Crise em Ceuta: centenas de menores desacompanhados dormem ao relento após travessia a nado desde o Marrocos
Com camisetas sujas, centenas de menores desacompanhados dormiam ao relento neste sábado (1º) em um parque industrial desativado de Ceuta, enclave espanhol no norte da África, após atravessarem o mar a nado desde o Marrocos para tentar chegar à Europa continental.
Entre galpões abandonados de paredes vermelhas e amarelas, adolescentes contaram à AFP que mal comeram nos últimos quatro dias. No interior de um galpão com forte mau cheiro, piso coberto de água e lama, alguns tomavam banho com uma única mangueira e outros cochilavam nas calçadas. Um jovem de 17 anos mostrou uma cama improvisada feita de barras de metal e paletes.
"Marrocos, não! Espanha", gritavam alguns, segurando a camisa da seleção espanhola e gritando "Viva a Espanha!". Um garoto disse ter 14 anos e ter vindo sozinho, apontando para lixo e caixas de papelão onde dormia.
Onda migratória sem precedentes
Eles fazem parte de uma onda migratória histórica. Segundo o presidente do governo local, Juan Jesús Vivas, cerca de 60 mil migrantes chegaram a Ceuta em dois ou três dias desta semana — o Ministério do Interior espanhol estima 50 mil. A maioria nadou ao redor do pequeno posto fronteiriço no Mediterrâneo. Pelo menos 67 morreram na travessia, segundo o ministro Fernando Grande-Marlaska.
A maior parte dos recém-chegados já foi devolvida ao Marrocos, mas os mais jovens permaneceram. Em outras áreas da cidade, soldados conduziam centenas de migrantes até a fronteira para retorno.
No parque industrial, não havia policiais, apenas seguranças de uma fundação humanitária (SAMU), que administra o local com o governo regional e se recusou a falar com a imprensa.
"Ninguém cuida das crianças"
O artigo 35 da Lei de Estrangeiros da Espanha determina assistência imediata de serviços de proteção à infância para migrantes desacompanhados suspeitos de serem menores, com posterior decisão judicial sobre eventual retorno.
Mas no local, relatos são de abandono.
"Ninguém está cuidando dos menores desacompanhados. Não há comida. Hoje não comemos", disse a filha de 17 anos de Aziz Dabch, 41, que veio de Kenitra com a esposa e duas filhas.
Uma mulher de 45 anos de Tânger, que atravessou a nado com marido e filha e não quis se identificar por estar irregular, afirmou: "Há muitos menores. Não vejo ninguém cuidando deles. Há uma falta de higiene catastrófica: mau cheiro, lixo".
"Queremos chegar à Espanha e trabalhar lá por causa da pobreza no Marrocos. Alguém deveria cuidar dos menores, permitir que eles tomassem banho, dar-lhes roupas, comida e um lugar para dormir", completou.
As autoridades locais e o governo central espanhol não responderam aos questionamentos da AFP neste sábado.

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