O desarmamento do Hamas

 O presidente norte-americano tem sido o mais interessado no acordo desarmamento por saída, para se ufanar da conquista

Jurandir Soares


A crise do Oriente Médio é pródiga em intolerância e incoerências. Agora, por exemplo, o Hamas anuncia que aceita o seu desarmamento em troca da retirada total de Israel da Faixa de Gaza. Vamos tomar a data de 7 de outubro de 2023, dia do ataque terrorista da organização a Israel, que resultou na morte de cerca de 2 mil pessoas e no sequestro de outras 250. Aliás, uma ação injustificável para os serviços de segurança de Israel, que levaram cinco horas para reagir. Uma mancha para o governo de Benjamin Netanyahu.


Mas o que quero ressaltar é que, até aquela data, Israel estava completamente fora de Gaza. Aliás, de onde saíra em 2005. As cidades da Faixa de Gaza estavam inteiras e a população levava a vida dentro de sua realidade. A qual, sabe-se, não era das melhores, mas tudo estava intacto nas cidades. A vida seguia dentro da “normalidade” da região.


REAÇÃO


O ato terrorista do Hamas levou Israel de volta para Gaza. Com toda a força. Porém, com uma reação totalmente desproporcional, que resultou nas mortes, segundo dados dos serviços humanitários da ONU, de cerca de 70 mil civis palestinos. E na destruição de praticamente todas as cidades da Faixa de Gaza. Algo que prejudicou a imagem de Israel no cenário internacional. Porém, com seu ato de outubro de 2023, o Hamas trouxe as forças israelenses de volta para dentro de seu território, além de ter levado enorme contingente de sua população civil à morte ou à perda de suas casas, seus negócios, sua perspectiva de vida. Então, agora, depois desta situação caótica, negocia o seu desarmamento pela saída de Israel.


TRUMP


O presidente norte-americano tem sido o mais interessado no acordo desarmamento por saída, para se ufanar da conquista. Só que o seu parceiro israelense não está muito disposto a aceitar este acordo. Aliás, tem até continuado os ataques a Gaza, conforme aconteceu neste domingo, 2, com a morte de 15 palestinos. O maior número de vítimas em um só dia desde que entrou em vigor o cessar-fogo.


Acontece que Donald Trump não anda nada satisfeito com Netanyahu, por sentir que este o arrastou para uma fria. Ou seja, para a guerra com o Irã. Uma aventura em que os EUA se meteram e agora não sabem como sair dela. Aventura que, segundo o Departamento de Defesa estadunidense, já custou 37,5 bilhões de dólares. Mais: os Estados Unidos esgotaram mais da metade de seu estoque pré-guerra de mísseis interceptadores Patriot, segundo análise do think tank Center for Strategic and International Studies. E o órgão faz o alerta de que essa redução pode criar desafios de prontidão e dissuasão, caso outro grande conflito surja antes que os estoques sejam repostos.


RESULTADOS


Todo mundo percebe que o resultado desta guerra com o Irã tem sido o pior possível. Além dos gastos bélicos, não conseguiram destituir o regime. Pelo contrário, o mesmo se fortaleceu. Criaram uma crise internacional com a diminuição do fornecimento de petróleo, o que se refletiu inclusive nos EUA, com aumento da inflação e do custo de vida. E ainda criaram um enorme problema, que não existia, para a navegação pelo Estreito de Ormuz.


E agora Netanyahu ainda quer arrastar Trump para mais um bombardeio a uma central nuclear do Irã. Esses aspectos abalaram a relação entre os aliados que, antes da guerra, vinha sendo saudada com ênfase, tendo o israelense declarado que o Republicano era o melhor presidente que Israel encontrara na Casa Branca.


MUDANÇA


Não se pode esquecer que essa guerra arrastou também as monarquias do Golfo Pérsico que, por possuírem em seu território bases dos EUA, acabaram bombardeadas. Neste domingo, Trump disse que iria parar com os ataques em busca de um acordo para reabrir o Estreito de Ormuz e para estancar o programa nuclear do Irã. O caso de Ormuz se assemelha ao do Hamas pedindo a saída de Israel. Ou seja, antes da ação EUA-Israel não havia esse problema. Foi criado com a guerra. Ou seja, até aqui, tudo dentro do contexto de intolerância e incoerência que tem predominado na região.

Correio do Povo

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