Museu Estadual do Carvão recebe acervo de clubes esportivos da Região Carbonífera

 Fotos, cartas e diversos tipos de documentos ajudam a contar a história dos trabalhadores da mineração



O Museu Estadual do Carvão, instituição da Secretaria da Cultura (Sedac) localizada em Arroio dos Ratos (RS), recebeu um conjunto de documentos de clubes esportivos da Região Carbonífera. São cartas, ofícios, fotos, tabelas de jogos e campeonatos, entre outros materiais, produzidos e armazenados pelas agremiações entre as décadas de 1930 e 1980. O acervo vai passar por um processo de higienização e classificação, para ser incorporado ao Arquivo Histórico da Mineração. O objetivo é preservar os itens e disponibilizá-los ao público interessado na memória das pessoas que formaram o território.


A doação foi feita por Vili Tissot, que descobriu os documentos durante a realização de um projeto comunitário com crianças em idade escolar, na sede do Sport Clube Guarani, em Arroio dos Ratos. Na busca por um local onde pudesse guardar seus materiais, acabou localizando um armário repleto de documentos. Entendendo a importância da descoberta, solicitou autorização do clube para guardá-los em casa e ir em busca de quem pudesse recebê-los.


De acordo com a historiadora do Museu do Carvão, Liana Ribeiro, receber um acervo tão singular demonstra a confiança que a população têm na instituição e atesta que o Museu é referência na valorização das diversas dimensões que compõem a trajetória da mineração. “Essas agremiações esportivas surgiram nas primeiras décadas da mineração de carvão na região. Ainda que tenham se modificado bastante ao longo do tempo, elas desempenham, ainda hoje, um papel importante nessas localidades”, afirma.


Liana relata que o material traz, por exemplo, nomes e fotos de antigos membros, evidenciando como esses espaços foram relevantes para os trabalhadores da época. “Isso revela o alcance dos clubes esportivos na Região Carbonífera. Certamente, muitos outros aspectos das dinâmicas das vilas mineiras poderão ser descobertos a partir desses registros”, completa.


O esporte como fonte de memória


Tassiane de Freitas, doutora em História e autora de pesquisa que analisa as experiências dos trabalhadores da mineração de carvão no Rio Grande do Sul a partir de espaços de lazer e encontros, levanta como uma das hipóteses para a inserção do futebol nas localidades a influência inglesa, a partir da imigração no século 19. Durante o seu estudo, ela identificou descendentes dessas famílias atuando em associações.


A pesquisa relata que, no século 20, as empresas mineradoras alcançaram lucros excepcionais com o aumento de exportações de carvão mineral, o que permitiu o investimento em entidades esportivas e sociais, por meio de apoio a sedes e materiais. Na época, predominava uma visão de que as práticas esportivas seriam uma ferramenta de aperfeiçoamento moral e físico dos trabalhadores, afastando-os de práticas consideradas degradantes, como jogos de cartas ou de azar e o consumo de bebidas alcoólicas. Assim, a prática do futebol, por exemplo, era vista pelas mineradoras como mais um instrumento de disciplina e controle dos operários, para além de seus locais de trabalho.


No entanto, através desses espaços, se desenvolveu uma sociabilidade e agência própria daqueles trabalhadores, fundamental para a continuidade dos clubes mesmo após o declínio da mineração. Agora, uma parte relevante dessa história pode ser resgatada e revisitada na documentação do Arquivo Histórico da Mineração.


As informações foram concedidas pela Secretaria de Estado da Cultura (Sedac-RS).

Correio do Povo

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