Crise em Ceuta: entrada de 60 mil migrantes gera tensão entre Marrocos e UE e ameaça Acordo de Schengen

 


A entrada de cerca de 60 mil pessoas em Ceuta na última semana provocou uma crise diplomática entre Marrocos e Espanha e já produz efeitos sobre a livre circulação de pessoas na Europa.

Segundo as autoridades, os migrantes cruzaram a divisa terrestre entre o território marroquino e o enclave espanhol no norte da África. Pelo menos 77 pessoas morreram na travessia. O governo espanhol classificou o episódio como um "ataque à soberania nacional" e denunciou a ação de redes de tráfico de pessoas.

O caso ocorre em um momento de atritos entre Madri e Rabat. Entre os pontos de tensão estão um projeto de lei espanhol que prevê nacionalidade para saarauís nascidos quando o Saara Ocidental estava sob tutela da Espanha, antes de 1977, e a reaproximação entre Espanha e Argélia, que não reconhece a reivindicação marroquina sobre o Saara Ocidental. Pesa ainda a aliança entre Marrocos, Estados Unidos e Israel - desde 2020, ainda no primeiro governo Donald Trump, Washington reconhece a soberania marroquina sobre o território.

Impacto nas relações com a UE

Para o professor de Relações Internacionais Felipe Dalcin, da Unochapecó e diretor de pesquisa do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (Isape), o episódio vai além da relação bilateral.

"Representa uma crise nas relações entre Marrocos e Espanha, mas também as relações entre o país africano com a União Europeia. Pode ter uma reverberação negativa para Marrocos, na forma de sanções econômicas e piora das relações políticas", avalia.

Dalcin aponta que há uma pressão militar e política sobre a Espanha, que precisa deslocar efetivo para defender Ceuta e Melilla, cidades autônomas espanholas em território africano cuja soberania é reivindicada por Marrocos desde sua independência, em 1956.

"A gente pode dizer de certa maneira que há uma utilização geopolítica de Marrocos de querer liberar essa fronteira, porque aumenta os custos políticos, econômicos e de Defesa para controlar esses territórios. E gera pressão também dos outros países da União Europeia em relação à Espanha, de falar 'como assim? controla teu território, Espanha'."

Episódio semelhante ocorreu em 2021, quando cerca de 5 mil pessoas entraram em Ceuta em um único dia, também em meio a uma crise diplomática após a Espanha acolher o líder do Saara Ocidental, Brahim Ghali, para tratamento de covid-19.

Efeito sobre Schengen

O Espaço Schengen, que garante a livre circulação sem controle de passaporte entre os países signatários, pode ser afetado. A Itália já anunciou a suspensão do acordo com a Espanha e líderes da UE discutem uma resposta conjunta para reforçar fronteiras.

"Quando você viaja, por exemplo, de Portugal para a França, você não tem um controle do seu passaporte. Então esses imigrantes poderiam simplesmente passar as fronteiras sem ter um controle específico. E o temor de que esses países recebam um grande fluxo de imigrantes faz com que alguns países tenham reagido, como a Itália que fechou fronteiras", explica Dalcin.

O professor alerta ainda para outro efeito possível: o crescimento de discursos xenófobos na Europa, direcionados não apenas aos recém-chegados, mas também a imigrantes já integrados, discurso frequentemente explorado por partidos de extrema-direita.

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