Don Corleone teria inveja do STF - Folha de S.Paulo
• Gilmar fala em ética da máfia durante sessão degradante que termina sem decisão sobre investigação de Moraes, alvo de graves suspeitas
• Após abafamento do caso Toffoli, Supremo repete padrão antirrepublicano que fortalece o espírito de corpo diante do escrutínio sobre integrantes da corte
No filme "O Poderoso Chefão" (1972), Don Vito Corleone reúne os chefes das famílias mafiosas para restaurar a ordem depois de uma guerra. O objetivo não é a punição, mas proteger a organização e impedir que disputas entre os seus destruam o grupo.
É difícil não lembrar da cena depois do espetáculo grotesco oferecido pelo STF na terça (15). A corte deveria responder a uma pergunta prosaica: há razões para investigar Alexandre de Moraes por suas relações com Daniel Vorcaro? Tratava-se apenas de autorizar apuração com base num catatau de graves indícios.
Vista geral dos ministros da Corte durante audiência sobre a investigação de supostas ligações entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro -Mas nem isso o plenário fez. Moraes —que votou em questão de ordem num caso que lhe afeta—, Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin sequestraram a sessão com acusações, questões processuais e confrontos que terminaram por impedir a decisão. Dino pediu vista de modo desesperado, mesmo já tendo votado sobre a questão. Assim, parece que tudo acabará em pizza.
Caindo em contradição, Gilmar resumiu o episódio. Acusou André Mendonça de praticar um "jogo de omertà, de máfia". Depois, disse que "mesmo o colega que esteja eventualmente envolvido" não poderia ser submetido àquele "vexame": "Até a máfia tem ética". Primeiro, a omertà aparece como vício; em seguida, o código mafioso surge como regra de decência no trato com um colega sobre o qual pairam suspeitas.
De tal formulação infere-se que a ética da máfia —fundada na lealdade ao grupo, na proteção dos integrantes e em conchavos para resolver lutas internas— deveria ser adotada quando o STF se vê diante de escrutínio externo. Um acinte ao espírito republicano.
Não foi a primeira vez. Em fevereiro, quando um relatório da PF mostrou conexões de Dias Toffoli com o Master, os ministros se reuniram a portas fechadas. Toffoli deixou a relatoria, mas não foi declarado suspeito e ainda recebeu apoio público dos colegas.
Opacidade, espírito de corpo e resistência a investigações formam padrão intolerável numa instituição que tem o dever de demonstrar, com palavras e atos, que ninguém está acima da lei.
Don Corleone invejaria o STF.
Folha de S. Paulo


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