A GLORIOSA FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA (XIII)
No artigo anterior, abordamos, sucintamente,
os pródromos da entrada do
Brasil na Segunda Guerra Mundial. A principal
causa da decisão brasileira foi o afundamento,
por torpedos de submarinos inimigos,
de 34 navios mercantes e 4 navios
da Marinha de Guerra, no Mediterrâneo,
no Atlântico Norte e em nosso litoral, atingindo
o expressivo número de 972 mortos
(470 tripulantes e 502 passageiros). Os
navios brasileiros sofreram ataques de 19
submarinos alemães e 1 italiano, especialmente
nas costas da Bahia e Sergipe, havendo
uma praia, neste estado da Federação,
que ficou conhecida como “Praia dos
Náufragos”. Apenas um submarino corsário,
de prefixo U-507, comandado pelo capitão
de corveta Harro Schacht, ceifou 607
preciosas vidas humanas. Tal submarino
foi enviado às costas brasileiras pelo almirante
Karl Doenitz, oficial submarinista
comandante da frota de operações com
submergíveis alemães. Mas, a noroeste da
cidade de Natal, em 13 de janeiro de 1943,
um avião catalina da Marinha dos EUA
bombardeou e lançou cargas de profundidade
sobre o temível U-507, que emergira,
destruindo-o, não restando sobreviventes
de seus 54 tripulantes... Em complemento,
consigne-se que o dito submarino
foi o que mais atrocidades praticou, afundando
19 navios, sendo 6 brasileiros.
Entretanto, por falta de espaço, deixamos
de relatar como se deu o torpedeamento do navio Itagiba, em 17 de agosto de
1942, na costa da Bahia. O navio conduzia uma parte do 7° Grupo de Artilharia de Dorso
para o Recife, a fim de reforçar a defesa do litoral nordestino, quando foi a pique por
torpedos do já tão mencionado U-507. Houve 36 vítimas (10 tripulantes e 26 passageiros),
mas desta feita, a maioria conseguiu se salvar. Durante o naufrágio, aconteceram
cenas dantescas de grande dramaticidade,
porém de genuíno desprendimento e intrépida bravura,
com o sacrifício voluntário da própria vida, de
alguns de nossos intimoratos compatriotas. Urge
destacar as ações de coragem, heroísmo e incomensurável
solidariedade humana do 1° tenente de
nome Alípio Napoleão de Andrada Serpa, quando
do afundamento do dito navio. Para bem aquilatarmos
a grandeza desse então muito jovem oficial,
vejamos o que disse o 3° sargento Pedro Paulo de
Figueiredo Moreira, posteriormente integrante da
FEB. Contou-nos o sargento em certo trecho de
suas pungentes recordações: “Assisti algumas
cenas que jamais pensei de presenciar na minha
vida durante o tempo em que estive abraçado aos
destroços do navio. Vi companheiros meus serem
puxados por tubarões, dando gritos de dor e desaparecendo;
outros, mais fracos, perderam o juízo
diante de tanta barbaridade, proferindo frases sem
nexo, tais como: “Eu quero café”!; “Espere minha
mãe”!; “Vou a pé”! e desapareciam na profundeza
do mar”. E mais à frente: “No naufrágio do navio
Itagiba destaco duas figuras realmente excepcionais. O tenente Alípio de Andrada
Serpa que soube, no momento do bárbaro e covarde atentado, portar-se como
verdadeiro líder, atento e atuante, dotado de exata noção do cumprimento do dever
e o nosso soldado Walter Silero Fix. No desejo de salvar a todos os seus comandados, o
tenente morreu tragado pelo oceano (grifo nosso) vítima da ação cruel e covarde dos
nazistas. Não posso deixar passar essa oportunidade sem ressaltar o heroísmo e
bravura daquele jovem oficial de nosso Exército. O desassombro do tenente Alípio
Serpa, bravo oficial do glorioso Exército, ficou como um belo exemplo para todos os
brasileiros. Eu estava correndo transtornado, em busca de um salva-vidas, vendo-me,
