Trump, o átomo e a diplomacia
A política nuclear internacional corre o risco de ser percebida como seletiva, submetida às conveniências estratégicas de cada momento
Jurandir Soares
A política externa de Donald Trump para o Oriente Médio volta a colocar a questão nuclear no centro do debate internacional. Depois de justificar a ofensiva militar contra o Irã com o argumento de que o regime dos aiatolás poderia transformar seu programa nuclear, oficialmente civil, em um projeto para produzir armas atômicas, o presidente norte-americano agora admite apoiar um programa nuclear para a Arábia Saudita, desde que Riad aceite aderir aos Acordos de Abrahão.
A proposta desperta dúvidas. Se Washington considerava inaceitável o risco de o Irã dominar o ciclo do combustível nuclear, por que esse mesmo risco seria aceitável no caso saudita? Embora os contextos políticos sejam distintos, a tecnologia nuclear civil pode, em determinadas circunstâncias, abrir caminho para aplicações militares, especialmente quando um país domina etapas sensíveis do enriquecimento de urânio.
CONTRASTE
O principal argumento utilizado por Trump para confrontar Teerã foi o de que o regime iraniano escondia ambições militares por trás de um programa apresentado como pacífico. Israel compartilha dessa avaliação há décadas e considera que um Irã nuclear alteraria profundamente o equilíbrio estratégico da região.
Ao defender um programa semelhante para a Arábia Saudita, entretanto, Washington sustenta que Riad seria um parceiro confiável e alinhado ao Ocidente. A diferença de tratamento alimenta críticas de que a política nuclear norte-americana é determinada menos por critérios técnicos e mais por interesses geopolíticos.
ACORDOS
A proposta também está vinculada aos Acordos de Abrahão, iniciativa lançada durante o primeiro mandato de Trump que normalizou as relações diplomáticas entre Israel, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos e Sudão. A entrada da Arábia Saudita representaria o maior avanço diplomático desde o início desse processo.
Para Israel, o reconhecimento saudita teria enorme significado político, econômico e estratégico, aproximando duas das maiores potências do Oriente Médio diante de desafios comuns, especialmente a contenção da influência iraniana. Em troca, Riad busca garantias de segurança e acesso a tecnologias avançadas, incluindo a área nuclear. Além disto, há uma outra questão. Arábia Saudita estava por assinar o acordo com Israel quando aconteceu o ataque do Hamas ao território israelense, em 7 de outubro, de 2023. O subsequente extermínio de cerca de 70 mil palestinos em Gaza, fez com que Riad condicionasse a assinatura à uma solução para o povo palestino. E esta solução, como se observa pelos acontecimentos atuais, está muito longe de acontecer.
RISCOS
Outro aspecto, apesar das garantias oferecidas pelos Estados Unidos, especialistas alertam que governos mudam, alianças se transformam e interesses estratégicos podem evoluir. Um programa nuclear civil exige fiscalização permanente da Agência Internacional de Energia Atômica, mas nenhum mecanismo elimina completamente a possibilidade de futura militarização.
Além disso, caso a Arábia Saudita adquira domínio sobre tecnologias nucleares sensíveis, outros países da região poderão reivindicar tratamento semelhante. O resultado pode ser uma corrida tecnológica envolvendo potências como Turquia e Egito, além de outras monarquias do Golfo Pérsico como Emirados Árabes Unidos, Catar, etc, ampliando a instabilidade em uma das regiões mais sensíveis do planeta.
EQUILÍBRIO
Trump aposta que a combinação entre diplomacia, acordos de normalização e cooperação estratégica fortalecerá o bloco formado por Estados Unidos, Israel e seus aliados árabes, isolando o Irã e reduzindo tensões regionais. Trata-se de uma visão baseada na construção de alianças capazes de reorganizar o mapa político do Oriente Médio.
Entretanto, permanece uma questão inevitável. Se o temor de que um programa nuclear civil possa resultar em armas justificou a pressão máxima e até ações militares contra o Irã, o mesmo princípio deveria valer para qualquer outro país. Caso contrário, a política nuclear internacional corre o risco de ser percebida como seletiva, submetida às conveniências estratégicas de cada momento, e não a um critério universal de não proliferação.
Correio do Povo
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