Oriente Médio pós 7 de outubro
O pior atentado da história israelense deixou cerca de 1,2 mil mortos. A Faixa de Gaza foi reduzida a escombros e 74 mil palestinos morreram
Jurandir Soares
O ataque do Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023, desencadeou uma transformação profunda no Oriente Médio. O pior atentado da história israelense, com altos requintes de crueldade e deixando cerca de 1,2 mil mortos e 251 pessoas sequestradas, das quais 44 morreram no cativeiro. Na sequência, uma resposta militar devastadora. A Faixa de Gaza foi reduzida a escombros, dezenas de milhares de palestinos morreram e uma população inteira passou a conviver com a fome, o deslocamento e a destruição. Segundo números divulgados pelas autoridades palestinas e citados pela ONU, o balanço chegou a 74 mil mortos.
O conflito, porém, ultrapassou os limites de Gaza. A perspectiva de convivência entre israelenses e palestinos em dois Estados parece cada vez mais distante.
O Hamas foi duramente atingido, mas a violência não produziu uma solução política. Mesmo com o cessar-fogo, novos ataques israelenses e a insegurança persistente mostram como a trégua permanece frágil. Em vez de abrir caminho para a paz, a guerra aprofundou o ressentimento, ampliou a instabilidade regional e tornou ainda mais difícil imaginar um futuro de coexistência. O Hamas, na sua ilusão de acabar com Israel, só ajudou a inviabilizar mais esta possibilidade.
FRACASSO
A grande promessa dos Acordos de Oslo, assinados em 1993, era justamente romper esse ciclo. Israel e a Organização para a Libertação da Palestina reconheceram-se mutuamente e abriram negociações para uma solução baseada em dois Estados. Yitzhak Rabin, primeiro-ministro israelense, Yasser Arafat, líder palestino, e Shimon Peres, chanceler de Israel, receberam o Nobel da Paz em 1994 por seus esforços. Mas, em 1995, Rabin foi assassinado por um extremista judeu contrário às concessões territoriais. O processo perdeu força, a desconfiança cresceu e a solução negociada foi sendo empurrada para um horizonte cada vez mais remoto.
ISOLAMENTO
Hoje, a Autoridade Palestina, sediada na Cisjordânia e favorável à negociação com Israel, encontra-se enfraquecida, sem legitimidade suficiente entre muitos palestinos e sem controle sobre Gaza.
Enquanto isso, setores da política israelense rejeitam a criação de um Estado palestino independente, e a expansão dos assentamentos judaicos na Cisjordânia compromete a viabilidade territorial dessa solução.
EXPANSÃO
A guerra também se espalhou pelo entorno de Israel. Com o apoio dos Estados Unidos, Israel ampliou suas operações contra adversários que considera ameaças existenciais. A rivalidade com Teerã, por sua vez, deixou de ser apenas uma disputa indireta e desembocou em confronto militar direto entre Estados Unidos e Israel com o Irã. O Hezbollah, sediado no sul do Líbano, de onde costuma atacar Israel, sofreu, em decorrência, pesadas perdas.
RESPOSTA
Três anos depois, a pergunta essencial continua sem resposta: como construir segurança duradoura sem reconhecer aos palestinos o direito de viver em um Estado próprio? A força militar pode destruir estruturas, eliminar comandantes e enfraquecer organizações armadas, mas não apaga as causas políticas de um conflito.
A tragédia de 7 de outubro não pode ser esquecida, assim como não podem ser relativizadas as mortes e o sofrimento da população de Gaza. Sem negociações sérias, garantias de segurança para Israel e perspectiva concreta de soberania palestina, o Oriente Médio continuará preso à lógica da retaliação. E cada nova ofensiva poderá preparar o terreno para a próxima guerra.
CERTEZA
Diante do histórico da região, fica uma certeza: por mais força e capacidade de defesa que tenha, Israel nunca terá tranquilidade enquanto não der força aos palestinos moderados do Fatah e resolver a questão daquele povo. Com o impasse, só quem ganha força é o radical Hamas, que irá aproveitar para convencer cada um dos meninos e jovens sobreviventes da Faixa de Gaza a se tornar um novo militante da organização terrorista. Ou, como gostam de chamar, um mártir da causa.
Correio do Povo
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