Vinho brasileiro se reinventa e ganha destaque no cenário global

 Andreia Gentilini celebra o Dia do Vinho Brasileiro com rótulos do Rota Rara que mostram a diversidade da produção nacional


Andreia Gentilini

Festival Rota Rara levou a Porto Alegre rótulos autorais e diferentes estilos da nova cena do vinho brasileiro Foto : UillianVargas / Divulgação / CP

No dia 7 de junho, celebra-se o Dia do Vinho Brasileiro, uma data que simboliza a evolução de uma das cadeias produtivas mais dinâmicas do agronegócio nacional. Mais do que uma comemoração, a ocasião convida à reflexão sobre o extraordinário salto de qualidade vivido pelo setor nas últimas décadas. O que antes era uma indústria concentrada em poucas regiões e estilos tornou-se um universo plural, inovador e cada vez mais conectado às tendências mundiais de consumo.


Se a Serra Gaúcha continua sendo o principal berço da vitivinicultura brasileira, o mapa do vinho nacional expandiu-se significativamente. Regiões como Campanha Gaúcha, Campos de Cima da Serra, Serra do Sudeste, Planalto Catarinense e Vale do São Francisco revelam terroirs distintos e identidades próprias. Ao mesmo tempo, pequenas vinícolas familiares e projetos boutique passaram a dividir espaço com empresas consolidadas, impulsionando uma nova geração de rótulos autorais que valorizam origem, sustentabilidade e autenticidade.


Esse cenário ficou evidente durante a terceira edição do Rota Rara – Festival de Vinhos, realizada recentemente em Porto Alegre. Considerado um dos principais encontros da vitivinicultura gaúcha, o evento reuniu cerca de 100 vinícolas e apresentou ao público uma amostra da diversidade da produção estadual.


Entre os vencedores estiveram o Malbec Passito 2022, da Vinícola Mondadori, eleito Melhor Vinho do Evento; o Insólito Corte IV, da Foppa & Ambrosi, entre os brancos; o Exótico Laranja, da Buffon; o Vivelam La Vie Branco, da Velho Amâncio; e o Nature Sangiovese, da Somacal. Mais do que premiar vinhos, o festival mostrou a força de regiões emergentes e de produtores que apostam em diferenciação, criatividade e identidade própria.

O vinho brasileiro vive hoje um de seus momentos mais interessantes. Espumantes reconhecidos internacionalmente dividem espaço com vinhos laranja, ancestrais, naturais, cortes autorais e variedades pouco exploradas no país. O consumidor também amadureceu e passou a valorizar história, procedência e propósito. Ao celebrar o Dia do Vinho Brasileiro, celebramos uma indústria que aprendeu a olhar para suas origens sem abrir mão da inovação. Um setor que continua crescendo e que prova, safra após safra, que o vinho brasileiro vai muito além do óbvio.


Provei e amei: Cinco dicas de vinhos

1 – Ventésimo Corte de Safras – Vinícola Família Ulian (Otávio Rocha): Produzido pela Vinícola Família Ulian, em Otávio Rocha, distrito de Flores da Cunha reconhecido pela elevada altitude e excelente amplitude térmica, o Ventésimo Corte de Safras representa uma filosofia pouco comum na vitivinicultura brasileira: a combinação de diferentes colheitas em um mesmo vinho. A proposta é construir maior complexidade e equilíbrio, reunindo características de safras distintas em um único rótulo.Na taça, apresenta coloração amarelo-palha com reflexos dourados e aromas que remetem a frutas maduras, flores brancas e delicadas notas de evolução. Em boca revela volume, cremosidade e excelente persistência, sustentados por uma acidez equilibrada que mantém o vinho vivo e gastronômico. Um branco sofisticado que demonstra a maturidade técnica alcançada pelos produtores da Serra Gaúcha.


2 – Insólito Corte IV – Vinícola Foppa & Ambrosi (Garibaldi): Vencedor da categoria Vinho Branco no Rota Rara, o Insólito Corte IV é um dos projetos mais emblemáticos da Foppa & Ambrosi. Elaborado a partir de diferentes lotes de Chardonnay oriundos da Serra Gaúcha e da Serra do Sudeste, combina parcelas maturadas em barricas de carvalho francês com vinhos vinificados em inox, buscando equilíbrio entre frescor e complexidade. A vinícola de Garibaldi tem se destacado justamente pela produção de rótulos de pequena escala e personalidade marcante.


O resultado é um vinho de coloração amarelo-palha com reflexos dourados, aromas de abacaxi maduro, frutas cítricas, amêndoas, coco e notas tostadas. Em boca apresenta textura cremosa, excelente volume e integração precisa entre fruta, madeira e acidez, com final longo e elegante.


3 – Exótico Laranja – Vinícola Buffon (Bento Gonçalves): A Vinícola Buffon tornou-se referência quando o assunto é inovação. O Exótico Laranja, vencedor da categoria Rosé, Laranja e Clarete, é elaborado a partir das variedades Chardonnay, Prosecco, Trebbiano, Lorena e Moscato Poloski cultivadas na Serra Gaúcha. O vinho passa por um longo período de maceração com as cascas e amadurecimento sobre borras finas, técnica que confere profundidade e identidade ao rótulo.


Sua coloração âmbar intensa já antecipa um perfil diferenciado. Os aromas lembram casca de laranja, flor de laranjeira, ervas e especiarias. Em boca mostra textura envolvente, taninos delicados e ótima estrutura, mantendo equilíbrio entre frescor e volume. Um vinho que traduz perfeitamente a nova onda dos vinhos laranja brasileiros.


4 – Malbec Passito 2022 – Vinícola Mondadori (Bento Gonçalves): Grande vencedor do Rota Rara 2026 e eleito o Melhor Vinho do Evento, o Malbec Passito 2022 é resultado da proposta da Vinícola Mondadori de criar vinhos de forte personalidade. Inspirado na técnica italiana passito, utiliza uvas com concentração natural de açúcares e compostos aromáticos, produzindo um vinho de grande intensidade e profundidade.


Aromas de ameixas maduras, frutas negras, figos secos, chocolate e especiarias doces dominam o conjunto aromático. Em boca apresenta estrutura robusta, taninos maduros e longa persistência, equilibrando potência e elegância. Um vinho que mostra como a criatividade pode gerar resultados surpreendentes na vitivinicultura brasileira.


5 – Nature Sangiovese – Vinícola Somacal (Monte Belo do Sul): Vencedor da categoria Inovação, o Nature Sangiovese nasce na Vinícola Somacal, empreendimento familiar de Monte Belo do Sul que tem suas origens ligadas à viticultura desde a década de 1920. A vinícola vem se destacando pela produção de vinhos artesanais, de pequena escala e mínima intervenção, valorizando a expressão do terroir e da variedade.


Elaborado a partir da uva Sangiovese, apresenta aromas de cerejas frescas, morangos silvestres, ervas mediterrâneas e delicadas notas florais. Em boca é vibrante, com acidez marcante, taninos finos e excelente frescor. Um vinho que representa uma nova geração de produtores brasileiros que busca autenticidade acima de tudo.

Correio do Povo

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