Jornalista relata drama do vício em bets: "Passei por internamento"
"Ia ao banheiro inúmeras vezes durante o dia, tal qual um usuário de cocaína, enquanto minha companheira à época ficava com nossa filha recém-nascida..."
É fato. Faltando pouco mais de uma semana para o pleito, a medida provisória assinada pelo presidente Lula, candidato à reeleição, é eleitoreira. E daí? Se no futuro este movimento representar o fim das bets em definitivo no Brasil, tudo terá valido a pena. Os fins justificam os meios, já dizia Maquiavel.
Neste momento, a discussão deveria ser outra. Se Lula age bem ao proibir as casas de apostas e cassinos virtuais de funcionarem no Brasil. A resposta é óbvia: sim. Os jogos de azar são problema de saúde pública no país apenas oito anos após a legalização e três desde a regulamentação. O transtorno psicológico classificado como ludopatia e tipificado pela OMS sob o CID-11, código 6C50, é uma doença que avança no ritmo da propaganda, por toda parte.
As apostas online retiraram cerca de R$ 140 bilhões do PIB brasileiro no ano passado, de acordo com o Made-USP, Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo. A explicação é simples. O cidadão deixa de comprar fraldas para os filhos, de pagar a conta de luz, de injetar dinheiro no comércio, mas não deixa de apostar.
Como eu posso afirmar com tanta certeza? Porque eu fiz isso. Ia ao banheiro inúmeras vezes durante o dia, tal qual um usuário de cocaína, enquanto minha companheira à época ficava com nossa filha recém-nascida. Sentado na privada, mandava mensagens desesperadas pedindo dinheiro emprestado aos amigos e montando apostas combinadas de vários jogos, sempre na esperança de recuperar alguns milhares perdidos.
Passei por internamento em 2020 e ainda sofro ao ver a tela do celular bombardeada por anúncios quando vou abrir um vídeo no YouTube ou escolher uma série para assistir no streaming. A Bet365, "minha droga de escolha" na época em que apostava, garante: "estamos dando poder em suas mãos". Sem dúvidas, poder de destruição.
Nesta semana fui informado pelo pai de um bom amigo que ele está internado, mais uma vítima das bets. São muitos os casos de conhecidos internados, com dependência cruzada em jogos de azar e drogas ou apenas ludopatia, perdendo a luta para o vício e quantias que chegam até a casa do milhão.
A medida provisória do presidente Lula vai acabar com isso? Provavelmente não, porque o jogo rola solto em cassinos clandestinos presenciais e online. Mas, é um avanço considerável para começar a virar o jogo.
Muita coisa pode acontecer a partir de agora, a depender do resultado da eleição e da revisão do Congresso dentro de 120 dias, para que a MP vire lei. Porém, até lá, que a vida volte a ser como era antes. E que tenhamos mais influenciadores como Gustavo Scarpa, o divulgador de livros, do que como Virgínia, Neymar, Gusttavo Lima, Deolane e a Turma do Tigrinho.
Leonardo Bessa é jornalista, tem 42 anos, e em 2020 passou 67 dias internado tratando dependência química e ludopatia. Fundou a Bessa Comunicação em 2015 (assessoria de imprensa), formou-se na PUC-PR em 2006 e trabalhou em rádio (Banda B, CBN Curitiba) e na RPC TV (afiliada da Globo).

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