A GLORIOSA FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA - (VII)

 


     Péricles, o grande estadista, orador e general da Grécia Antiga, do século V AC (berço da Ciência e da Arte da Guerra Ocidentais, com as suas Falanges, que antecederam as Legiões romanas), já dizia: "Os que morrem por seu País, o servem mais num só dia, do que os demais em todas as suas vidas"...
    Vamos tratar neste texto, da rendição ou capitulação alemã/italiana à nossa Divisão, em Fornovo di Taro. Mas teceremos, inicialmente, de forma muito sintética, algumas considerações julgadas relevantes para o entendimento do assunto, máxime por parte de civis, em geral não afeitos a temas militares.
    A II Guerra Mundial, no começo de 1945, se desenrolava em dois Teatros de Guerra (TG): 1) o da Europa e 2) o do Pacífico. No primeiro, prevaleceram as operações terrestres; e no Pacífico, as operações navais. O Teatro de Guerra europeu englobava três Teatros de Operações (TO), a saber: 1) o da Frente Russa, que era o principal deles; 2) o da Frente Ocidental e 3) o do Mediterrâneo. Este (TO) fora desfalcado pela transferência de contingentes aliados, da Itália para o Sul da França, a fim de que fossem envolvidas pela retaguarda, as tropas hitleristas que ocupavam Paris. Daí o emprego necessário, mas prematuro, do "Destacamento FEB",  pelo IV Corpo de Exército, do V Exército norte-americano, ao qual estivemos subordinados, tão logo o 1° escalão brasileiro desembarcou na Itália. Observações: o V Exército dos EUA (cujo comandante era o general Lucian Truscott, sucessor do general Mark Clark - nomeado comandante do XV° Grupo de Exércitos, notável oficial que lutou na I GM, II GM e posteriormente na Guerra da Coréia) e o VIII Exército inglês (ao comando do general Bernard Montgomery) formavam o antes mencionado XV° Grupo de Exércitos Alados.  
    No artigo anterior, lembramos, num saudoso preito de reverência, dos nossos heróis tombados mortalmente em Montese: o tenente Ary Weber Rauen, o Aspirante Francisco Mega e o sargento Max Wolff Filho (este na antevéspera da batalha), bem como da ação intimorata do 2° sargento Nestor da Silva, no cemitério de Montese, o que valeu ao atual tenente-coronel, uma meritória promoção ao posto de 2° tenente. Montese é um município italiano da província de Módena, na região da Emília-Romanha (a grafia está correta), onde foi travado o mais sangrento combate de nossa Força Expedicionária. Após a cruenta batalha (14 de abril de 1945), a 1ª DIE deslocou-se para o Norte, conquistando as vilas de Zocca e Vignola (é interessante acompanhar essas manobras pelo "Roteiro da F.E.B. na Campanha da Itália", assinado pelo marechal Mascarenhas de Moraes, que ilustra este texto, juntamente com um mapa da Itália, em um Atlas geográfico). Na continuidade do deslocamento, a Divisão tomou o rumo de Noroeste, quando o Esquadrão de Reconhecimento (Esqd Rec) se deparou com o inimigo em Collechio, no dia 26 de abril). Foi então iniciado um amplo cerco para impedir a sua fuga. Tratava-se da 148ª Divisão alemã e remanescentes (destroços) da 90ª Divisão Panzer Granadier e da "Divisão Itália", formada por soldados italianos "bersagliere". A região era a de Fornovo di Taro (uma província de Parma), sendo o rio Taro um longo afluente do rio Pó. O inimigo foi inteiramente cercado pelos 6° e 11° RI, com apoio de Artilharia e cobertura, a Oeste, do Esquadrão de Reconhecimento, na região delimitada por Gaiano - Fornovo di Taro - Felegara - Neviano di Rossi. Assim, ao inimigo, na impossibilidade de se reunir a outras tropas alemãs ao Norte do rio Pó, só restava a rendição (capitulação), após o comandante do 6° RI ter-lhe enviado uma intimação (ultimato). Vivenciava-se um excepcional momento histórico (!), com precedente apenas na Guerra do Paraguai (célebre foi a "Rendição de Uruguaiana", sendo melhor que se diga "Rendição em Uruguaiana") quando não havia regras definidas do Direito Internacional, como sói acontecer só posteriormente à I Grande Guerra, fruto da Conferência das Nações, em 1918.
