TEXTO DO JORNALISTA E PENSADOR FELIPE VIEIRA
O novo livro de Fernando Haddad, Capitalismo Superindustrial, chega às livrarias num momento em que o Brasil enfrenta juros elevados, fragilidade fiscal e crescimento anêmico. A obra revisita ideias de Marx que nunca deram certo em lugar nenhum para interpretar o capitalismo contemporâneo e sustenta que vivemos uma etapa “superindustrial”, marcada pela centralidade do conhecimento e da tecnologia.
O problema não é um ministro da Fazenda escrever — isso é ótimo. Democracias maduras valorizam o debate intelectual. O problema é a dissonância entre teoria e realidade.
O titular da Fazenda não ocupa uma cadeira na academia; está sentado na poltrona responsável pela estabilidade econômica de um país endividado, pressionado por déficits recorrentes e dependente da confiança de investidores.
Enquanto o livro propõe revisões conceituais sobre capitalismo, classes e tecnologia, a economia brasileira lida com problemas objetivos: endividamento crescente, dificuldade de consolidar o ajuste fiscal, baixa produtividade e insegurança jurídica. O investidor não reage a metáforas históricas. Reage a números, credibilidade e previsibilidade.
Não se trata de disputa ideológica superficial. Trata-se de evidência histórica. Reembalar ideias que falharam onde foram aplicadas não as transforma em solução moderna. Atualizar o vocabulário não corrige erros antigos.
O fato de Haddad encontrar tempo em sua agenda para revisitar o marxismo fora da “ilha da fantasia” de Brasília, enquanto o país convive com juros de dois dígitos, pressão inflacionária e déficit persistente, sugere um deslocamento preocupante de prioridades. Parece mais um mergulho no século XIX de Marx e suas ideias retrógradas do que um enfrentamento dos desafios fiscais do século XXI.
A Faria Lima — tão atacada por setores da extrema-esquerda, do PT e por integrantes do próprio governo — apoiou Lula em 2022. Ex-ministros, economistas e formuladores do Plano Real fizeram essa escolha acreditando em moderação, responsabilidade e previsibilidade. Hoje, boa parte desses mesmos nomes aponta frouxidão fiscal, ataques ao Banco Central, dirigismo estatal e ausência de reformas estruturais. O resultado primário deteriorou, a dívida cresce e o risco fiscal pressiona juros e investimentos.
Enquanto o livro propõe revisões conceituais sobre capitalismo, classes e tecnologia, a economia brasileira lida com problemas reais e objetivos: endividamento crescente, dificuldade de consolidar o ajuste fiscal, baixa produtividade e insegurança jurídica. O investidor não reage a metáforas históricas; reage a números, credibilidade e previsibilidade.
No fim das contas, livros explicam o mundo, porque o papel aceita tudo, mas é a economia que revela quando teorias erradas produzem governos errados — e governos errados produzem problemas reais para o povo. Ideias podem e devem ser revisitadas; as contas públicas, mais ainda.
O governo está gastando mais do que arrecada, criando déficit fiscal. Seu João, seu Zé, dona Joana e milhões de brasileiros sabem, na prática, que o orçamento precisa caber dentro do salário. Quando não cabe, a dívida cresce, o cartão estoura e a conta chega. O povo não paga à vista, mas a prazo. Na casa deles não há revisionismo histórico: há orçamento, responsabilidade e consequência.
Lula prometeu picanha farta. Hoje, o brasileiro sente o peso no preço da carne no supermercado, no bolso — a parte mais sensível do corpo humano — e na alma. A conta da ideologia aparece no carrinho de compras.
Não é contra livro. Livros são essenciais.
É contra prioridade trocada.
Como contraponto às revisitações marxistas, valeria a leitura — pelos apoiadores do governo e pelo próprio ministro — de três obras clássicas da tradição liberal que tratam menos de teoria abstrata e mais de resultados concretos. “Capitalismo e Liberdade”, de Milton Friedman, mostra como estabilidade monetária e limitação do Estado foram decisivas para prosperidade em economias abertas. “O Caminho da Servidão”, de Friedrich Hayek, alerta para os riscos institucionais do dirigismo e da concentração de poder econômico nas mãos do governo. E “Por Que as Nações Fracassam”, de Daron Acemoglu e James A. Robinson, demonstra com evidência histórica que instituições inclusivas, segurança jurídica e incentivos ao investimento — e não planejamento central — explicam o sucesso ou o fracasso dos países. São leituras que ajudam a lembrar que crescimento sustentável não nasce de intenção ideológica, mas de regras estáveis, responsabilidade fiscal e liberdade econômica.
Enquanto ocupar o Ministério da Fazenda, Haddad não pode se dar ao luxo de revisitar teorias do século XIX quando o desafio é imediato, concreto e fiscal. O presente e o futuro do Brasil não serão construídos olhando para um passado fracassado. Serão construídos com foco, disciplina e resultado — porque, no fim, quem paga a conta não é Marx. É o povo.
Pontocritico.com
Nenhum comentário:
Postar um comentário