Mesmo sem o Brasil, segue a busca pela última figurinha
Na reta final da Copa, colecionadores seguem comprando envelopes, disputando cromos e transformando bancas e livrarias em pontos de encontro para completar o álbum
A cada quatro anos, o álbum da Copa do Mundo reaparece nas bancas, e suas figurinhas são motivo para negociações, encontros e até pequenas frustrações. Na reta final do Mundial, a corrida já não é mais pelo próximo jogo do Brasil, mas pela última figurinha que falta para completar uma coleção que, para muitos, vai além do campeonato e passa a fazer parte da memória de cada Copa.
Há mais de 30 anos trabalhando em bancas de jornal, Rafael Figueira Martins viu diferentes gerações repetirem o mesmo hábito e garante que a procura pelas figurinhas segue mesmo com a competição chegando ao fim.
"Não vi essa queda que o pessoal disse que teve porque o Brasil caiu. O pessoal veio direto continuar comprando. Acho que também ficou aquele medo de depois não conseguir completar o álbum", conta.
Além das figurinhas vendidas nos pacotes, chegou ao mercado o kit de atualização. Lançado nas últimas semanas, o complemento trouxe um novo obstáculo para quem desejava completar a coleção: o preço. Comercializado por cerca de R$ 120, o kit reúne jogadores que ficaram de fora da versão original, entre eles Neymar. O vendedor acredita que muitos consumidores hesitam diante do valor elevado, mas a procura acabou surpreendendo. "Acho que eles (comerciantes) não acreditaram muito porque estava caro e o Brasil já tinha perdido. Mesmo assim vendeu, porque o pessoal já tinha comprado o álbum e queria completar.”
Na Livraria Leitura, no BarraShoppingSul, a reta final da Copa também mudou o perfil dos compradores. Se nas primeiras semanas predominavam consumidores iniciando a coleção, agora quem procura os envelopes normalmente já está próximo de completar o álbum. Para o sócio-administrador da rede, Davi Correa Spach, esse comportamento é natural e acompanha edições anteriores do Mundial. Segundo ele, aproximadamente 80% das vendas de envelopes acontecem antes mesmo do início da Copa. Depois que a competição começa, as vendas diminuem gradualmente e, após a eliminação do Brasil, passam a ser sustentadas principalmente pelos colecionadores mais dedicados.
"As pessoas que realmente gostam fazem questão de terminar. O álbum vira um artigo de colecionador. Ele tem um valor sentimental e também histórico", explica.
Hoje, conta Spach, o volume comercializado representa cerca de um quarto do registrado no auge da competição, mas essa redução já faz parte do planejamento. "A gente já sabe como essa venda acontece. Trabalha o estoque pensando nisso. Até um mês depois da Copa ainda continua vendendo, porque o pessoal segue procurando as figurinhas que faltam.”
Na busca pelos últimos espaços em branco do álbum, alguns jogadores acabam se tornando protagonistas também fora dos gramados. Cristiano Ronaldo e Lionel Messi aparecem entre os nomes mais procurados pelos consumidores, enquanto Neymar ganhou destaque apenas com o lançamento do kit de atualização. Segundo Spach, a primeira remessa do complemento esgotou rapidamente. "Eu fiz uma compra e vendi tudo no final de semana. Agora estou esperando chegar mais", diz. Ainda assim, ele ressalta que o kit representa apenas uma pequena parcela das vendas. A maior parte dos consumidores continua preferindo comprar envelopes, na expectativa de encontrar também as demais figurinhas que ainda faltam.
Completar o álbum é o objetivo final, mas o processo envolve trocas e não apenas de figurinhas.
"A gente sabe que a pessoa compra e vem aquela frustração de encontrar figurinha repetida. Então a loja faz esse investimento (nos espaços de troca) justamente para facilitar as trocas e tornar a experiência mais legal. Hoje em dia todo mundo está olhando para o celular, e ali elas acabam se encontrando", diz Spach. A experiência também influencia diretamente nas vendas. "Se eu não tivesse um ponto de troca, tenho certeza de que venderia muito menos."
Na banca Maiser, na Praça da Alfândega, Martins percebe o mesmo fenômeno. Nos horários de almoço, a calçada volta a ficar cheia de torcedores carregando listas, álbuns e montes de figurinhas repetidas. A tradição, segundo ele, ganhou força especialmente a partir da Copa de 2014, quando os encontros passaram a ser divulgados e atraíram um público cada vez maior. "De lá para cá não preciso fazer força. Todo mundo sabe que aqui sempre tem gente trocando", diz. Para incentivar ainda mais o movimento, ele vende figurinhas avulsas, uma alternativa para quem já perdeu a esperança de encontrar determinado cromo nos envelopes.
Embora o ritmo de vendas diminua conforme a competição se aproxima do fim, tanto bancas quanto livrarias sabem que o ciclo do álbum não termina com o apito final da Copa. Martins conta que costuma guardar estoques mesmo depois que a distribuidora encerra as vendas, porque a procura continua durante meses.
“O negócio é completar. Sempre aparece gente procurando.”
A frase ajuda a explicar por que, a poucos dias da decisão do Mundial, as figurinhas ainda movimentam prateleiras, praças e mesas de troca. Completar o álbum continua sendo uma tradição que atravessa gerações e resiste até mesmo a eliminação brasileira.
Correio do Povo
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