Gre-Nal 455 histórico: Grêmio e Inter se enfrentam na Arena pressionados contra o rebaixamento
Nunca na história do clássico a Dupla Gre-Nal duelou na condição atual, com a tensão sobre o futuro dos dois no Brasileirão.
Em outras ocasiões, muito mais do que a grandeza de ambos sugere, Inter e Grêmio passaram dificuldades. Os dois já foram rebaixados, atravessaram fases ruins, enfrentaram crises e viram a torcida perder a motivação. Também já precisaram desesperadamente dos três pontos em um Gre-Nal. Mas nunca os dois estiveram na zona de rebaixamento ao mesmo tempo, lutando contra a queda para a Série B, como ocorrerá neste domingo, na Arena, pela 30ª rodada do Campeonato Brasileiro.
Quando entrarem em campo para o Gre-Nal 455, os dois maiores clubes gaúchos estarão entre os últimos colocados. Uma vitória pode até tirar o vencedor do Z-4, dependendo de resultados paralelos. O empate manterá ambos na zona de rebaixamento. Além dos três pontos e da rivalidade, estará em jogo um alívio para quem vencer e uma dose extra de preocupação para quem sair derrotado.
O Inter, que vem de vitória por 2 a 1 sobre o Corinthians na quarta-feira, no Beira-Rio, encara o clássico como uma "decisão". Foi o que afirmou o técnico Eduardo Baptista, embora tenha admitido que um empate fora de casa, diante de adversário direto, não seria ruim. "É uma decisão, um clássico, e vamos buscar a vitória sempre. Mas, claro, fora de casa, em confronto direto, não deu para ganhar, o empate não é ruim", afirmou.
O Grêmio tem um ponto a menos que o rival e chega ainda mais pressionado. Na rodada passada, empatou por 1 a 1 com o Remo e ainda não venceu sob o comando de Renato Portaluppi. Depois do empate no Pará, ele reclamou da herança recebida de Luis Castro. "É muita coisa para corrigir e pouco tempo", afirmou.
Assim, o Gre-Nal reúne ingredientes pouco habituais. Inter e Grêmio entram pressionados, com problemas a resolver e o fantasma da Série B cada vez mais presente. Um deles poderá terminar o domingo respirando melhor. O outro terá aprofundada a sua crise. Para dois clubes acostumados a olhar para objetivos maiores, desta vez o clássico significa apenas a possibilidade de enxergar a luz no fim do túnel - considerando que não seja o trem.
CAMPEONATO BRASILEIRO - 30ª RODADA
Grêmio: Weverton; Diego Caito, Wallace, Kannemann e Marlon; Noriega, Danilo Barbosa (Gustavo Martins) e Villasanti; Pavón, Amuzu e Carlos Vinícius. Técnico: Renato Portaluppi.
Inter: Anthoni; Bruno Gomes, Mercado e Juninho; Aguirre (Félix Torres), Villagra, Thiago Maia e Bernabei; Alan Patrick, Alerrandro e Vitinho. Técnico: Eduardo Baptista.
Arbitragem: Ramon Abatti Abel (SC), auxiliado por Thiaggo Americano Labes (SC) e Michael Stanislau (RS)
VAR: Marco Aurelio Augusto Fazekas Ferreira (MG). Local: Arena do Grêmio. Início: 17h30min.
A solidão da presidência: o preço físico e mental de comandar Grêmio e Inter
Submetidos a pressão extraordinária, os principais dirigentes da Dupla Gre-Nal convivem com uma rotina de cobranças, responsabilidades e decisões que não termina com o apito final. O desgaste acumulado pode ultrapassar o limite e provocar consequências para a saúde física e mental.
Na última segunda-feira de setembro, mesmo sem rodada por causa da Data Fifa, dois dirigentes quase se encontraram na emergência de um hospital de Porto Alegre. Chegaram com horas de diferença, com excesso de estresse, pressão alta, dores e cansaço. Fizeram exames, receberam recomendação de descanso e novos medicamentos.
