Cabo Verde: a história e a alma de um país feito de mar, vento e mistura

 


Onde fica e como é
Cabo Verde é um país-arquipélago no meio do Atlântico. São 10 ilhas vulcânicas, 9 delas habitadas, espalhadas numa área de 4.033 km². Ficam entre 600 e 850 km da costa do Senegal, bem na ponta oeste da África. Junto com Açores, Canárias, Madeira e Selvagens, faz parte da Macaronésia.

As ilhas se dividem em dois grupos que todo cabo-verdiano conhece de cor:

  • Barlavento, ao norte: Santo Antão, São Vicente, Santa Luzia - desabitada -, São Nicolau, Sal e Boa Vista.
  • Sotavento, ao sul: Maio, Santiago, Fogo e Brava.

O ponto mais alto do país é o Pico do Fogo, um vulcão ainda ativo com 2.829 m. A última erupção foi em 2014. A paisagem muda muito: de salinas enormes no Sal e Maio, a montanhas verdes cortadas por ribeiras em Santo Antão e Santiago, até praias de areia branca na Boa Vista.

Clima: sol, vento e pouca chuva
Cabo Verde tem basicamente duas estações: "as-águas", de agosto a outubro, quando pode chover - mas a chuva é irregular e às vezes nem aparece; e "as-secas", de dezembro a julho, tempo das brisas. A Corrente das Canárias deixa a temperatura agradável o ano todo: entre 20°C e 25°C. A água do mar varia de 21°C em fevereiro a 25°C em setembro. O vento é constante. Quando vem o harmatão do Saara, traz a "bruma seca" e até fecha aeroportos.

De onde vem o nome
O nome não nasceu nas ilhas. Em 1444, navegadores portugueses avistaram o Cabo Verde, no Senegal. Anos depois, quando acharam o arquipélago, batizaram com o mesmo nome. Desde 2013, a ONU usa só "Cabo Verde", sem traduzir.

História: do vazio à independência
Até o século XV, ninguém morava ali. Os portugueses chegaram por volta de 1460 e começaram a povoar Santiago e Fogo. A localização era perfeita: no meio das rotas do Atlântico. A Ribeira Grande, em Santiago, virou um grande entreposto do comércio de pessoas escravizadas. Isso trouxe riqueza nos séculos XVI e XVII, mas também piratas e corsários.

Quando o tráfico foi proibido em 1876, a economia desabou. Veio a pobreza, a fome. Entre 1941 e 1948, as secas mataram mais de um terço da população e Portugal não ajudou. Muita gente emigrou.

A luta pela independência se juntou à da Guiné-Bissau. Em 1956 nasceu o PAIGC, com Amílcar Cabral na liderança. Diferente da Guiné, não houve guerra em Cabo Verde. A pressão foi política. Depois da Revolução dos Cravos em Portugal, em 25 de abril de 1974, o processo acelerou. Em 5 de julho de 1975, Cabo Verde virou independente, na cidade da Praia.

De 1975 a 1990, o PAICV governou sozinho. Em 1991, vieram as primeiras eleições multipartidárias. Desde então, o país é uma das democracias mais estáveis da África.

Quem é o povo cabo-verdiano
São cerca de 550 mil pessoas vivendo nas ilhas, mas há mais cabo-verdianos fora do que dentro. Estados Unidos e Portugal têm as maiores comunidades da diáspora. O povo é resultado da mistura: africanos, europeus - principalmente portugueses -, e também judeus do Norte da África. Não existem etnias em Cabo Verde. O que existe é crioulo, cultura própria.

A população é jovem: 40% tem menos de 14 anos. A expectativa de vida é a mais alta da África continental junto com Tunísia e Líbia - 75 anos no geral, 79 para mulheres e 71 para homens. A mortalidade infantil caiu de 110‰ em 1975 para 20‰ em 2004.

Fé, língua e identidade
72,5% são católicos. Mas tem Igreja do Nazareno, Adventistas, Mórmons, Testemunhas de Jeová, muçulmanos, bahá’ís e judeus. A liberdade religiosa é total.

