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Reencontrando o tempo, redescobrindo a literatura, por Moacyr Scliar

Receita para diferenciar uma pessoa comum de grande escritor: dar a ambos uma dessas pequenas tortas que os franceses conhecem como madeleines . A pessoa comum gostará ou não gostará, mas ficará nisso. O grande escritor imediatamente mergulhará em recordações do passado, que resultarão numa notável obra literária. Observação: a madeleine não precisa ser de qualidade excepcional, mas o escritor deve ser Marcel Proust. Nascido em Auteil, perto de Paris, em 1871, Proust era filho de um casal peculiar. O pai, o médico Adrien Proust, era um homem enérgico, autoritário mesmo. A mãe, Jeanne Wiell, vinha de uma próspera família judaica da Alsácia e foi um pequeno Marcel o tipo da mãe judia superprotetora. Proteção de que ele aliás precisava: era um menino enfermiço, sujeito a crises de asma. Apesar disso, foi à escola e até fez um ano de serviço militar. Depois cursou Direito na universidade. Ainda jovem escrevia para revistas simbolistas e frequentava salões como o de madame Arman, amiga do...

Nós, os covardes, por Rosane de Oliveira

O tom pode ter sido de brincadeira, mas o conteúdo da declaração do presidente Lula em Santo Domingo é inequívoco: - Vocês são um bando de covardes mesmo. Não tiveram coragem de defender o conselho nacional de jornalistas. Ou seja: o presidente da República acha que foi por falta de coragem que não defendemos o monstrengo que o Palácio do Planalto patrocinou, atendendo à reivindicação da Federação Nacional dos Jornalistas. No Aurélio, covardia e sinônimo de falta de coragem, medo, timidez, poltronice, fraqueza de ânimo, pulsilaminidade. A frase contém uma insinuação nas entrelinhas: a de que os jornalistas adorariam defender o projeto mas não o fazem por medo. Se lesse o que o jornalista de norte a sul do Brasil têm escrito sobre esse projeto, o presidente saberia que não se trata de falta de coragem para defender a proposta. É convicção mesmo. Talvez Lula tenha razão em um ponto: é medo também. Não medo de desagradar aos seus empregadores, como insinua, mas de ter o re...

Declaração de Lula é repudiada

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu unir oposição e aliados ao rotular como “covardes” os jornalistas que são contrários à criação do Conselho Federal de Jornalismo (CFJ). Lula criticou um grupo de repórteres, segunda-feira, em Santo Domingo, quando foi cumprimentar o novo presidente da República Dominicana, Leonel Fernandez. No Senado, os líderes do PSDB, Arthur Virgílio, e do PFL, Agripino Maia, repudiaram o autoritarismo do presidente. Até a representante do governo, senadora Ideli Salvati, líder do PT na Casa, contestou a posição de Lula, lamentou a generalização e sugeriu que ele faça uma retificação. Dirigentes da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), responsável pelo projeto do CFJ encaminhado ao governo rechaçaram a tentativa de associar a resistência da categoria a grupos que desejam politizar o tema. Para o presidente da Fenaj, Sérgio Murilo de Andrade, o comentário foi inadequado. Na opinião do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ro...

Perdendo as rédeas

 A carruagem presidencial desandou na República Dominicana. A acusação de que os jornalistas são “um bando de covardes” não tem precedentes. Já fomos “subversivos”, “incendiários” e “perturbadores da ordem pública”, mas a qualificação de ontem estra melancolicamente no caderninho. Se a intenção do presidente Lula era defender a Federação Nacional dos Jornalistas, que promoveu a ideia de criação do Conselho Federal de Jornalismo, o tiro saiu pela culatra. Os sindicalistas, aliados do Planalto, não gostaram do rótulo. Tem mais: nenhum conselho profissional surgiu pelas mãos do governo. O patrocínio buscado pela Federação foi prática do Estado Novo. No regime democrático, o Congresso está aberto para todas as formas de debate. Fonte: Coluna PANORAMA POLÍTICO/ Armando Burd, edição do Correio do Povo de 18 de agosto de 2004, página 04.

As gafes do presidente Lula

Durante encontro com o presidente da Costa Rica, Abel Pacheco, ontem, Lula brincou com a permanência no poder por 37 anos do presidente do Gabão. Eu fui a uma viagem ao Gabão aprender como é que um presidente consegue ficar 37 anos no poder e ainda se candidatar à reeleição – afirmou. Os gaboneses, que vivem sob a mão de ferro do presidente Ondimba, sabem muito bem como ele conseguiu. Opinião ZH Brincadeira inoportuna Pela conhecida espontaneidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, até se poderia relevar a brincadeira que ele fez com um grupo de repórteres brasileiros na República Dominicana: “Vocês são um bando de covardes mesmo. Não tiveram coragem de defender o conselho nacional de jornalistas”. Considerando-se os sinais de autoritarismo emitidos pelo governo nos últimos dias, porém, a piadinha não teve graça. Quem não concorda com o governo que é covarde? E os subservientes aos éditos do rei serão corajosos? No mínimo, Lula está precisando rev...

