chove, de noite a gente já não dorme, e de dia fica de olho", relata. Em julho, a família ficou 13 dias abrigada.
A secretária de Desenvolvimento Social do município, Eliana Heberle, explica que as famílias começaram a ser retiradas por volta das 17h, na cota 20, parte mais baixa. "A retirada continua durante toda a madrugada, e a secretaria vem com sua equipe fazer o pré cadastro. Já nos organizamos para servir café, almoço e janta, além de outras necessidades das famílias", detalha. O espaço tem capacidade para até 800 pessoas. Mas, por enquanto, apenas o pavilhão 1 está aberto. Ao longo da noite, serão removidas famílias até a cota 24.
Morador da rua João Pessoa, Rodrigo da Silva já está preparando suas coisas para se deslocar ao Parque do Imigrante, junto com sua esposa e seus dois filhos. "A partir das 19h, a água saiu do valão e veio para a rua. Está subindo muito rápido", conta.
De acordo com o coordenador da Defesa Civil de Lajeado, Marcelo Maya, com base nos modelos do Serviço Geológico do Brasil e a Defesa Civil estadual, a expectativa é de que a cota do rio Taquari ultrapasse a cota de 25 metros nas próximas horas, até ao longo de terça-feira. "Mas é óbvio que vamos trabalhar pensando na frente. Quando essa água chegar, as pessoas não devem estar nas casas".
Equipes da prefeitura, junto com o canil municipal, também estão recolhendo animais domésticos das residências que estão sendo desocupadas no bairro Centro. Moradora da rua General Osório, Elisangela Cardoso deixou o seu cachorro, Thor, dentro da van, e aguarda um caminhão para levar o restante das suas coisas ao Parque Imigrante. "Queremos levar o que restou, porque a gente já não tem muita coisa. Essa é a segunda enchente que pego. A última pegou a metade do segundo andar, e agora não sei como vai ser. Mas é bem assustador."
A cuidadora de idosos Rosane Amaral da Silva também estava colocando seus móveis dentro do caminhão, que irá para o abrigo. "Já faz quatro anos que pego enchente. Já não temos mais quase nada em casa, e a gente tem que resgatar o que ainda resta", relata. Por conta das perdas, ela diz que pretende sair do município. "A gente não aguenta mais".
A inundação impacta, também, a rede de ensino. As aulas estão suspensas nesta terça-feira na Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Mundo Mágico (antigo Sesquinho) e na EMEI Risque e Rabisque, ambas no Centro.
Em Estrela, a prefeitura informou que a Defesa Civil municipal acompanha o avanço do nível do Taquari e está preparada para a eventual remoção de moradores ribeirinhos. Por volta das 22h desta segunda-feira, o município já contabilizava cinco vias interditadas em razão de inundação do Arroio Boa Vista.
No município, a cota de inundação é de 22m e, segundo a prefeitura, até o início da noite desta segunda-feira, não havia indícios de que o volume das águas alcançasse a cota. Caso o patamar seja superado, a gestão prevê a remoção de dez famílias residentes em áreas mais baixas.
Temporal suspende aulas em 10 escolas municipais de São Leopoldo e cancela Feira do Livro
Pelo menos 10 escolas da rede municipal de São Leopoldo terão as aulas suspensas nesta terça-feira, após o temporal que atingiu o município na última madrugada. Conforme divulgado pela Secretaria Municipal de Educação de São Leopoldo, as instituições foram orientadas a avaliar as condições estruturais, de segurança e de funcionamento para definir o atendimento aos estudantes.
Em todo o município, 22 escolas municipais confirmaram à pasta que estarão recebendo os estudantes nesta terça-feira. Outras 16 unidades ainda aguardam o restabelecimento da energia elétrica ou do fornecimento de água para definir as condições para a manutenção das aulas. Nestes casos, a decisão será comunicada pelas instituições.
Entre as 30 instituições de ensino conveniadas, 30 informaram que terão atendimento e outras 15 comunicaram a suspensão das aulas até o momento. Os dias letivos que eventualmente forem suspensos por questões de segurança, danos estruturais ou impossibilidade de funcionamento serão recuperados. As orientações para reposição da carga horária perdida serão encaminhadas pela Secretaria ao longo da semana.
Em razão dos impactos provocados pelo temporal, a programação da 40ª Feira do Livro do município, prevista para iniciar nesta segunda-feira, foi cancelada. As atividades serão retomadas a partir de quarta-feira com uma nova programação.