Outra cena se repete: perto da meia-noite, a casa está silenciosa e o dirigente tenta descansar depois de mais um dia de trabalho. A esposa e os filhos dormem. Ele vai ao banheiro e toma o remédio para dormir. Sabe que não terá mais de cinco horas de sono. É assim desde que assumiu o cargo.
Outro dirigente, usando um incômodo colar cervical por problema na coluna agravado pela carga de trabalho, percorre o estádio examinando obras. Tem semblante cansado, dificuldade para caminhar e parece ter envelhecido dez anos desde que assumiu a presidência. Não dorme, sente dores e viu a saúde fragilizar-se.
Todas as cenas são reais e foram relatadas pelos mais importantes dirigentes de Grêmio e Inter, de hoje e do passado, ao Correio do Povo, em conversas gravadas ou em off, sob anonimato.
Embora os clubes tenham Conselho de Gestão e executivos contratados, a responsabilidade maior recai sobre o presidente. Isso traz isolamento. Mesmo com decisões divididas, o peso do sucesso ou fracasso é associado a quem ocupa o cargo mais alto.
"As decisões, particularmente para quem está no comando, acabam trazendo uma sensação de solidão. A responsabilidade, no fim das contas, é de quem precisa tomar a decisão, e isso faz com que a pessoa carregue um peso maior", afirma o psiquiatra e médico do esporte Luis Fernando Varela Brenes.
"A gente acaba adaptando a agenda ao clube e não consegue desconectar. É impossível uma pessoa comprometida estar num momento difícil e vivendo socialmente de forma tranquila. A gente sofre junto e se fecha para trabalhar mais e se expor menos", explica o presidente do Inter, Alessandro Barcellos.
"A cabeça nunca descansa porque um clube como o Grêmio é muito grande e tem uma infinidade de decisões. Por mais que a gente divida, o presidente é o presidente", confirma Odorico Roman, que assumiu a presidência do Grêmio em janeiro.
Para quem está na arquibancada, uma derrota significa irritação ou tristeza. Para quem comanda, o apito final inicia outra jornada de telefonemas, mensagens e decisões.
"A resposta ao estresse é muito particular. Temos manifestações como sudorese, palpitação, agitação. O problema é quando a pessoa está submetida a carga maior por longo período, que pode se cronificar e provocar doença", explica Brenes.
"Longos períodos de estresse transformam a bioquímica cerebral. O corpo busca se adaptar ao perigo, e um estresse constante é uma situação de perigo", avalia.
"Existe uma solidão do cargo. Isso não é só na presidência de Grêmio, mas em todos os grandes clubes. Tem a ver com poder e responsabilidade", confirma Alberto Guerra, presidente do Grêmio entre 2023 e 2025.
"A gente não desliga nunca. Porque o clube vai além do campo", reforça Barcellos, que ocupa o cargo desde 2021 e deixa o Inter em dezembro.
Perigos para a saúde
Para especialistas, o problema não é a existência da pressão, mas como ela é absorvida. "Quando a pessoa começa a perder o sono, a se isolar, quando existe mudança em relação ao que era antes, é preciso prestar atenção", diz Brenes.
"Seria importante o dirigente manter um espaço para a saúde mental dele. Se o acúmulo persistir, ele vai adoecer", concorda o psicólogo Marcio Geller Marques.
Há ainda a dificuldade de demonstrar fragilidade. Vários dirigentes aceitaram falar, mas em off, para não parecerem "fracos". Enquanto jogadores têm cuidados psicológicos, dirigentes lidam com a rotina de forma solitária.
Redes sociais aumentam a vigília
"Antigamente havia menos veículos, apenas rádio, jornal e TV. Hoje, com canais e influencers, são muito mais horas de Grêmio, de Inter nas redes. Esses espaços precisam ser preenchidos", avalia Roman.
"São levantadas hipóteses que imediatamente são transformadas em fatos e os dirigentes são criticados por coisas irreais. As redes amplificaram muito essas críticas", continua.
