Trump entrega Ucrânia à Rússia
Para Kiev, a mensagem é devastadora: seu principal aliado parece mais preocupado com o preço dos combustíveis do que com o destino de um país em guerra
Jurandir Soares
O presidente Donald Trump acaba de dar mais um passo na direção de uma política que ameaça transformar a Ucrânia em moeda de troca dos interesses norte-americanos. Ao negociar com Vladimir Putin o fornecimento de milhões de toneladas de diesel russo e aliviar sanções até abril de 2027, Trump enfraquece a pressão econômica sobre Moscou justamente quando deveria exigir contrapartidas para encerrar a guerra. O negócio, anunciado em 9 de outubro, prevê inicialmente centenas de milhares de toneladas de combustível, com entregas posteriores que podem superar 4,8 milhões de toneladas, segundo dados da Axios.
A gravidade não está apenas no petróleo, mas no contexto. Enquanto representantes ucranianos e europeus se reuniam com emissários norte-americanos em Miami para discutir a paz, Trump acertava com Putin uma iniciativa que favorece a economia russa. A diplomacia, que deveria buscar o fim da invasão e garantias de segurança para Kiev, acabou ofuscada por um acordo comercial.
Para a Ucrânia, a mensagem é devastadora: seu principal aliado parece mais preocupado com o preço dos combustíveis do que com o destino de um país atacado.
NEGÓCIOS
Trump justifica o acordo pela necessidade de ampliar a oferta mundial de diesel e reduzir os preços nos Estados Unidos, às vésperas das eleições legislativas de novembro. O problema é que o benefício econômico prometido permanece incerto, enquanto a Rússia ganha uma oportunidade de recuperar receitas em meio às dificuldades provocadas pela guerra e pelas sanções. Analistas econômicos ouvidos pela AFP questionam se o volume anunciado será suficiente para aliviar de maneira significativa o mercado internacional.
PRESSÃO
O acordo torna-se ainda mais controverso diante das informações de que Washington ameaça suspender o compartilhamento de inteligência com Kiev caso os ucranianos continuem atacando refinarias russas. Na prática, os Estados Unidos pressionam o país invadido a restringir seus meios de defesa, sem exigir de Moscou uma renúncia equivalente aos bombardeios contra a infraestrutura ucraniana. Zelensky classificou a decisão americana como uma demonstração de fraqueza de parceiros que deveriam ser fortes. Disse ainda que Putin retribuirá o presente com mais terror.
DESTRUIÇÃO
No dia seguinte à divulgação das medidas, Trump tentou dourar a pílula. Anunciou que havia feito uma mediação, concluindo que Rússia e Ucrânia parariam com os ataques às instalações de energia de maneira recíproca. Só que Moscou disse que não sabia de nada.
Enquanto se fala em paz, a guerra continua a devastar cidades e a população civil. Segundo a Axios, Odessa enfrenta falta de energia e água, e ataques russos atingem áreas cada vez mais distantes das linhas de combate. A utilização de drones e armamentos de maior alcance amplia a insegurança. A Ucrânia, por sua vez, responde com ataques a refinarias, instalações industriais e portos russos, numa tentativa de reduzir a capacidade de financiamento e abastecimento militar do adversário. O resultado é uma escalada que torna cada vez mais distante qualquer perspectiva concreta de cessar-fogo.
Os relatos de avanços russos em diferentes frentes, inclusive na região de Kharkiv e em áreas do Donbas, reforçam o quadro de pressão militar sobre Kiev.
RENDIÇÃO
Trump pode alegar pragmatismo, interesses comerciais e preocupação com os preços da energia. Mas a paz não se constrói premiando uma potência invasora enquanto se limita a capacidade de resistência do país atacado. Se Washington aliviar sanções, restringir informações militares e abandonar a exigência de concessões recíprocas, estará enfraquecendo Kiev e fortalecendo Putin. Entregar a Ucrânia à Rússia talvez não seja o objetivo declarado de Trump. Mas é o risco concreto de sua política – e uma derrota moral e estratégica para os Estados Unidos.
Correio do Povo
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