Escolas municipais sem atendimento:
- EMEI Acácia Mimosa
- EMEI Amor-Perfeito
- EMEI Bem-Me-Quer
- EMEB Barão do Rio Branco
- EMEB Clodomir Vianna Moog
- EMEB Dilza Flores
- EMEB Edgard Coelho
- EMEB Franz Louis Weinmann
- EMEB Prof. Maria Gusmão Britto
- EMEB Paul Harris
Escolas conveniadas sem atendimento:
EEIP Clube da Criança, EEI Juja Baby, EEI Pinguinho de Gente, ECEI Segundo Lar Turma do Sopão, ECEI CEIADI, CCEI Abrasse, EEIP Fazendo Arte, EEI Talitha Kum, EEIP Gente Inocente II, EEIP Primeiros Dentinhos, EEI Favo de Mel, EEIP Aquarela Kids Ltda., EEIP Maior Pintor do Mundo, EEIP Pequeno Aprendiz II e EEIP Universo da Criança.
Escolas que aguardam restabelecimento de serviços essenciais:
EMEI Girassol, EMEI Waldir Artur Schmidt, EMEB Arthur Ostermann, EMEB Bento Gonçalves, EMEB Borges de Medeiros, EMEB Castro Alves, EMEB Germano Sperb, EMEB José Grimberg, EMEB Maria Edila, EMEB Mario Fonseca, EMEB Olímpio Moog, EMEB Osvaldo Aranha, EMEB Paulo Couto, EMEB Rui Barbosa, EMEB Salgado Filho e EMEB Santa Marta.
Risco de inundação faz 36 famílias deixarem suas casas em Encantado com cheia do Taquari
Após o rio Taquari superar a cota de inundação, nesta segunda-feira, o município de Encantado registrava no fim da noite acolhimento de 36 famílias, totalizando mais de 80 pessoas retiradas preventivamente de áreas de risco. Deixaram suas residências moradores dos bairros Vila Moça, Barra do Jacaré, Navegantes e Lago Azul. O Taquari também obrigou a remoção de famílias em Lajeado.
A situação ocorre por conta do aumento do nível do rio. De acordo com a última medição do Serviço Geológico Brasileiro (SGB), feita às 0h30min, o rio atingia 15,02 metros, três acima do limite para inundação.
Parte dos moradores está sendo acolhida no Parque João Batista Marchese, em abrigo organizado pela Secretaria de Desenvolvimento Social do município. Há, também, famílias em um salão ao lado da Capela Nossa Senhora Aparecida. Algumas famílias estão em casas de parentes.
Moradora da rua Tupanciretã, Mara Luft precisou deixar sua casa e levar o que pôde dos seus pertences para o abrigo do João Batista. Quando ela saiu, a água já atingia o seu porão. Mara também precisou sair de casa em julho, quando as águas atingiram o município pela última vez. "Muito abalada", resume, quando questionada sobre as repetidas vezes que precisa sair de casa. Na rua dela, a água avança lentamente, e outros moradores de áreas que a inundação ainda não chegou acompanham durante a madrugada se o nível deve subir ou não.
Casal se abriga em caminhão
Na rua Agostinho Costi, o casal Adriana Bertin, de 49 anos, e Vanderlei Roque Santin, de 57, levantava, durante a madrugada, os últimos eletrodomésticos em um caminhão. Eles pretendem ficar dentro do veículo até a água baixar. "Conforme vai indo a água, a gente vai subindo", conta Adriana.
Eles não pensam em ir para um abrigo, e reclamaram que a prefeitura ainda não tinha ido até o local auxiliar o casal. Os móveis que acabaram não indo para o caminhão, como mesa e cadeiras, foram cobertos de lona e devem ficar dentro da residência.
Não é a primeira vez que o casal faz isso. "É um transtorno. É cansativo. Acontece sempre de pouco em pouco tempo. Depois tem que lavar tudo, deixar secar", relata Adriana.
Ponte interditada
A ponte sobre o rio Guaporé, entre Encantado e Muçum, na ERS 129, foi interditada para a travessia de veículos, em razão da elevação dos níveis dos rios Guaporé e Taquari. O bloqueio foi feito na noite desta segunda-feira. É permitida a passagem somente de ambulâncias e pedestres. No local, há equipes da Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR), responsável pela rodovia.

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