    A intimação foi entregue pelo padre Alessandro Cavalli, de Neviano di Rossi, que se voluntariou para essa missão e caminhou, a pé, cerca de 6 Km. O "ultimatum" era vazado nos seguintes termos: "Para poupar sacrifícios inúteis de vidas, intimo-vos a render-vos incondicionalmente ao Comando das tropas regulares do Exército Brasileiro, que estão prontas a vos atacar. Estais completamente cercados e impossibilitados de qualquer retirada.
    Quem vos intima é o comandante da Vanguarda Brasileira que vos cerca. Aguardo, dentro do prazo de duas horas, a resposta do presente ultimatum." a) coronel Nelson de Melo [era o comandante do 6° RI].
    À zero hora do dia 29 de abril, três oficiais alemães (o major Chefe do EM da 148ª Divisão e dois outros) apresentaram-se para negociações. O major explicitou as péssimas condições de sua Divisão, em face do esgotamento físico da tropa, à míngua de meios de toda ordem, inclusive munição e combustível para os veículos, da falta de recursos médicos para 800 feridos e doentes. (Após a rendição, constatou-se muito improcedentes as exageradas alegações, posto que à vista do material apreendido, existia farta munição, víveres e combustível; e o número de doentes não chegava a 150). A Divisão possuía ainda um forte poder de combate! O general Willis Crittenberg, comandante do IV Corpo de Exército americano, sabedor da manobra brasileira, enviou ao general Mascarenhas, o radiograma, "in verbis": "Estou contando convosco no sentido de impedir que quaisquer elementos inimigos, inclusive a 148ª Divisão,  transponham o rio Pó e escapem para o Norte. Esta é a grande oportunidade que se apresenta para aniquilar essas forças inimigas. Coordenai com o general comandante da 34ª DI". O general Mascarenhas não coordenou as operações como desejava o V Exército. Caso assim procedesse, paralisaria a mui rápida atuação da 1ª DIE. Ora: dessa forma a FEB impediu que a Divisão alemã, com os seus 15.000 homens, surpreendesse a 34ª DI, ao Norte de Parma...
    O general Mascarenhas não era um Grouchy (general francês que não acudiu Napoleão em Waterloo, pois seguiu rigorosamente as ordens de seguir em outra direção, mesmo ouvindo o troar dos canhões dos inimigos) apesar de ser um autêntico "caxias" (adjetivação metafórica, que, para gáudio nosso, já está dicionarizada nos léxicos de Aurélio Buarque e Antônio Houaiss). Destarte, repita-se, o nosso comandante não consultou o escalão superior nem tampouco estabeleceu ligação com a 34ª DI. Tais soberbas e corajosas decisões não foram bem aceitas (causaram ciúmes - eis a verdade) pelo V Exército que emitiu o radiograma 6727, de2 de maio de 1945, que se finalizava ,"ipsis litteris":........ "No caso de rendição de uma Grande Unidade, deve-se entrar em contato com este QG para instruções". a) general Crittenberg, comandante. Tal radiograma era uma mensagem circular, mas somente para a camuflagem do real destinatário, porquanto as outras Divisões do IV Corpo não haviam participado de nenhuma capitulação de Grande Unidade alemã... Importante: se a rendição, mesmo sob o comando brasileiro, ocorresse com a presença de comandos do V Exército, ela seria desfigurada e passaria à responsabilidade norte-americana, que receberia os louros da manobra. Diga-se, entretanto, que a execução da operação contou com a participação do V Exército, inclusive quanto ao aprisionamento dos generais Fretter Pico e Carloni.
    Uma curiosidade que não encontramos comprovação histórica, porém por ser assaz repetida, merece ser contada. Consta que a rendição foi aceita com rapidez pelo comando alemão, pois há muito se dizia que a 92ª Divisão americana, do IV Corpo, do V Exército, a famosa "Buffalo Division", é quem receberia uma presumível rendição nazifascista. A 92ª Divisão era a única tropa de negros em operações na Europa (a ela pertencia o famoso 'boxeur' Joe Louis); o seu símbolo era um búfalo negro num fundo verde, o que muito motivava os "buffalo soldiers"...     (continua)
    Coronel Manoel Soriano Neto - Historiador Militar

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