Operações prolongadas no Irã

 As forças norte-americanas teriam recebido a informação, a fim de se prepararem

Por Jurandir Soares

No mesmo dia em que o presidente Trump disse que “seria muito bom uma mudança de regime no Irã” e deu prazo de duas semanas para os aiatolás chegarem a um acordo quanto ao seu programa nuclear, um alto comandante militar dos EUA disse ao New York Times que as forças norte-americanas receberam a informação para se prepararem para prolongadas operações no Irã. Ao mesmo tempo, embora com certas manifestações otimistas por representantes das duas partes, terminou nesta quarta-feira, em Genebra, mais uma reunião em busca de um acordo sobre o programa nuclear iraniano, sem que chegassem a uma definição.


AMEAÇAS


O fato é que os dois países estão em meio a ameaças e negociações. Trump, de sua parte, resolveu reforçar a frota estadunidense no Golfo Pérsico, enviando para lá o USS Gerald Ford, o maior porta-aviões do mundo. Vai para a região depois de cumprir missão na Venezuela, que resultou na captura do ditador Nicolás Maduro. Uma captura, no mesmo estilo, do líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, é muito mais complexa. Mas não é de duvidar. Trump está estabelecendo um cerco sobre o país persa, fazendo com que, mesmo em meio às negociações, o aiatolá Ali Khamenei ameaçasse afundar os navios de guerra dos EUA que fazem o cerco a Teerã, no Oriente Médio.


AFUNDAMENTO


Em meio à mobilização norte-americana, Teerã também resolveu se mobilizar, anunciando manobras navais no Estreito de Ormuz. E aí alguém já falou que, com umas poucas bombas, a aviação dos EUA afunda esses navios iranianos. Pois, por mais contraditório que pareça, pode ser isto que o aiatolá quer. E justo para cumprir uma de suas outras ameaças: bloquear a passagem. O resultado seria que o Ocidente deixaria de receber os 40% da produção mundial de petróleo que cruza por aquela via estratégica. Ao longo do Golfo Pérsico estão alguns dos maiores produtores, como o próprio Irã, mais Kuwait, Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos e Catar. Imagine-se a repercussão no mercado internacional do petróleo de uma ação dessa natureza. Poderíamos ter um novo “choque do petróleo”, como aconteceu em 1973, por ocasião da Guerra do Yom Kippur.


REPRESSÃO


Em meio a estes acontecimentos, cresce a repressão dentro do país persa. Os manifestantes que não são mortos nos distúrbios são condenados à pena de morte. Vale lembrar que, em janeiro, Trump suspendeu um anunciado ataque em vista de os aiatolás terem cancelado as execuções de cerca de 800 manifestantes. Todavia, a ONG Iran Human Rights estima que 20 mil pessoas já morreram vítimas da repressão desde o surgimento da República Islâmica do Irã, em 1979. Só nas manifestações de janeiro último teriam morrido 3.117 pessoas. É justamente esta forte repressão que tem desencorajado outros manifestantes a saírem às ruas.


DIVISÃO


Porém, o próprio regime está dividido. Lembrando que o país tem um presidente eleito, que é Masud Pezeshkian. Assim como tem um chanceler, Abbas Araghchi, que são os que estão tratando das negociações com os EUA. Essas conversas, no entanto, estão tendo a contestação da ala clerical, que é, na realidade, quem manda no país. Um dos melhores porta-vozes da ala radical, o diário Kayhan, acusa os integrantes do governo de “vender ilusões e retórica vazia” para alcançar um acordo com os norte-americanos que soa como “inaceitável e contra os interesses do país”. Na realidade, um acordo sobre o programa nuclear terminaria com a pressão estadunidense sobre o país, o que é visto como um campo aberto para a repressão no país. Continuando tudo como está, ou para pior.


INTERVENÇÃO


Neste caso, estaria criado o cenário para as “prolongadas operações no Irã”, segundo classificou o comandante militar dos EUA citado pelo Times. O que teria consequências imprevisíveis, tanto para o Irã quanto para os Estados Unidos. Até porque o cenário iraniano se apresenta como bem mais complexo do que o venezuelano, onde, diga-se de passagem, ainda não há definição.

Correio do Povo

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