"Quando o time ganha, é um alívio de horas. Logo depois já é preciso pensar no próximo jogo, nas contas. O negócio é surreal", concorda Barcellos.
A casa também entra no jogo
"Eu tenho mãe, pai, avó viva, irmãos e eles têm que aguentar tudo junto, mesmo sem responsabilidade. Dividir com eles esse peso aumenta a nossa carga", avalia Guerra.
"Alguns amigos ficam pelo caminho. Convívio social, peladas, churrascos, você acaba evitando porque vira centro das atenções. Fica uma relação mais caseira", afirma Barcellos.
"A família sofre. O tempo dedicado praticamente some. A família passa a viver o dia a dia do clube. Ela fica feliz quando vence e muito abatida quando não vence", completa.
Resultado ameniza, mas não acaba
Uma vitória muda o ambiente por horas. Mas é um alívio curto. "Nunca mais assisti a um jogo como torcedor. O jogo é visto sempre com preocupação das consequências para o clube", diz Barcellos.
"O estresse é muito grande, principalmente quando as coisas no campo não acontecem. Fiz um check-up recente que deu alteração de pressão. Não é fácil", diz Odorico.
O dia seguinte ao poder
O fim do mandato permite olhar com distância. Alguns enfrentam um vazio. Alberto Guerra conta que, depois de deixar a presidência em dezembro passado, isolou-se por seis meses. "Fui para a praia por escolha própria. Fiquei os dois primeiros meses na praia, depois fui para Florianópolis. Só retomei de fato a vida no segundo semestre".
"Qualquer outro profissional do clube, inclusive jogador, desliga o botão, pega um avião, vai embora e descansa. Agora, a gente não tem como. A gente fica grudado aqui para o resto da vida", finaliza Barcellos.
Quem vencer o Gre-Nal se livra do rebaixamento?
Grêmio ou Inter, quem ganhar o Gre-Nal deste domingo não estará garantido na Série A de 2027. Porém, quem perder ficará muito perto do rebaixamento.
Caso o Grêmio tivesse vencido o Remo na quarta-feira - empatou em 1 a 1 - o empate no clássico não seria uma tragédia para nenhum dos times. O Inter venceu o Corinthians por 2 a 1.
Como deixou dois pontos no Pará, o Grêmio estacionou nos 30 e caiu uma posição, para 18º. Com os três pontos no Beira-Rio, o Inter passou para 31, em 17º. Ambos seguem na zona de rebaixamento.
Por jogar em casa, diante da torcida, e pelo risco de queda que, segundo o Infobola, está em 57%, o Grêmio não pode empatar.
Para sair da situação dramática, Grêmio e Inter precisam de resultados paralelos. É rodada para secar o Mirassol, que encara o Bahia na Fonte Nova; o Botafogo, que enfrenta o Coritiba no Couto Pereira; o Corinthians, que faz clássico diante do segundo colocado Palmeiras; e o Vasco da Gama, que recebe o Remo.
Com 32 pontos, o Corinthians começa a rodada como o primeiro time fora da zona de rebaixamento. Tem 36,7% de aproveitamento. No final, isso aponta para 42 pontos.
Segundo a equipe de matemática da UFMG, o risco de rebaixamento de quem fizer 42 pontos é de 46%. Com 43 cai para 21%. No momento, o risco com 44 pontos é de 7%.
O Grêmio como mandante tem sete vitórias, quatro empates e três derrotas, aproveitamento de 59,5%. Perdeu para Flamengo, Corinthians e Vasco.
O Internacional como visitante tem três vitórias, cinco empates e seis derrotas, aproveitamento de 33,3%. Ganhou de Santos, Corinthians e Chapecoense.
O Brasileirão tem dois virtualmente garantidos na Segundona, Chapecoense e Remo. Em tese, Botafogo, Vasco, Mirassol, Corinthians, Inter e Grêmio lutam para não ficar com as outras duas vagas.


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