Trump: hora do assopro

 O presidente dos EUA tem se caracterizado pela teoria do “morde e assopra”. Ou seja, dar uma paulada e depois fazer um carinho

Por Jurandir Soares


O presidente Donald Trump tem se caracterizado, ao longo de sua vida, tanto profissional quanto política, pela teoria do “morde e assopra”. Ou seja, dar uma paulada e depois fazer um carinho. Na condução da atual guerra que seu país e Israel travam contra o Irã, não tem sido diferente. Ainda neste sábado, ameaçou atacar as instalações energéticas iranianas caso o país persa não concordasse em desobstruir o Estreito de Ormuz. E deu prazo de 48 horas para o cumprimento de sua exigência.


Lógico que o mundo ficou em tensa expectativa, devido aos estragos que a guerra está provocando não só entre os países digladiantes, mas também entre aqueles que passaram a ser envolvidos por bombardeios ou pelas consequências da retenção do petróleo.


ALÍVIO


O prazo dado por Trump esgotava-se nesta segunda-feira, às 20h13min, pelo horário de Brasília. De sua parte, o Irã anunciava que, se o norte-americano cumprisse o prometido, iria atacar instalações petrolíferas e de energia – inclusive nucleares – de todos os aliados dos EUA na região. Este termo, “nuclear”, tornou-se o mais apavorante. Isso porque a guerra foi deflagrada pelo temor de o Irã desenvolver uma bomba atômica. E estaríamos diante de uma explosão atômica – não pelo uso da bomba por Teerã, mas pelos ataques a instalações de outro país.


E esse outro país é, logicamente, Israel. Que não declara publicamente possuir o artefato nuclear, mas que, como todos sabem, tem sua bomba guardada em instalações nucleares no deserto de Neguev. Imagine-se as consequências de um ataque dessa natureza.


ALERTA


É lógico que isso deve ter alertado Trump e as autoridades israelenses. Ainda mais porque Israel vem sofrendo ataques crescentes ultimamente e, como se sabe, os sistemas antimísseis não têm eficiência de cem por cento. Assim, sempre há algum artefato que explode em território israelense. Sem contar os fragmentos da artilharia interceptada.


Além de sofrer com esse tipo de explosão, Israel também ficou sob a ameaça do uso de bombas de fragmentação, cuja utilização é bastante controversa. No caso do regime iraniano, não há o mínimo pudor por parte dos aiatolás em usar esse tipo de armamento. Até porque os próprios norte-americanos não aderiram ao tratado que veda seu uso.


CARACTERÍSTICAS


O serviço de informações da ONU diz que “as bombas de fragmentação (ou munições de dispersão) são armas que liberam submunições menores sobre uma grande área, projetadas para explodir ao impacto. Proibidas por tratado internacional devido aos danos indiscriminados e aos altos riscos a civis, seu uso gera grande controvérsia humanitária”. Quanto ao funcionamento, um contêiner principal abre-se no ar, espalhando dezenas ou centenas de bombas menores (submunições). Esse tipo de armamento, assim como as minas terrestres, apresenta outro fator de preocupação: as que não detonam ficam escondidas no solo e podem ser acionadas por civis.


O curioso é que a Convenção sobre Munições de Dispersão proíbe o uso, a produção e a transferência dessas bombas. Porém, muitos países não participam do tratado, entre eles Estados Unidos e Rússia – e até mesmo o Brasil, que, além de não aderir, produz, exporta e considera essas armas necessárias para a defesa nacional.


PRAZO


Voltando ao andamento da guerra, Trump “assoprou”. Deu mais um prazo de cinco dias para sua ameaça, mas ressaltou que as conversas com o Irã estão indo muito bem. “Tenho o prazer de informar que EUA e Irã tiveram, nos últimos dias, conversas muito boas e produtivas sobre uma resolução completa e total de nossas hostilidades no Oriente Médio”, disse Trump a jornalistas na Casa Branca.


A ser verdade – e, caso essas negociações resultem no fim das hostilidades no Oriente Médio, como preconiza Trump –, teremos saído de uma situação que beirava a catástrofe para outra que inspira grande alívio em todo o mundo. Porém, como se sabe, da conversa para a realidade vai sempre uma boa diferença.

Correio do Povo

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