O tiro que parou o Brasil, por Jerri Roberto S. Almeida

Aquela parecia uma manhã como todas as outras, não fosse um tiro de um colt calibre 32. Um tiro, não qualquer tiro, mas um que entraria para a História brasileira como responsável pelo fim de uma de suas mais intrigantes personalidades: Getúlio Dornelles Vargas. Era manhã de 24 de agosto de 1954, o dia em que um tiro parou o Brasil, era o suicídio do presidente Vargas. Cinquenta anos passaram-se e Getúlio continua sendo, possivelmente, o líder mais estudado, pesquisando, discutindo e sobre qual mais se tem escrito em nossa historiografia. Temido ou amado, respeitado ou odiado, Getúlio Vargas marcou importante Era na história de nosso país. Portador de personalidade forte, para vários de seus estudiosos Vargas encarnou o ditador e populista sabendo adequar às exigências do momento histórico em que vivia, sem deixar, entretanto, de perseguir suas ideias e determinações. O período getulista, que se inicia com a Revolução de 30, ensejou uma ruptura no poder das oligarquias do Sudeste,...

A síndrome do pânico, por Simoni Missel*

A síndrome ou transtorno do pânico se caracteriza por medo repentino e sem motivo, acompanhado de falta de ar, ansiedade, medo de morrer, perder o controle ou enlouquecer, coração acelerado, suor nas mãos, tontura, vertigem ou desmaio. Pode ser desencadeado por situações de estresse ou depressão. Caso o transtorno não seja diagnosticado e tratado adequadamente, as crises podem se tornar mais frequentes. Isso pode evoluir para quadros como depressão ou agorafobia (medo de locais onde a saída parece difícil). O tratamento usa a combinação de medicações que regulam a serotonina no cérebro e a psicoterapia. *Psicóloga Fonte? Zero Hora, página 37 de 15 de agosto de 2004.

Arsenal contra a pirataria

Ao contrário da CPI mista do Banestado, que não consegue encaminhar as investigações sobre a evasão de divisas para o final devido a divergências políticas entre seus integrantes, a investigação da Câmara sobre a pirataria encerrou-se com uma perspectiva de moralização nesta área. Além da criação do Conselho Nacional de Defesa da Propriedade Intelectual e Combate à Pirataria, a investigação sugere a criação ou a ampliação de penas para crimes como contrabando, receptação, reprodução, cópia e venda de produtos e obras intelectuais pirateados e amplia o rigor sobre o comércio de falsificações. Nem tudo depende de leis nesta área, mas se, for bem aproveitado, o arsenal pode colaborar para levar o país à seriedade. Normalmente percebida mais como uma forma de gastar menos, a pirataria impõe prejuízos à população que vão muito além da qualidade inferior e dos riscos da falsificação em itens que vão de medicamentos a computadores. Um deles é o fato de que, embora se constitua em forma ...

Censura

O governo mandou projeto ao Congresso a criação de um Conselho Federal de Jornalismo. Objetivo: “orientar, disciplinar e fiscalizar” a imprensa. Ou seja: estabelecer a censura. As coisas começaram assim na Alemanha de Hitler e na Cuba de Fidel. Ali, como no poema atribuído a Brecht, os jornalistas fizeram de conta que a coisa não era com eles e, quando perceberam, já não dava para reagir, era tarde demais. A tentativa não é inédita dentro da filosofia dos companheiros. Um deles, quando prefeito de Porto Alegre, tentou no âmbito local o mesmo “conselhão”, o que, felizmente, não prosperou. A medida é fascista stalinista. Há uma Lei de Imprensa em vigor e quem a viola é punido severamente. A tentativa de recriar a censura é cala a boca que os jornalistas não podem permitir. Flávio Alcaraz Gomes, Correio do Povo, 11 de agosto e 2004, página 4.

Como a mulher de César, por Cândido Norberto*

 Se me perguntarem o que vem a ser a palavra “denuncismo”, eu sei o que quero dizer com ela, embora não tenha encontrado em nenhum de meus dicionários. É um neologismo, não é? Trata-se de imputar a pessoa ou a uma instituição o uso e o abuso de acusações sem fundamento com a intenção de neutralizar as críticas de que venham sendo objeto, livrando-se, do trabalho e sobretudo do dever de contestá-las com fatos e provas. Na atualidade, por exemplo, nosso simpático palavroso presidente da República, diante das graves acusações que vêm sendo feita aos presidentes do Banco Central e do Banco do Brasil, tem dito e repetido que elas não merecem crédito nem carecem ser desmentidas pelo governo e pelos próprios acusados, porque não passam pura e simplesmente de denuncismo da oposição. O mesmo vem sendo reiterado pelos homens públicos acusados de envolvimento em atos ilegais ou pelo menos contrário à ética e aos bons costumes. Sinceramente, me confessso incapaz de entender os compli...