Paradoxo do ar limpo: queda da poluição por aerossol acelera aquecimento global e intriga cientistas

 


Um elemento antes tratado como secundário nos estudos do clima agora está no centro do debate: os aerossóis. Essas partículas sólidas e líquidas em suspensão no ar refletem a radiação solar e ajudam a esfriar o planeta. Só que elas estão diminuindo - e isso está acelerando o aquecimento global.

A redução é um paradoxo do combate à poluição. A maior fonte de aerossóis é a mesma que emite CO2: a queima de combustíveis fósseis. Enquanto o gás carbônico aquece o planeta como um todo, os aerossóis resfriam as regiões que mais os emitem. Só que o efeito de aquecimento é maior. Segundo o IPCC, painel da ONU, para cada 3°C que o CO2 esquenta o mundo, os aerossóis resfriam 1°C. No saldo, a temperatura sobe.

O combate aos aerossóis é urgente por saúde pública. O CO2 não é tóxico, mas o material particulado de carros e indústrias é extremamente nocivo ao sistema respiratório. Filtros conseguem barrar o aerossol e deixar o CO2 passar.

"O que está acontecendo é que, devido a programas de redução de emissões de aerossóis para conter a poluição de ar urbana, o efeito de resfriamento está diminuindo", explica o físico Paulo Artaxo, da USP. "Há uma hipótese de que o aquecimento mais acelerado que a gente verificou em 2023, 2024 e 2025 possa ter sido em razão da redução dos aerossóis."

Não é só nas cidades. Nos últimos dez anos, a Organização Marítima Global endureceu as regras sobre enxofre no combustível de navios, reduzindo sulfatos sobre os oceanos.

Por que é tão difícil prever?

Um problema é que o efeito resfriador dos aerossóis é local, diferente do efeito global do CO2, e nem todos os modelos climáticos consideram isso.

Estudo deste ano da brasileira Estela Monteiro, do centro Geomar, na Alemanha, mostrou que a localização importa.

"Não é só uma questão de quantidade global de aerossol, mas de onde esse aerossol vai estar, seja nos oceanos ou nos continentes", explica. Hoje a concentração é mais forte sobre China e Índia. No final do século, deve ficar mais forte perto do Saara. Com a despoluição de chineses e indianos mais rápida que a de africanos, a aceleração do aquecimento pode mudar de endereço.

Outro fator é a relação com as nuvens. Nuvens normalmente resfriam a Terra porque refletem radiação.

"Acontece que nós estamos vendo uma redução pequena, de cerca de 1%, na cobertura de nuvens no planeta como um todo, porque a redução dos aerossóis implica que existem menos núcleos de condensação de nuvens", diz Artaxo.

E a interação é complexa. Estudo de abril do físico Guy Dagan, da Universidade Hebraica de Jerusalém, publicado na Nature Communications, sugere que aerossóis podem aquecer ou resfriar dependendo do ritmo da emissão. Quando a emissão aumenta em um lugar, nos primeiros dois dias a atmosfera aquece, por formação de nuvens altas que retêm calor. Depois de semanas, o sistema se ajusta e o efeito vira resfriamento.

Geoengenharia com aerossóis

O tema também aparece na geoengenharia. Uma proposta é a MCB, clareamento de nuvens marinhas: capturar água do mar, extrair sal e borrifá-lo como aerossol para resfriar o ar sobre os oceanos.

Artaxo conta que trabalha com cientistas dos EUA para simular outra estratégia: colocar partículas na estratosfera, em grandes altitudes.

Como os efeitos colaterais ainda são mal compreendidos, o IPCC avançou pouco nesse debate.

Para os cientistas, apesar da incerteza, a conclusão não muda.

"Não adianta a gente reclamar que a luta contra a poluição do ar, que é uma questão de saúde pública, vai acelerar o aquecimento global", diz Artaxo. "Já está muito claro que ou a gente reduz as emissões de gases do efeito estufa o mais rápido possível, ou nós vamos fritar o planeta."

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