deu-me o seu, dizendo: “Calma, seu Figueiredo, muita calma!”, quando então eu lhe
disse: “Este é seu, tenente. O senhor não vai deixar o navio?” Respondeu-me: “Sairei
depois de todos os meus soldados, fique com o salva-vidas”. Sinto-me feliz por poder,
publicamente, demonstrar minha gratidão pela sua impressionante solidariedade
humana em tão trágico momento. Não seria justo também deixar de enaltecer o nome
de meu velho amigo, hoje falecido, soldado Walter Silero Fix, pelo belo gesto heroico
e de amor ao próximo, salvando a menina Vera Beatriz, filha do capitão Tito Canto,
tomando-a nos braços e só a deixando em terras firme. Ele obteve o respeito e a
admiração de todos
com aquela atitude!”. (Observação: depoimento
excerto da “História Oral do Exército
na Segunda Guerra Mundial, II Guerra
Mundial, tomo 6, Biblioteca do Exército
(Bibliex) Editora, ano 2000”). Por ilustração,
acrescente-se que o valoroso 1° tenente
Alípio Napoleão de Andrada Serpa
era o irmão mais novo de dois lendários
oficiais-generais que atingiram o mais alto
posto da hierarquia militar: os generais de
Exército José Maria e Antônio Carlos de
Andrada Serpa; eles eram descendentes
de José Bonifácio de Andrada e Silva, “O
Patriarca da Independência”.
Mais um modelar e notável exemplo
que honra a História Marítima Brasileira:
quando do afundamento, em 19 de julho de
1944, do navio da Marinha de Guerra, “Vital
de Oliveira”, pelo U-861, o seu comandante,
capitão de fragata (ao depois foi
contra-almirante) João Batista de
Medeiros Guimarães Roxo, por ocasião
do torpedeamento, no cumprimento de
uma prístina tradição naval - uma
honorável antigualha cuja fama se perde
distante -, foi o último a abandonar o
navio, já prestes a soçobrar nas águas
do oceano... O naufrágio ocasionou para
a Marinha de Guerra, uma triste, trágica
e irreparável perda de 99 homens, entre
os quais 3 jovens oficiais - um 2° tenente
e 2 guardas-marinhas -, além de 3
suboficiais, 15 sargentos, 61 cabos e marinheiros, 6 fuzileiros navais, 11 taifeiros e um
menor que era passageiro.
Finalizamos este texto com a lembrança de dois relevantes e pouco conhecidos
assuntos que dizem respeito ao brioso 9° Batalhão de Engenharia de Combate,
“Batalhão Carlos Camisão”, de Aquidauana - MS. Este batalhão, a única Unidade da
Arma de Engenharia a compor a Força Expedicionária
Brasileira, foi a primeira tropa do então “Destacamento
FEB” a entrar em ação, ou seja, que concretizou
o nosso ‘batismo de fogo’. Isso no início do
mês de setembro de 1944, quando da construção
de uma ponte sobre o rio Arno. Os alemães haviam
destruído uma ponte de concreto lá existente
e sobre os destroços dela, a 1ª Companhia do
Batalhão Carlos Camisão, em tempo recorde, construiu,
em situação de combate (!), uma ponte de
passarela, cujo início se deu em 5 de setembro e
o término em 7 de setembro, sendo denominada,
“ipso facto”, de “Ponte Sete de Setembro” - data
de nossa Independência, pelo que todos jubilaram
de alegria! Após o término da missão, o
general Mark Clark considerou a tropa do “Destacamento
FEB” apta para o combate e, efetivamente,
logo a empregou na região do rio Serchio,
o que caracteriza, segundo historiadores militares,
a primeira fase das operações brasileiras na
campanha da Itália...
Também lembramos que o glorioso 9° Batalhão
de Engenharia de Combate levou para a guerra pouco mais de uma dezena de
índios da etnia ‘terena’, com destaque para o 2 ° sargento indígena Wenceslau Ribeiro.
A nominata desses bravos aborígines encontra-se no histórico e importante livro
“Na Itália com a FEB”, de autoria do capitão Adriano Pires Ribas.
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