Crise entre Lula e Milei tem gesto diplomático inédito, mas não deve afetar comércio, avaliam analistas

 


A relação entre o Brasil e a Argentina viveu um novo episódio de tensão após as declarações do presidente argentino Javier Milei durante a convenção do PL, no sábado, em que Flávio Bolsonaro confirmou candidatura à Presidência. Pela primeira vez desde a posse de Milei, a crise ganhou contorno institucional, com o governo brasileiro convocando o embaixador em Buenos Aires, Julio Bitelli, para prestar esclarecimentos em Brasília.

Por diferenças ideológicas, a relação entre Lula e Milei nunca foi de proximidade, mas especialistas avaliam que o atrito político não deve chegar às relações comerciais.

"O Brasil e a Argentina têm uma relação umbilicada comercialmente. A Argentina é um dos principais parceiros comerciais do Brasil. Por outro lado, o Brasil é o principal parceiro da Argentina. De 12% a 15% de toda a exportação argentina vem para o Brasil", explica Felipe Dalcin, diretor de pesquisa do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (Isape) e professor de Relações Internacionais na Unochapecó.

Para o cientista político e professor da UFRGS Eduardo Svartman, o momento lembra o período de Alberto Fernández e Jair Bolsonaro.

"No plano político, houve um esfriamento semelhante ao ocorrido quando os mandatos de Fernández e Bolsonaro coincidiram. Nos planos comercial e econômico, de modo geral, não houve mudança significativa, o que pode ser atestado pela assinatura do acordo Mercosul-UE", avalia.

A origem do atrito

Para Dalcin, há um ressentimento desde a eleição argentina de 2023, quando o governo brasileiro enviou marqueteiros para auxiliar a campanha de Sérgio Massa, adversário de Milei.

"Essa crise é uma briga engarrafada desde as últimas eleições argentinas. O Milei pretende fazer a mesma coisa nas eleições brasileiras de 2026. Há uma rusga ideológica, mas não vejo isso com alcance longo", diz.

Segundo ele, empresários dos dois países atuam para que a disputa política não contamine a economia. "Seria terrível para ambas as nações. O caminho deve ser mostrar descontentamento e esperar as coisas esfriarem."

Eleições no radar

Na avaliação de Svartman, o Brasil deve manter um discurso firme contra interferências externas, já que Milei veio ao Brasil participar de ato eleitoral. Ele vê nas ofensas uma tentativa de gerar engajamento político.

"Me parece que as ofensas foram calibradas para gerar comoção. A oficialização de uma candidatura que vem diminuindo nas pesquisas produz manchetes que contornam essa situação desconfortável", afirma.

Como escalou a crise

Durante a convenção do PL, Milei chamou o ministro do STF Alexandre de Moraes de "lixo careca" e, sem citar Lula nominalmente, chamou o presidente brasileiro de "presidiário", "ladrão" e "lixo socialista".

A reação veio no mesmo dia. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, classificou as falas como "ríspidas, grosseiras e inaceitáveis". O ministro da Fazenda, Dario Durigan, chamou Milei de "palhaço".

No domingo, o Brasil convocou o embaixador Julio Bitelli para consultas, em gesto de protesto diplomático. Segundo o jornal La Nación, o governo argentino não pretende pedir desculpas. Na segunda, Lula ironizou ao ser questionado: "Quem é esse cara?".

Nesta terça-feira, o porta-voz do governo argentino afirmou que as diferenças são ideológicas e não devem afetar o comércio.

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