A guerra no Irã e a China
Em aproximadamente uma década, a China terá suplantado os EUA como maior potência econômica do mundo
Jurandir Soares
A guerra do Irã segue afrontando as normas da diplomacia e da busca de entendimento entre as partes envolvidas. Pois um dia se anuncia um acordo e, no outro, um bombardeio. E, quando uma parte diz que chegaram a um cessar-fogo, a outra desmente. Os países mediadores estão fazendo um esforço hercúleo para acabar com o conflito e, quando parece que obtiveram êxito, surge uma nova ação beligerante por parte de um dos lados. Em meio à intransigência do Irã quanto à navegação pelo Estreito de Ormuz, foi criada outra alternativa: a passagem dos navios, não ladeando a costa do Irã, mas pelo outro lado, pela costa de Omã. Afinal, o estreito tem 38 quilômetros de largura e calado que permite a navegação em toda a sua largura.
REAÇÃO
O que se viu foi uma indignação por parte dos iranianos com essa alternativa, a ponto de bombardear navios mercantes que resolveram usar a nova rota. Lógico que é uma decisão que contraria as normas internacionais de navegação. Aliás, o próprio bloqueio de Ormuz já contraria essas normas. Porém, a ação do Irã mereceu uma reação dos Estados Unidos e o que se teve na sequência foram mais quatro dias de combates. Até ser anunciado mais um frágil cessar-fogo. E sequer entra em vigor o famoso protocolo – ou Memorando de Entendimento – assinado pelos presidentes Donald Trump e Masoud Pezeshkian, o qual estabelece um cessar-fogo permanente e o fim das hostilidades. O acordo-quadro de 14 pontos foca na desescalada imediata e adia as questões mais complexas sobre o programa nuclear iraniano para negociações nos 60 dias seguintes.
TERMOS
O cumprimento do Memorando tem sido uma miragem do deserto do Oriente Médio. Senão, vejamos os seus principais termos. 1) Fim imediato e permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo o sul do Líbano. Os Estados Unidos se comprometeram a não atacar o Irã, e vice-versa. 2) Retirada do bloqueio naval americano e suspensão da cobrança de pedágio pelo Irã no Estreito de Ormuz, garantindo a passagem segura e gratuita de navios comerciais durante 60 dias. 3) Suspensão das sanções americanas sobre a exportação de petróleo iraniano. 4) O Irã reiterou que não buscará desenvolver armas nucleares e concordou em discutir o destino de seus estoques de materiais enriquecidos sob supervisão internacional. Assunto empurrado para mais adiante. 5) Estabelecimento de um fundo de 300 bilhões de dólares para a reconstrução e o desenvolvimento econômico iraniano.
ATAQUES
Porém, em vez de serem respeitados os termos do acordo, o que se tem são os confrontos dos últimos dias, acrescidos de ataques do Irã aos vizinhos Kuwait e Bahrein. Ou seja, países que mantêm bases militares dos Estados Unidos. Ou seja, para mostrar aos aliados norte-americanos que os EUA não lhes dão proteção. Donald Trump parece ter cometido no Irã o mesmo erro que Vladimir Putin cometeu na Ucrânia. Ou seja, meter-se numa aventura bélica achando que daria uma lição no adversário e resolveria tudo em poucos dias. Ora, esta guerra do Golfo Pérsico já se arrasta desde 28 de janeiro e os EUA só têm feito concessões – inclusive com fundo bilionário para reconstrução do Irã – e, mesmo assim, o conflito não termina.
FRAGILIDADE
Assim, Trump acabou demonstrando uma inesperada fragilidade norte-americana. E, com isso, levantando uma questão: a China – hoje o mais poderoso inimigo dos EUA e grande aliado do Irã – não poderia se valer da situação para um enfrentamento bélico com Washington? A resposta é não. O único enfrentamento que a China vislumbra é com Taiwan. E, nesse caso, está cada vez mais remota a possibilidade de os EUA saírem em defesa da ilha. Na realidade, a China não quer derrotar os EUA militarmente. Mas, sim, economicamente. O negócio da China é avançar pelo mundo com sua nova Rota da Seda, projeto pelo qual financia portos, aeroportos, rodovias e ferrovias pelas mais diversas partes do mundo, ampliando seus tentáculos de dominação econômica. Tudo dentro de um projeto que prevê que, em aproximadamente uma década, a China terá suplantado os EUA como maior potência econômica do mundo.
Correio do Povo
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