A invasão de Ceuta

 Episódio gerou uma rápida mobilização militar repressiva espanhola

Jurandir Soares


O mundo foi sacudido recentemente por uma mobilização de cerca de 70 mil pessoas, que saíram do Marrocos e se dirigiram para a cidade de Ceuta, que é uma possessão da Espanha dentro do território marroquino. Teoricamente, essas pessoas iam em busca de ingressar na União Europeia, tendo em vista que a Espanha é membro da comunidade e seu governo, liderado pelo socialista Pedro Sánchez, admitiu, recentemente, cerca de 500 mil imigrantes como cidadãos espanhóis. O que quer dizer cidadãos europeus.


O episódio gerou uma rápida mobilização militar repressiva espanhola, que resultou no afastamento dos invasores, com as mortes de pelo menos 57 deles. Mas gerou também uma série de protestos na Europa contra a Espanha e também especulações sobre os interesses que estavam por trás dessa mobilização. Inclusive com suspeitas de um dedo do presidente americano Donald Trump, que estaria dando apoio ao Marrocos, na sua reivindicação de soberania sobre Ceuta e Melilla, outra cidade no território marroquino sob domínio da Espanha.


HISTÓRICO


Para entender a situação, primeiro vamos dar um mergulho na História para conhecermos os fatos. A origem de Ceuta e Melilla como territórios espanhóis na África remonta aos séculos XV e XVI, período da expansão ibérica e da Reconquista, com Melilla ocupada pela Espanha em 1497 e Ceuta conquistada inicialmente por Portugal em 1415 e transferida para a Espanha em 1668. Melilla passou ao controle da Coroa Espanhola em 1497, sob o comando de ducado ligado à casa de Medina Sidonia, integrando-se logo depois ao reino espanhol. Ceuta foi tomada pelos portugueses em 1415 durante a expansão ultramarina. Após a União Ibérica (1580-1640), quando Portugal e Espanha se uniram sob o mesmo rei, Ceuta permaneceu com a Espanha por escolha própria ao final do domínio lusitano, sendo formalizada pelo Tratado de Lisboa de 1668.


HOJE


Quando o Marrocos obteve sua independência da França e da Espanha em 1956, Madri manteve a soberania sobre as duas cidades, por já estarem sob domínio espanhol, séculos antes da criação do Estado marroquino moderno. Ambas seguiram como cidades autônomas da Espanha e, por conseguinte, fazendo parte da União Europeia. O Marrocos, no entanto, passou a incrementar a sua luta diplomática pela conquista das cidades, citando a anomalia de ter duas cidades espanholas europeias dentro de seu território marroquino africano. Na mesma ocasião, o Marrocos lutou para defender também sua soberania sobre o Saara Ocidental. Uma província do Oeste africano que até 1976 esteve sob domínio espanhol, passando depois para o controle da chamada Frente Polisário de Libertação. Recentemente, Trump reconheceu a soberania do Marrocos sobre o território.


ACORDOS


Este reconhecimento está inserido no contexto de Trump ter arrastado o Marrocos para os chamados Acordos de Abraão que, em sua administração anterior, ele mediou entre Israel e países árabes. E aí vem um detalhe muito importante: a acusação de que Trump estaria apoiando a mobilização dos invasores de Ceuta, não só por este aspecto, mas também pelo fato de estar indignado com o chefe do governo espanhol, por este ter se colocado contra a guerra do Irã e ter negado o fornecimento de bases espanholas como apoio às mobilizações militares americanas para o mesmo conflito.


POSIÇÕES


Assim é que a questão da soberania de Ceuta e Melilla ganhou nova e complicada conotação. Fazendo com que o governo espanhol manifestasse sua indignação quanto ao tema e quanto às mobilizações ocorridas na Europa contra a Espanha. Como também levantasse outra questão: a soberania do Reino Unido sobre Gibraltar, situado dentro do território espanhol, na entrada do estreito que leva o seu nome. Assim, curiosamente, tem-se, do lado europeu, uma cidade espanhola sob domínio britânico e, do lado africano, uma cidade marroquina sob domínio espanhol.


Ao mesmo tempo, temos uma questão de migração, que se intensificou nos últimos anos e que está provocando uma fissura numa das maiores conquistas dos últimos tempos, que é a União Europeia, com sua livre circulação de pessoas, mercadorias e empregos. Algo que acaba se enfraquecendo hoje por conta, não de problemas originários na Europa, mas na África e no Oriente Médio.

Correio do Povo

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Vídeo - Smart TV TCL 115" 4K UHD QLED Mini LED – Modelo 115C7K (2025)

Smart TV TCL 115" 4K UHD QLED Mini LED – Modelo 115C7K (2025)

Smartphone Samsung Galaxy Z Flip4 128GB Azul - 5G Octa-Core 8GB RAM Câm. Dupla + Selfie 10MP