Quando o cansaço vira medo, quem escuta o soldado?
Há meses sem descanso, dormindo em trincheiras e voltando para a linha de frente antes mesmo de o corpo sarar. Entre ordens contraditórias e atritos com comandantes, muitos militares ucranianos carregam uma guerra dentro de si que não aparece nos boletins oficiais.
Foi para dar voz a eles que Olha Reshetylova assumiu como ouvidora militar. Jornalista e defensora de direitos humanos, ela diz que a missão não é enfraquecer o Exército com regras, mas fortalecê-lo cuidando de quem segura o fuzil. “O soldado precisa sentir que alguém o protege. Só assim ele continua lutando por responsabilidade, igualdade e respeito”, afirma.
As queixas que chegam até ela com mais frequência
Nos primeiros 20 dias no cargo, Reshetylova recebeu 3.876 pedidos de ajuda. As dores mais repetidas:
- Saúde negada: Comandantes que barram encaminhamentos para tratamento de ferimentos, cirurgias urgentes, PTSD agudo, crises de pânico e concussões graves. Em um caso, um soldado com HIV e úlceras hemorrágicas foi ameaçado de processo por deserção se saísse para operar.
- Transferência travada: Militares que não conseguem sair de unidades onde sofrem abuso ou estão esgotados. Problemas de movimentação entre unidades são a segunda maior causa de apelo.
- Esgotamento extremo: Soldados que passam mais de 40 dias seguidos em posições de alta intensidade desenvolvem apatia severa, distanciamento emocional e perdem o instinto de autopreservação. Sem rodízio, a coesão da tropa e a tomada de decisão desmoronam.
- Conflitos com comando: Falta de confiança, ordens abusivas e punições desproporcionais. Muitos relatam que só conseguem resposta quando a ouvidora liga diretamente para o comandante.
- Famílias no limbo: A lei do ouvidor militar ainda não fala dos familiares, e desaparecimentos em combate geram desespero sem canal oficial de resposta.
Reshetylova insiste: “O medo não se vence com mais medo”. Para ela, presença constante no front, conversas humanas e ações concretas constroem a confiança que mantém um exército de pé. O Office of the Military Ombudsman foi criado justamente para ser essa ponte — receber denúncias, iniciar inspeções e propor soluções dentro das Forças de Defesa.
A guerra cobra um preço visível em território. O preço invisível está no soldado que não consegue dormir, não consegue ser tratado e não consegue ser ouvido. É aí que o trabalho de Reshetylova começa.

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