A QUÍMICA DO INGÊNUO - 03.03.2026

 Por Alex Pipkin, PhD em Administração

 

Amadores negociam posições. Profissionais negociam interesses.

Na geopolítica das potências, a retórica ocupa os holofotes; os interesses escrevem o roteiro.

Essa é uma das regras mais antigas do poder. Ainda assim, continua sendo ignorada por quem confunde cordialidade com convergência de interesses.

Quando Donald Trump afirmou existir uma “química” entre ele e Lula, muita gente interpretou a frase como um sinal de proximidade. Talvez tenha sido apenas mais uma demonstração de algo que negociadores experientes fazem todos os dias; utilizar a simpatia como instrumento.

A diferença entre o amador e o profissional não está na capacidade de dialogar. Está na maturidade de compreender que simpatia e interesse raramente sentam na mesma cadeira.

Na política internacional não existem amizades permanentes; existem interesses permanentes.

O problema começa quando governos passam a acreditar que relações pessoais podem substituir estratégia ou que afinidades ideológicas podem substituir interesses nacionais.

A realidade costuma ser bem menos romântica.

Nos últimos meses, sinais vindos do exterior sugerem uma mudança de percepção em relação ao Brasil. Atritos diplomáticos, divergências institucionais, tensões comerciais e preocupações com segurança pública deixaram de ser assuntos restritos aos especialistas e passaram a integrar o cálculo estratégico de outros países.

Ignorar esses sinais não os torna menos reais.

Há uma ironia quase cruel nesse cenário.

Enquanto o país enfrenta desafios ligados à produtividade, à competitividade internacional e à atração de investimentos, parte do debate público parece concentrar-se na distribuição de benefícios antes da geração de riqueza.

É a imagem de um maratonista tentando correr os últimos quilômetros carregando um piano nas costas.

Mas o espantoso não é a conta ter chegado. É a surpresa de quem a recebe.

A surpresa de quem acreditou que populismo, diplomacia ideológica, desprezo pela produtividade e uma política externa guiada por preferências políticas e ideológicas poderiam produzir prosperidade duradoura.

Trump nunca esteve à mesa para defender os interesses do Brasil. Estava lá para defender os interesses dos Estados Unidos.

E é exatamente para isso que presidentes são eleitos.

Enquanto alguns apostavam na química, Washington calculava o seu BATNA (Best Alternative to a Negotiated Agreement): a melhor alternativa caso não houvesse acordo.

Em outras palavras, enquanto um lado apostava na afinidade, o outro avaliava alternativas.

Grandes nações não têm amigos. Têm interesses. E os interesses, ao contrário da química das aparências, não desaparecem quando a conta chega.

Talvez ela já esteja chegando.

A ameaça de tarifas sobre produtos brasileiros atinge empregos, investimentos e renda justamente quando o país já sufoca quem produz com impostos, burocracia e baixa competitividade.

A matemática é simples.

Nenhuma nação enriquece punindo quem gera riqueza.

Populismo rende discursos. A realidade envia a conta.


Pontocritico.com

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