A língua oficial é o português - usado na escola, no governo, nos jornais. Mas a língua do coração é o crioulo cabo-verdiano, o "kriolu". Cada ilha tem seu jeito de falar. O crioulo está sendo padronizado para virar segunda língua oficial. Francês e inglês também são ensinados nas escolas.

Como o país se organiza
Cabo Verde é uma república semipresidencialista. O presidente é eleito por 5 anos. O primeiro-ministro comanda o governo. A Assembleia Nacional tem 3 partidos principais: MpD, PAICV e UCID. Em 2012, ficou em 26º no Índice de Democracia mundial.

São 22 concelhos espalhados pelas 9 ilhas habitadas. Praia, em Santiago, é a capital e maior cidade. Mindelo, em São Vicente, vem em segundo e é considerada a capital cultural.

Economia: sem recursos, mas com criatividade
Cabo Verde não tem grandes riquezas minerais. Sofre com seca crônica. A agricultura só cobre 10% do que o país consome. Então, a saída foi o setor de serviços: 80% do PIB vem dali. Turismo é o que mais cresce, principalmente no Sal e na Boa Vista.

Pesca, café, banana e cana-de-açúcar também ajudam, mas em pequena escala. As remessas dos emigrantes são vitais. Portugal é parceiro chave: ajudou a indexar o escudo cabo-verdiano ao euro.

Em 2007 entrou na OMC. Em 2008, deixou de ser considerado "subdesenvolvido" e passou a "renda média". Santiago responde por mais de metade do PIB. Depois vem São Vicente e Sal.

Infraestrutura que conecta ilhas
Para vencer o mar entre as ilhas, Cabo Verde investiu pesado em aeroportos. São 4 internacionais: Amílcar Cabral no Sal, Nelson Mandela na Praia, Aristides Pereira na Boa Vista e São Pedro em São Vicente. Barco também rola, mas avião é mais usado. Dentro das cidades, tem autocarros e táxis.

Na saúde, são 6 hospitais regionais e vários centros de saúde. A taxa de HIV é baixa. Na educação, o ensino primário é obrigatório e gratuito dos 6 aos 14 anos. 90% dos adultos são alfabetizados. A Universidade de Cabo Verde é a principal instituição de ensino superior.

Cultura: o terceiro elemento
Cabo Verde não é África + Europa. É outra coisa. Uma cultura nova, nascida da mistura de 500 anos.

Música
É o que o país tem de mais famoso. Morna, coladeira, funaná, batuque. Cesária Évora, a "diva dos pés descalços", levou a morna para o mundo. Bana, Ildo Lobo, Travadinha são outros nomes gigantes. Hoje, Mayra Andrade, Lura e Sara Tavares continuam o legado. O Carnaval de Mindelo é tão forte que chamam a cidade de "Brazilim".

Comida
A base é milho, feijão, arroz e peixe. O prato nacional é a cachupa: um cozido lento de milho, feijão, carne ou peixe. O pastel, recheado, é o aperitivo de todo dia. Fruta tem sempre: banana, papaia, manga na época.

Desporto
Basquetebol é o que mais deu alegria: bronze no Afrobasket de 2007. Walter Tavares chegou à NBA e hoje brilha no Real Madrid. Futebol também cresce: os "Tubarões Azuis" já foram a 4 Campeonatos Africanos e sonham com a Copa do Mundo de 2026. E tem o mar: windsurf e kitesurf são tradição. A ilha do Sal recebe etapa da Copa do Mundo de Kite-Surf. Mitu Monteiro foi campeão mundial em 2008.

Cinema
O documentário "Tchindas", sobre o Carnaval de São Vicente, ganhou prêmio no Outfest de Los Angeles em 2015.

Cabo Verde hoje
É um dos países mais desenvolvidos e democráticos da África. Sem grandes recursos naturais, apostou nas pessoas, na estabilidade e na cultura. Tem problemas, claro: seca, dependência de importação, desemprego. Mas tem também uma diáspora forte, um crioulo que une todo mundo e uma música que ninguém esquece.

Como dizem por lá: Cabo Verde não é um país pobre. É um país sem recursos, mas rico de gente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário