Bab el-Mandeb: o novo risco
Para a Arábia Saudita, um bloqueio de Bab el-Mandeb significaria perder uma importante rota de exportação
Jurandir Soares
A possibilidade de os rebeldes Houthis ampliarem suas ações militares no Estreito de Bab el-Mandeb, por incentivo do Irã, preocupa governos, armadores e o mercado internacional de energia. A estreita passagem marítima, localizada entre o Iêmen, Djibuti e Eritreia, é uma das principais rotas do comércio global, ligando o Mar Vermelho, por um lado, ao Mar Mediterrâneo, e, por outro, ao Golfo de Áden e ao Oceano Índico. Qualquer interrupção no tráfego de navios afeta diretamente o abastecimento mundial.
Além de comprometer a navegação comercial, um bloqueio do estreito reduziria uma importante alternativa utilizada pela Arábia Saudita para escoar parte de sua produção de petróleo rumo à Europa e outros mercados. O impacto seria sentido muito além do Oriente Médio, pressionando preços, elevando custos logísticos e aumentando as incertezas sobre o crescimento da economia global.
Estratégia
Bab el-Mandeb é uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta. Milhões de barris de petróleo e derivados atravessam diariamente essa passagem, juntamente com milhares de contêineres carregados de mercadorias. O estreito também representa uma alternativa importante ao Golfo Pérsico para produtores da região, especialmente em momentos de tensão militar.
Caso os Houthis consigam dificultar ou impedir a circulação de navios, companhias marítimas poderão ser obrigadas a desviar suas embarcações pelo Cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África. A mudança aumenta significativamente o tempo de viagem, o consumo de combustível, os custos de seguro e o preço final das cargas.
Petróleo
Para a Arábia Saudita, um bloqueio de Bab el-Mandeb significaria perder uma importante rota de exportação. Embora o país disponha de infraestrutura terrestre e de outros terminais, o estreito continua sendo uma via estratégica para reduzir riscos e garantir o fornecimento aos mercados internacionais.
Com menor oferta disponível ou maiores dificuldades de transporte, o preço internacional do petróleo tende a subir. Esse movimento afeta toda a cadeia produtiva, desde combustíveis até produtos industrializados e alimentos, já que o transporte representa parcela significativa dos custos da economia mundial.
Economia
O aumento das cotações do petróleo costuma provocar uma reação em cadeia. Gasolina, diesel, querosene de aviação e fretes ficam mais caros, pressionando os índices de inflação em diversos países. Bancos centrais podem ser levados a manter juros elevados por mais tempo, dificultando investimentos e reduzindo o ritmo de crescimento econômico.
O consumidor também sente rapidamente os efeitos. O encarecimento do transporte reflete nos preços dos alimentos, medicamentos, roupas e bens de consumo, reduzindo o poder de compra das famílias e elevando o custo de vida, especialmente nas economias mais dependentes de energia importada.
Conflito
Os Houthis intensificam sua hostilidade contra a Arábia Saudita por razões que vão além da rivalidade regional entre Riad e Teerã. O grupo, apoiado política e militarmente pelo Irã, combate há anos o governo reconhecido internacionalmente do Iêmen e enfrenta uma coalizão liderada pelos sauditas, que apoia forças iemenitas contrárias aos rebeldes.
Nesse contexto, ataques contra rotas marítimas e instalações ligadas aos interesses sauditas fazem parte da estratégia dos Houthis para pressionar seus adversários e ampliar o custo do envolvimento da Arábia Saudita na guerra civil iemenita. Se essas ações evoluírem para um bloqueio efetivo de Bab el-Mandeb, a crise deixará de ser apenas regional para atingir diretamente o comércio internacional, a segurança energética e a estabilidade da economia mundial.
Assim, se já temos um enorme problema com o fechamento do Estreito de Ormuz, este problema se duplica com Bab el-Mandeb.
Correio do Povo
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